Na Grande Área (Armando Nogueira)
O mocinho e o vilão
Sempre que um jogo de futebol é levado à decisão em pênaltis, ressurge a questão: não haveria outro jeito de encerrar a novela do empate? Agora mesmo, na final Corinthians x Vasco, a discussão aflorou. Há quem considere impiedosa a fórmula dos pênaltis. Curioso é que ninguém pensa no goleiro. A vítima, não sei porque, passa a ser o velho carrasco. Considera-se uma crueldade submeter o jogador a tamanho sacrifício.
Pra começo de conversa, eu sempre soube que o pênalti é uma espécie de sentença de morte decretada contra o goleiro. O mártir aos pés do algoz. Pelo tamanho das traves, o cobrador sempre teve muito mais chance que o goleiro. Assim se dá no curso de uma partida. Pênalti é meio gol. De repente, sobrevem a decisão por pênaltis e o julgamento da situação se inverte completamente. Todo mundo fica morto de pena do chutador. Coitado! Lá vai ele, solitário, passo a passo, na direção da marca do pênalti, digo, do cadafalso.
Confesso que acho a decisão por pênalti a melhor maneira de liquidar o engasgo do empate. Há outros meios, naturalmente. Simpatizo com a idéia de conferir a vitória à equipe que menos faltas tenha cometido. Seria um estímulo ao espírito esportivo. Como jamais, o futebol anda muito necessitado de uma boa pitada de ética. Duvido, porém, que a FIFA admita uma receita que só viria indispor ainda mais o público e a crítica contra a arbitragem. Nessa hipótese, uma simples falta de jogo passaria a ser um deus-nos-acuda pros juízes.
Fiquemos, pois, com a saída dos pênaltis. Em matéria de emoção, a cena é inexcedível. Agora mesmo, na decisão do mundial de clubes, observei um fenômeno notável: na casa em que eu estava, assisti ao jogo ao lado de uns poucos amigos. A maioria do jantar batia papo, um tanto alheia ao que se passava no Maracanã. Na hora dos pênaltis, todo mundo parou de conversar. O recanto da sala ficou pequeno pra tanta gente. Mulheres que não costumam dar a mínima pra futebol cercavam a tevê, interessadíssimas.
Como que por encanto, aquele jogo trancado, assexuado, ganhava, nos pênaltis, uma carga emocional fora do comum. E foi assim que a final se transfigurou. Parecia desfecho de novela. Patético. Era a própria encenação das porfias da vida: vilão e mocinho, frente à frente. Com uma vantagem que só enobrece o esporte: ninguém matou, ninguém morreu.
Noite minguante
Que será que veremos, hoje, da seleção contra o Equador? Que não seja, nem de longe, o que se viu contra o Chile. Noite de desolação. Revivo, então, a partida de Londrina, à maneira dos relatos malfadados: exibição sofrível, futebol chorado, minguado. Fabiano, de onde vens, pra onde vais? Caminhante sem bússola; e Mozart, maestro sem batuta, quem te ensinou a solfejar: Mi-Sol-Fó? E tu, Baiano! Tua bola não anda, desanda. Um Fábio atrás, outro no meio e outro mais à frente: é muita fava junta pra uma bola defunta; e a bolota nenhuma que jogou o Mancini? A equipe foi, o tempo todo e só deixou de ser por um tênue minutinho cada um por si e Deus por ninguém. Deus sempre foi assim: não costuma ficar ao lado dos que, cedo, se resignam ao nada feito.
Bola mínima, raquítica, a do Brasil, naquela noite minguante.
Ruminando se va Lontano
Se o amigo leitor faz esporte e não mastiga chiclete, atenção, é bom começar. O conselho vem do Jornal de Medicina da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A equipe do endocrinologista James Levine constatou que, ruminando, as vacas queimam 20 por cento de calorias.
Passou-se, então, a estudar os efeitos da mesma atividade sobre o ser humano. Conclusão: se o homem ruminar cem vezes por minuto, verá seu metabolismo aumentar cerca de vinte por cento. Um bom ruminante concluíram os endocrinologistas americanos poderia perder cinco quilos por ano, só no ato de mastigar chicletes. Porém, sob duas condições: ruminar o tempo todo, fora das refeições e que seja um chiclete gigante (o equivalente a seis chicletes normais).
Gordinhos e gordinhas, ruminai!
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Por escassos cinco dias, Wanderley Luxemburgo abriu mão de Denílson, na seleção. Pelo visto, é preferível ter um Denílson em cima da hora a ter um Fábio Junior um século antes...
- Dói nos olhos, dói no coração ver o Flamengo desvirtuar o uniforme rubro-negro com a fantasia de calções vermelhos e camisa retinta. Um acinte.
- No episódio Rincón, a multinacional americana Hicks Muse cravou um-a-zero na multinacional suíça ISL.
- Aliás, o colombiano agradece ao Flamengo pela jogada que lhe permitiu fechar com o Corinthians o melhor contrato jamais feito com um clube brasileiro.
- Um novo prodígio no golfe mundial: Sérgio Garcia, espanhol, 20 anos, acaba de assinar com a Adidas um contrato de 90 milhões de dólares, por cinco anos.
- Finesse, sangue-frio eis o binômio que tornou possível o gol de Alex, contra o Chile, no Pré-Olímpico. Por sinal, foi, como está dito lá em cima, o único instante de louvor ao futebol brasileiro, no empate com os chilenos.
- Nos pés do jogador anta, a bola não anda, desanda.
- Pode ser, mas me custa crer que Nalbert e Radamés tenham se estranhado. Há entre os dois profunda aliança rubronegra. Enfim...
- Decidi me instalar em você / e nunca mais te largar /. Versos da canção Minha decisão, de autoria do goleiro Helton, do Vasco, publicada pelo JB. Logo se vê, Helton tem alma de artista.





