Na Grande Área (Armando Nogueira)
Jogo é jogo!
Era só o que faltava: fazer o jogo decisivo do campeonato às quatro horas de uma quarta-feira. A CBF tem cabeça de vento. A semana é natalina, portanto, festiva, e o horário está muito mais pra shopping center que pra estádio de futebol.
Indo ao que interessa, o Corinthians decidiu correr risco e escala Rincón, que não está de todo recuperado do estiramento muscular. Duvido que o Atlético caia na mesma imprudência com a coxa de Marques.
Enfim, Rincón e Marques é que vão acabar dando a última palavra. Distensão é um tipo de lesão que, em certo estágio do tratamento, escapa à sensibilidade do médico. Apalpou, não doeu; chutou, não doeu; correu, não doeu, o problema é do técnico e do jogador. O fato de Rincón ter treinado normalmente não quer dizer muita coisa. Nessas horas, é bom relembrar a máxima de mestre Didi: Treino é treino, jogo é jogo.
Com ou sem Marques, com ou sem Rincón, o jogo é de fazer estremecer o Morumbi. Pelas individualidades que alinha, pelo quesito campo, pela maior experiência, pela vantagem do empate, não há como negar que o Corinthians está mais perto do bicampeonato. Sem contar que o regulamento lhe dá a chance preciosa de jogar de contra-ataque.
Ao Atlético, só resta debulhar, fibra por fibra, o coração. Como, aliás, é da sua história.
Os gols de Luizão
Luizão fez dois gols a favor e dois contra seu próprio time: os dois a zero, construídos com engenho e arte e os dois cartões, o amarelo e o vermelho. Luizão portou-se com um requinte de insensatez, quando saiu gesticulando, entre risos, a ironizar uma decisão da arbitragem. Forçava, ali, o quinto cartão e a suspensão automática.
Vamos, porém, debitar a ironia à conta do destempero. Jogo tenso, nervos em brasa. Aceitemos. Luizão perdeu a cabeça, é da condição humana. Já o segundo gesto, amigo leitor, aquele, a meu ver, é inaceitável. Inaceitável pelo que encerra de premeditação.
Ao ver o jogador, de antemão, fora da decisão de hoje, o banco do Corinthians mandou a palavra de ordem: que Luizão provocasse a expulsão. O cartão vermelho, em certas circunstâncias, é mais leve que o amarelo. Jogador que é expulso de campo tem que ir a julgamento e, uma vez condenado, pode pleitear o recurso do efeito suspensivo. Quer dizer: fica temporariamente impune até que haja novo julgamento, coisa que não ocorre quando o atleta recebe o quinto amarelo, cuja suspensão é automática.
Como se vê, é um expediente antiético por excelência. No caso de Luizão, agravado, ainda, pela má índole que levou o atacante a escolher a agressão física como pretexto de sua expulsão. Por que Luizão não optou por um gesto menos selvagem? Poderia ter voltado a desafiar a arbitragem.
A malandragem é traço cultural do brasileiro. Mas tem seus limites. Luizão foi além, muito além da velhacaria. Merece o repúdio de quem tem apreço pelo futebol.
Paralamas do Flamengo
Não vi o jogo do Flamengo com o Palmeiras. Não vi, mas senti. E, pelo que senti, foi emocionante. Ou terá sido angustiante? Que o diga meu querido amigo Herbert Vianna, com quem jantávamos, dez amigos, enquanto rolava a final da Mercosul. A tevê estava na sala ao lado, não dava pra se ver nada. Nem mesmo ouvir. Herbert ficou sabendo, a certa altura, que o Palmeiras vencia por um-a-zero. Desde então, parecia alheio à sina rubronegra. Pois, sim, era pura dissimulação. De repente, gol do Flamengo! Herbert sai correndo pelo restaurante, cantando um hino de louvor ao Flamengo. Uma canção, por sinal, bonita que eu desconhecia. Certamente, há de ser criação do próprio que, como todos sabemos, é um astro do ramo: compõe, canta e toca uma guitarra ardente.
O vai-e-vem do placar determinava o vai-e-vem do Herbert. E como houve seis gols, dá pra imaginar quanto ele penou, quanto ele correu, quanto ele cantou, quanto ele celebrou. No fim do jantar, Herbert brindou o campeão. Efusivo, transbordante como a taça de champanhe que a mesa bebeu, em comunhão.
Não sei o que seria do Herbert Vianna, se faltasse o Flamengo no mundo.
Rápidas e rasteiras
- O vôlei de areia, domingo, na praia de Cabo Branco, na Paraíba, nos deu uma bela manhã de Ana Paula. Há algum tempo, formando dupla com Jaqueline, Ana Paula parece ter chegado ao padrão ideal. A moça deu uma récita de vôlei: sacou brilhantemente, improvisou deixadinhas de manchete que tontearam a dupla hegemônica Shelda-Adriana Behar. Sol de Ana Paula!
- O jogador Djalminha está fazendo o maior sucesso no Deportivo da Espanha. Em entrevista à revista Don Ballon, desse mês, Djalminha diz que seu jogo está melhor agora porque a equipe está muito bem e que ele é apenas uma peça importante da engrenagem.
- A revista World Soccer lista os cem jogadores eleitos como os melhores do século XX. Nem Garrincha, nem Didi estão entre os dez melhores do mundo. O Garrincha ficou em vigésimo lugar, com 361 pontos, e o Didi ficou em trigésimo nono, com 123 votos. Ronaldinho ficou em décimo terceiro, com 541 pontos, e Zico em décimo oitavo, com 390 pontos.
- O internauta Walter Guimarães diz que o nosso iatista Torben Grael é chamado pelo jornal italiano Gazzetta Dello Sport de Ronaldinho da vela. Numa matéria de página inteira, com direito à chamada na capa, Torben fala da família e de seu começo no esporte.





