Na Grande Área (Armando Nogueira)
Um certo chute no coração
Um colega bom e sempre objetivo me oferece, na ponta da língua, o balanço fiel do futebol em fim de temporada: os artilheiros, os menos vazados, os mais positivos números, números de uma aritmética implacável, necessária, mas que mata um pouco a inocência do esporte.
Vítima o ano inteiro do dever profissional, que me seja permitido ao menos, no último dia da folhinha, um momento de gratuidade. E que eu possa reviver na memória dos olhos os jogadores no campo, buscando a glória na transpiração do efêmero; e a multidão no estádio, cantando e chorando a vitória do nada.
Não foi bem assim, mas, para aumentar a saudade, faz de conta que foi: nós passamos os domingos de cada ano, brincando no Maracanã, como as crianças de Montherlant, que ficam o dia inteiro na praia a construir castelos de areia, sabendo que a maré da noite destruirá a sua obra.
O drible do ponta, o passe do meio-campo, o vôo do goleiro, obras esculpidas no vento, são castelos de nossas tardes pelos estádios: no momento mesmo da criação, já o sopro do tempo destruía tudo.
Abençoada a obra que nasce e morre e renasce do ânimo lúdico de brincar. Na essência do esporte, a ação entendida como brincadeira pura. E se do gesto participa uma bola, aí, então, amigo, aí principia o jogo que há de levar o homem à purificação.
Não me falem dos números que exprimem eficiência, nem dos fatos que condenam e absolvem os homens do futebol. Prefiro, agora, a vaga lembrança de um certo chute que morreu nas redes, depois de partir ao meio o coração do estádio metade bandeira, metade silêncio.
Que seria de ti, de mim, que seria de nós, amigo, o domingo sem a comovente mentira de um gol?
É certo que não aprendemos muito da vida no ano que se vai: o futebol é hoje um mundo um tanto envenenado por pequenas misérias que os homens podiam perfeitamente deixar no meio-fio, antes de cruzar a borboleta dos estádios.
Enfim, ao cabo de tantos encontros dominicais, há de ter ficado conosco, ao menos, a serena certeza de que ainda não morreu em nós o menino que já não somos. Porque no fogo cruzado das paixões de um campeonato entrevia-se uma multidão de crianças, dentro e fora do campo, construindo castelos de areia que a maré do tempo logo destruía.
É por tudo isso que, hoje, não quero nem o rigor das táticas, nem a geometria que divide os campos, dividindo os homens.
Em nome da bola, forma sublime, em nome da grama que floresce da infância, em nome do gesto gratuito que faz o encanto do esporte, deitemos fora a aritmética do futebol. E que as portas dos estádios se reabram no tempo próximo para que lá, como Albert Camus, possamos viver outra vez doces momentos de inocência.
Violência e paz
Então ficamos assim combinados: ano novo, vida nova. Ano 2000, então, nem se fala. É quando a virada do ano encarna os nossos próprios desejos de virada na vida.
Eu, de minha parte, acho que devemos mudar muita coisa para encarar o ano 2000 de peito aberto. A violência é uma delas. O futebol brasileiro não pode mais atentar contra a sua própria essência, a habilidade dos craques. Para os técnicos que semeiam o anti-jogo, deixemos o nosso mais absoluto desprezo.
Quem quiser lutar boxe que peça o boné e vá para a Bahia trocar cruzados com o Popó. E que façam o mesmo os homens que tramam contra o futebol brasileiro, acertando liminares, acatando recursos, trocando datas e vivendo no império da mais absoluta autocracia. Esses já vão tarde.
Guardemos na caixinha de boas lembranças as passadas de Maurren Higa Maggi, que tem asas nos pés e conhece os segredos de pedalar o vento. Na caixinha também vou deixar, para minha eterna contemplação, a graça das meninas da ginástica rítmica, que até hoje embala meu sono; o talento das nossas rainhas do vôlei, nas praias e nas quadras; as piruetas de Daiane dos Santos na ginástica olímpica e a força das moças do pólo-aquático, todas elas sereias...
E Guga, claro, tu que fizeste tão bonito nas quadras do mundo em 99! Não posso esquecer do Rodrigo Pessoa, que dia desses é capaz de saltar e sair voando no seu cavalo alado...
Na minha caixa de estrelas estarão também os dribles de Edilson procurando o gol, é bom que se diga! Ao lado dos passes precisos de Ricardinho, das arrancadas de Marques e das sublimes cintilações de Rivaldo. E os gols? Dois não podem faltar na galeria: o de Romário contra o Corinthians ou, pra ficar mais fácil o do elástico no Amaral. Elástico tão elástico que quase me joga pra fora da poltrona. Venturas de Romário, raio sem trovão.
E o gol de Ronaldinho Gaúcho contra a Venezuela. Arco-íris na grande área e um presente para os deuses do futebol.
Vou tecer cada um desses momentos na minha colcha de retalhos, e com ela me cobrir na noite do reveillon. É que quero uma manhã de estrelas só pra mim na chegada do Ano Novo.
Muita saúde, muita alegria.
E muita paz.





