A paz na ponta dos dedos
O Vasco estreou sua seleção, mas da dita cuja, mesmo, pouco se falou, antes, durante e depois do jogo com o Melbourne, no Maracanã. O babado dos jornalistas, o tempo todo, foi a relação pessoal da dupla. Houve repórter de latinha que ficou, horas e horas, pendurado no basculante do vestiário, só pra ver como andavam as coisas entre os dois. Do ajantarado, na concentração, já vazara a notícia de que os dois sentaram em lugares distantes um do outro mas que comeram o mesmo cardápio: picanha com purê de batata. Era um bom sinal. A ansiada reconciliação amadurecia, ao anoitecer.
Entra em campo a equipe do Vasco. As câmeras da tevê apontam, sôfregas, na direção dos dois. Atrás dos gols, nas cabines, no fosso, só se falava da expectativa maior: como e quando é que os dois vão se falar? Em campo, eles se entendem, predizia o ‘‘Canhotinha de Ouro’’, agora dando o seu recado na Rádio Globo. Na televisão, outros dois canhotos ilustres, Rivelino e Neto, achavam a mesma coisa: o idioma da bola os aproximará!
A bola rola e nada acontece entre os dois. Não trocam um passe, não se permitem, sequer, um reles olhar. A mesma camisa, sim, o mesmo objetivo, sim, mas os dois parecem incomunicáveis como dois túmulos. Um exibe o 10 nas costas; o outro, o 11. Dois números tão próximos, tão vizinhos, e, no entanto, tão distantes entre si. Duas almas, dois abismos. Não é de graça que o Dicionário de Símbolos reza que o 11 anuncia um conflito virtual. Número ambivalente que sugere renovação mas também ameaça de deteriorização do número 10...
A tevê surpreende o momento supremo: os dois se entreolham. Os dois se aproximam. De repente, eis que os dois se tocam, com as pontas dos dedos. Timidamente. Pudicamente. A cena, repetida em ‘‘slow motion’’, ganha relevância de gol de placa. A turma da latinha, em estado de comoção, registra o fato histórico. O estádio delira, em transe de felicidade e alivio.
Finalmente, a pátria do futebol está salva.
De mão beijada
A grande mancada do mundial de clubes, pelo menos até agora, é do árbitro italiano Braschi. O homem deu, de mão beijada, um gol ao Corinthians. Vi a cena na tevê: a bola estalou no travessão do Raja Casablanca e quicou, mais ou menos dois palmos aquém da linha do gol. Um lance igual a tantos que ocorrem no futebol. A bola bate na face interior, repica no chão e continua em jogo. Pois o cara-de-pau apita, acusando o gol com uma convicção, no mínimo, temerária. Afinal, o que lhe competia era deixar com o bandeirinha a última palavra. E lá estava o auxiliar impassível, num claro sinal de que não vira nada demais. Do contrário, teria corrido pra linha central.
Pois o italiano trapalhão foi lá, trocou duas palavras com o bandeirinha e simplesmente reconfirmou a decisão estapafúrdia. Um papelão!
O grande vacilo
A seção Bundalelê, da revista ‘‘Bundas’’, relembra grandes vacilos dos séculos passados. É cada disparate de arrepiar. Como aquele de um executivo da Metro, julgando um teste artístico de Fred Astaire, em 1928: ‘‘Não sabe representar, nem cantar e é careca. Dança um pouco’’.
Certamente, terá escapado a meu amigo, o botafoguense Sergio Augusto, a bobagem de um treinador do São Cristóvão, Arquimedes, que renegaria o próprio nome, depois de um treino em que acabara de testar um monte de candidatos a uma chance no futebol do clube. Arquimedes apita o fim do treino. De um lado, põe os que ele aprovou; do outro, relega a sobra. O trigo e o joio. No bolo dos dispensados, lá se foi, com as chuteiras em baixo do braço, um moço desconhecido chamado Nilton Santos.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Se o time do Corinthians fosse nas águas da imprensa brasileira poderia ter tido uma surpresa desagradável, na estréia do mundial de clubes. O Raja, de Marrocos, não é nada do que se dizia por aqui. Não é cego de bola, tem um estado físico invejável e é um exemplo de entrega. Menos mal que a equipe bicampeã brasileira entrou em campo criteriosamente preparada, no plano tático e no plano mental. Mas, teve que suar a própria alma pra não quebrar a cara.
- O tênis, pra mexer em suas regras, é mais lento que o futebol. O ano 2000 começa, felizmente, com a extinção do intervalo seguinte ao primeiro ‘‘game’’. Nada mais bem-vindo. Aquela primeira pausa é um breve contra a fluência e o prazer do jogo.
- Só a Internet, mesmo. Tenho um leitor em Moscou. Igor Fessunenko escreve, desejando feliz ano novo. Gratíssimo ao Igor e a todos os amigos que me felicitam por carta, e-mail e fax. Recebam de volta, com o mesmo fervor, o meu abraço fraternal.
- Não sei o que pensam de seus próprios atos os novos dirigentes do Botafogo. Uma coisa é certa: a torcida está desapontada com o elenco nada promissor que o clube anda anunciando. A impressão que dá é que o Botafogo está montando uma equipe pra disputar a segunda divisão.
- Por falar nisso, glórias ao Santa Cruz, de Recife, que volta à primeira divisão, de onde nunca deveria ter caído.
- As festas, o tumulto da virada do século, por tantos desvios, acabei deixando de felicitar o Fluminense pelo título de campeão da terceira divisão. Palmas pra equipe de comando e, em particular, pra Carlos Alberto Parreira.

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