O mocinho e o vilão
Sempre que um jogo de futebol é levado à decisão em pênaltis, ressurge a questão: não haveria outro jeito de encerrar a novela do empate? Agora mesmo, na final Corinthians x Vasco, a discussão aflorou. Há quem considere impiedosa a fórmula dos pênaltis. Curioso é que ninguém pensa no goleiro. A vítima, não sei porque, passa a ser o velho carrasco. Considera-se uma crueldade submeter o jogador a tamanho sacrifício.
Pra começo de conversa, eu sempre soube que o pênalti é uma espécie de sentença de morte decretada contra o goleiro. O mártir aos pés do algoz. Pelo tamanho das traves, o cobrador sempre teve muito mais chance que o goleiro. Assim se dá no curso de uma partida. Pênalti é meio gol. De repente, sobrevem a decisão por pênaltis e o julgamento da situação se inverte completamente. Todo mundo fica morto de pena do chutador. Coitado! Lá vai ele, solitário, passo a passo, na direção da marca do pênalti, digo, do cadafalso.
Confesso que acho a decisão por pênalti a melhor maneira de liquidar o engasgo do empate. Há outros meios, naturalmente. Simpatizo com a idéia de conferir a vitória à equipe que menos faltas tenha cometido. Seria um estímulo ao espírito esportivo. Como jamais, o futebol anda muito necessitado de uma boa pitada de ética. Duvido, porém, que a FIFA admita uma receita que só viria indispor ainda mais o público e a crítica contra a arbitragem. Nessa hipótese, uma simples falta de jogo passaria a ser um deus-nos-acuda pros juízes.
Fiquemos, pois, com a saída dos pênaltis. Em matéria de emoção, a cena é inexcedível. Agora mesmo, na decisão do mundial de clubes, observei um fenômeno notável: na casa em que eu estava, assisti ao jogo ao lado de uns poucos amigos. A maioria do jantar batia papo, um tanto alheia ao que se passava no Maracanã. Na hora dos pênaltis, todo mundo parou de conversar. O recanto da sala ficou pequeno pra tanta gente. Mulheres que não costumam dar a mínima pra futebol cercavam a tevê, interessadíssimas.
Como que por encanto, aquele jogo trancado, assexuado, ganhava, nos pênaltis, uma carga emocional fora do comum. E foi assim que a final se transfigurou. Parecia desfecho de novela. Patético. Era a própria encenação das porfias da vida: vilão e mocinho, frente à frente. Com uma vantagem que só enobrece o esporte: ninguém matou, ninguém morreu.

Noite minguante
Que será que veremos, hoje, da seleção contra o Equador? Que não seja, nem de longe, o que se viu contra o Chile. Noite de desolação. Revivo, então, a partida de Londrina, à maneira dos relatos malfadados: exibição sofrível, futebol chorado, minguado. Fabiano, de onde vens, pra onde vais? Caminhante sem bússola; e Mozart, maestro sem batuta, quem te ensinou a solfejar: Mi-Sol-Fó? E tu, Baiano! Tua bola não anda, desanda. Um Fábio atrás, outro no meio e outro mais à frente: é muita fava junta pra uma bola defunta; e a bolota nenhuma que jogou o Mancini? A equipe foi, o tempo todo – e só deixou de ser por um tênue minutinho – cada um por si e Deus por ninguém. Deus sempre foi assim: não costuma ficar ao lado dos que, cedo, se resignam ao nada feito.
Bola mínima, raquítica, a do Brasil, naquela noite minguante.

Ruminando se va Lontano
Se o amigo leitor faz esporte e não mastiga chiclete, atenção, é bom começar. O conselho vem do Jornal de Medicina da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A equipe do endocrinologista James Levine constatou que, ruminando, as vacas queimam 20 por cento de calorias.
Passou-se, então, a estudar os efeitos da mesma atividade sobre o ser humano. Conclusão: se o homem ruminar cem vezes por minuto, verá seu metabolismo aumentar cerca de vinte por cento. Um bom ruminante – concluíram os endocrinologistas americanos – poderia perder cinco quilos por ano, só no ato de mastigar chicletes. Porém, sob duas condições: ruminar o tempo todo, fora das refeições e que seja um chiclete gigante (o equivalente a seis chicletes normais).
Gordinhos e gordinhas, ruminai!

RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Por escassos cinco dias, Wanderley Luxemburgo abriu mão de Denílson, na seleção. Pelo visto, é preferível ter um Denílson em cima da hora a ter um Fábio Junior um século antes...
- Dói nos olhos, dói no coração ver o Flamengo desvirtuar o uniforme rubro-negro com a fantasia de calções vermelhos e camisa retinta. Um acinte.
- No episódio Rincón, a multinacional americana Hicks Muse cravou um-a-zero na multinacional suíça ISL.
- Aliás, o colombiano agradece ao Flamengo pela jogada que lhe permitiu fechar com o Corinthians o melhor contrato jamais feito com um clube brasileiro.
- Um novo prodígio no golfe mundial: Sérgio Garcia, espanhol, 20 anos, acaba de assinar com a Adidas um contrato de 90 milhões de dólares, por cinco anos.
- Finesse, sangue-frio – eis o binômio que tornou possível o gol de Alex, contra o Chile, no Pré-Olímpico. Por sinal, foi, como está dito lá em cima, o único instante de louvor ao futebol brasileiro, no empate com os chilenos.
- Nos pés do jogador anta, a bola não anda, desanda.
- Pode ser, mas me custa crer que Nalbert e Radamés tenham se estranhado. Há entre os dois profunda aliança rubronegra. Enfim...
- ‘‘Decidi me instalar em você / e nunca mais te largar /’’. Versos da canção ‘‘Minha decisão’’, de autoria do goleiro Helton, do Vasco, publicada pelo JB. Logo se vê, Helton tem alma de artista.