O homem que passa
Mais dois brasileiros entram no ‘‘Hall da Fama’’, da Fifa: Didi e Zico. Nada mais justo. Ou melhor, mais certo, ainda, seria que o panteão acolhesse também Garrincha e Nilton Santos. Dia virá em que veremos os dois super-craques reverenciados pela memória do futebol mundial.
O torcedor mais jovem sabe muito bem de Zico, mas, de certo, não conhece nem um pouquinho do imenso futebol que jogava Didi. Pois o momento não poderia ser mais feliz pra um reencontro com Didi, cuja obra, um dia, registrei em um texto que me permito reproduzir, com indizível saudade:
– ‘‘Didi, negro esguio, pescoço longo à Modigliani, nasceu na cidade de Campos, no Estado do Rio. Conheci-o por volta de 1948, na modesta equipe suburbana do Madureira, debulhando um futebol de mil talentos para o chute, o passe e sobretudo para o drible; driblava alegremente. Tinha gosto lúdico do floreado.
Com as artes de uma balística indecifrável, Didi consegue vincular o passe longo à essência do jogo, revolucionando a teoria de que só o passe curto é capaz de provocar o desequilíbrio do adversário (‘‘o desequilíbrio é o segredo do futebol’’).
Contra os franceses, na Copa do Mundo de 58, um crítico sueco contou 40 passes de Didi, todos de efeito e com irrepreensível pontaria. A bola serpenteia entre os adversários, queimando a grama e até parar, subordinada, ao alcance do companheiro.
Didi é um artista a quem repugna o entrechoque. Desgosta-o o corpo-a-corpo da bola dividida. Seu ritmo é intermitente, descontínuo, embora terrivelmente eficiente. Ele encanta o espectador, mas exaspera o torcedor impaciente e apaixonado, antes, durante e depois da partida. Por isso, jamais será ídolo de multidões; há de ser, sempre, um craque do gosto das elites do futebol. Didi não sabe cortejar o público, jogando no tom emocional que incendeia a multidão dos estádios. Prefere jogar fria e linearmente, embora pudesse encher o campo com a riqueza esférica de seu futebol. Sua glória está na magia de um passe: o toque de efeito, criando espaços e trajetórias que transfiguram a bola.
Tem a obsessão do passe, no que se revela um altruísta, pois parece indiscutível ser o passe a expressão máxima da solidariedade no futebol.
Didi, craque felino, que calça 40 no pé esquerdo e 41 no pé direito; que tem um par de chuteiras num museu do Peru e outro, modelado em gesso, numa vitrine de troféus de futebol na Suécia; que, um dia, encerrou uma batalha campal entre jogadores brasileiros e uruguaios (Buenos Aires, 1959), surgindo no ar, como um gato, e desferindo um pontapé que aterrou três desafetos de uma vez; um craque que jamais sofreu uma distensão muscular e que, por puro afeto, amarra as chuteiras com um simples laço de sapato.
Didi, homem esquivo, de chute oblíquo e dissimulado como o olhar de Capitu.’’
Minuto de silêncio
A seleção pré-olímpica tem sido um tremendo fiasco. Em três partidas, não conseguiu jogar bem mais que cinco minutos, no total. Convenhamos, é muito pouco, sobretudo pra uma equipe dirigida por Wanderley Luxemburgo. Ora, se há uma coisa que Wanderley sempre soube fazer é montar um time segundo a melhor receita do melhor futebol brasileiro.
Daí, o espanto geral. Daí, o desapontamento da torcida. Daí, o desabafo que parece ser de Londrina mas que é do país inteiro. Wanderley se queixa do público paranaense, como se a seleção estivesse sendo vítima de um ressentimento regionalista. Nada disso, meu caro Wanderley: apure os ouvidos e você sentirá que o coral dos descontentes vem do Brasil inteiro.
Se Wanderley Luxemburgo der ouvidos a seu travesseiro, escutará, com certeza, orelha a fora, um incômodo zumbido: é a própria consciência dele chiando contra a seleção. Ou Wanderley vai querer nos convencer de que é aceitável que a equipe brasileira tenha cometido 42 faltas pra conter, logo quem, a seleção da Venezuela?
Nelson Rodrigues descobriu que a multidão de futebol vaia até minuto de silêncio. Pois a seleção pré-olímpica tem sido, nesse torneio, um longo e angustiante minuto de silêncio.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O tênis sul-americano passou ao largo do Aberto da Austrália. Ninguém se deu bem. Guga dançou, de saída; Meligeni, também; o argentino Zabaleta, idem, idem. Marcelo Rios nem apareceu por lá. Deu uma trégua no tênis e, por recomendação do psicólogo, passa o tempo jogando pelada de futebol, em Santiago do Chile.
- A revista ‘‘El Gráfico’’, de Buenos Aires, dá a lista dos nomes mais difíceis de pronunciar, no futebol mundial: Eric Rabesandratana (Paris Saint-Germain), Onwuzuruike (Nigéria), Bestchastnykh (Russia), Slawomir Wojchiechowski (Bayern de Munique), Najwan Ghrayib (Israel). Os narradores de rádio e TV vão literalmente à loucura
- Faltou um: Jõõskelõinen, goleiro finlandês, do Bolton Wanderers.
- Entre os técnicos que votaram em Rivaldo, o mais empolgado é o inglês Alex Ferguson, do Manchester, que, antes da eleição do melhor do mundo, já dizia em todas as conversas que ‘‘Rivaldo é o jogador mais inteligente que ele conhece’’.
- Amir Klink voltou desapontado. Fez o rally de Dacar, dias e dias, engolindo poeira. Ser das águas, Amir Klink jamais deveria ter se metido nessa árida aventura. Os mares te esperam, admirável ser das águas.