Rincón: frio e implacável
Meu personagem da semana tem, em espanhol, o nome do território que ocupa no campo, do qual é amo e senhor: Rincón. Foi ele alma, cérebro e pulmões da equipe do Corinthians na vitória contra o São Paulo. Vitória que daria ao campeão brasileiro o direito de tentar ser bicampeão.
Rincón não é apenas uma peça no tabuleiro de xadrez. Ele é o próprio enxadrista que rege a equipe, movendo as figuras no campo, com o tirocínio dos maestros. Rincón, olhar absoluto, anulou adversários do valor de Raí, que parecia hipnotizado pelos pés de ímã do bruxo colombiano.
Em dado momento do clássico com o São Paulo, o Corinthians viu-se privado de dois zagueiros. Poderia ser a derrocada, embora a equipe esbanjasse técnica e brio. Pois o retinto feiticeiro da meia-cancha não hesitou em recuar, assumindo o reinado da grande área, com admirável domínio da posição.
Todo mundo jogou demais na equipe triunfante do Corinthians. Mas ninguém o excedeu em tino tático, em onipresença. Rincón soube ser, como nunca, no seu perfil principesco, o mestre-sala dos campos. A equipe reflete o temperamento de Rincón: é implacável, fria, calculista e jamais perde o pulso da partida.
Louvado seja o futebol de Rincón, o meu personagem da semana.
Botafogo em 2 tempos
O Botafogo está em vias de fazer parceria com uma empresa americana de fundos de pensão. Quem mexe os pauzinhos da sociedade é Carlos Augusto Montenegro, agora escolhido presidente do Conselho Deliberativo do clube. Na mediação do negócio está o Banco Pactual, que é uma das grandes potências do mercado financeiro do Brasil. Outro interessado é um grupo americano aqui representado pela Koch Tavares. Já foi feito o levantamento da situação do Botafogo de Futebol e Regatas. As cifras revelam que a dívida alvinegra é das menos pesadas entre os grandes clubes. A rigor, o Botafogo só tem contas a acertar com o INSS e com o Imposto de Renda.
A fórmula em estudos prevê a criação do Botafogo Licenciamentos, que cuidará de todas as receitas do clube. O futebol, tecnicamente e administrativamente falando, será gerido, com total autonomia, pelo Botafogo de Futebol.
Dezoito a dois...
O conselheiro Roque Citadini, do Corinthians, me escreve, ofendido, achando que não sei de nada. Do contrário, não teria dito, como disse, aqui, que ‘‘Corinthians e Cruzeiro vão acabar falando sozinhos’’. O moço dana-se a desfiar números que comprovam a força popular do Corinthians. Quer dizer: discorre sobre o óbvio ululante. Não alcançou minha idéia. Certamente, ao me fustigar, o rapaz esquece que o Clube dos Treze, hoje uma entidade com 20 membros, toma suas decisões na base do voto. Ora, se 18 clubes assinam um contrato de tevê e apenas dois se recusam a assinar (o que está acontecendo), a que conclusão se deve chegar? Que os dois perderam de 18 a 2. Logo, ou os derrotados batem asas e vão embora ou serão enquadrados pela maioria. Nas duas hipóteses, os dois, por mais gigantes que sejam, vão acabar falando sozinhos.
Estamos entendidos, cavalheiro?
Rápidas e rasteiras
- Um telefonema que me deu grande alegria: Vavá, um dos grandes heróis do bicampeonato 58-62, me convida pra uma homenagem que lhe vão prestar os amigos de rua onda mora, no Andaraí, Rio. Vavá me conta um pouco dele mesmo: está com 64 anos, tem artrose (pra variar) nos dois joelhos. Está feliz com a festa dos amigos, entre os quais um astro da MPB, meu amigo Aldir Blanc, cuja paixão pelo Vasco o aproxima ainda mais de Vavá.
- O Vasco da Gama faz muito bem em eternizar numa placa o gol de bicicleta que Viola marcou, no jogo com o Cruzeiro, pela seletiva da Libertadores. Menos pelo desfecho e muito mais pelo gesto de matar a bola no peito, alçando-a ao ponto limite onde o peito do pé encontraria a bola. Obra prima.
- Ana Moser não pensa em ser técnica de vôlei. Mas, acaba sendo, tantas as virtudes que dela fizeram, além de heroína, uma líder. O caso de Ana é parecido com o de Paula. No dia em que parar, vira treinadora, a qualquer momento.
- Equipe de respeito essa do Vitória, da Bahia. Não refresca, jamais. Ataca e contra-ataca com rara objetividade. Sem dúvida, a Bahia, com o Vitória, está revelando ao futebol brasileiro um novo treinador: Toninho Cerezo.
- A intromissão da justiça comum na vida do futebol está forçando, sem querer, o Clube dos Treze a criar a Liga Nacional, coisa que está nos planos da cartolagem mas só pra 2001. A entrada de políticos profissionais na história pode acabar levando o Gama a dar com os burros n‘água.
- Há jogadores que, na moita, contribuem decisivamente pro êxito de sua equipe. Ricardinho, do Corinthians, é um deles. É lúcido, dinâmico, solidário, onipresente. Tudo isso sem fazer espuma.
- Passou por São Paulo, deixando uma esteira de luz, Gabriela Sabatini. Segundo Dácio Campos, que a viu, Gabi parece mais contente da vida que quando jogava tênis. Antes, era uma bela atleta; agora, uma mulher bonita e feliz.
- Disputa feroz nas eliminatórias da America’s Cup, sem dúvida a mais famosa prova do iatismo mundial. O brasileiro Torben Grael, ouro olímpico pelo Brasil, participa da regata, no papel de tático do barco italiano Prada. Sabe o amigo leitor qual é o cachê de Torben Grael? Mil dólares por dia. Eu disse: mil dólares por dia. Contrato de um ano.

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