Profeta aposentado
O quesito campo, sempre tido como decisivo, foi por água abaixo. O Vasco recebeu o Vitória e acabou eliminado em plena Colina, e o São Paulo deitou cátedra e fervor, derrotando a Ponte Preta, em Campinas. Assim está encerrada, sem apelação, minha breve carreira de profeta do futebol. Em três predições, errei duas vezes: cantei a classificação da Ponte e do Vasco. Deu precisamente o contrário. Aliás, pra ser mais verdadeiro, em quatro errei três porque, em Minas, o sagaz vidente que vos fala também apostava mais no Cruzeiro que no Atlético.
Tudo aconteceu às avessas porque, meio empombado, resolvi desconsiderar as forças do coração, como se futebol fosse jogo de xadrez. Não é, nem nunca será, por mais que pretendam os teóricos. No amor, como no jogo, quem governa é o coração.
Em Campinas, o São Paulo surpreendeu todo mundo, movendo-se em campo com um destemor e com uma competência realmente notáveis. Por sua vez, a anfitriã, que no segundo jogo tinha arrebatado o estádio com um fervor incomum, na decisão a dita Ponte deixou-se levar pelo ímpeto do adversário. Dessa vez, o São Paulo, time de estilo formal, quase glacial, deixou de lado a fidalguia técnica e virou guerreiro. Nunca tinha visto Raí tomar cartão amarelo por dar trombada. Pois levou um. E mais levaria se preciso fosse pra afirmar em campo um brio do qual os jogadores da Ponte chegaram a duvidar, destilando ironias pelo jornal, antes do jogo.
A classificação do São Paulo foi uma epopéia tão grande quanto a do Vitória que, em duas partidas memoráveis, descartou o time do Vasco da Gama, quebrando, de uma só vez, a castanha de Edmundo e de Eurico Miranda.
Era uma vez um profeta que o futebol desmascarou.
Flávio, no coração
Conheci Flávio, eu repórter, ainda foca, ele já intocável como técnico, primeiro do Flamengo, depois do Vasco e da seleção. A ele, o futebol brasileiro deve os primeiros passos de sua maturidade tática. Fora de campo, era um disciplinador implacável, conseguindo atenuar, com pulso forte, a vida boêmia do jogador, no árduo período do pré-profissionalismo.
Antes de Flávio, a seleção brasileira era naquela base de cada um por si e Deus por todos. Discípulo do húngaro Dori Kruschner, aqui chegado com as idéias novas do futebol europeu, Flávio Costa introduziu um padrão de jogo que alçaria o nosso futebol ao nível superior do argentino e do uruguaio. Onde, por sinal, despontavam dois treinadores de grande prestígio – o argentino Guilhermo Stábile e o uruguaio Ondino Viera. Conheci também Ondino. Foi, a meu ver, o grande pensador do futebol, nos anos 40/50. Era um homem culto e de impressionante poder de comunicação.
Flávio Costa sempre foi fiel à escola brasileira de futebol. Esmerava-se na aplicação de métodos modernos de formação de equipe mas sempre privilegiando a figura do craque. Seu modelo era Zizinho, um jogador excepcional. Tinha veneração por Danilo Alvim, o príncipe da meia-cancha, e por Jair da Rosa Pinto, outro fora-de-série dos tempos românticos.
Em qualquer enciclopédia esportiva, Flávio Costa será sempre um verbete de realce. Por tudo de bom que fez pelo futebol brasileiro.
Que ele descanse, pra sempre, no fundo do nosso coração.
Vantagem e desvantagem
A palavra de ordem no esporte moderno é: mais ação e menos tempo. Daí, as alterações de regra no basquete, no vôlei e, agora, no tênis. O vôlei já adota, oficialmente, o saque queimado: bola de serviço que bate na fita e cai na quadra é bola em jogo. Dinamismo! - exigem os dirigentes, pressionados pela vertigem da televisão.
Agora, parece ter chegado a vez do tênis, pensando em acabar com a vantagem, coisa, aliás, que o vôlei já faz. A idéia é tornar decisivo o ponto seguinte ao conhecido deuce. Empatou, quem fizer o ponto subsequente ganha o game. Nesse critério, o recebedor tem o direito de indicar de que lado o sacador deverá servir.
A ATP está ouvindo os tenistas sobre a inovação. Dois deles já opinaram: André Agassi é a favor; Pete Sampras, por sua vez, é contra. O argumento de Agassi é que o jogo acaba mais depressa. Pois é justamente por essa razão que Sampras vota contra. Acha ele que, quanto mais durar a partida, mais chance terá o melhor de vencer. A mudança, pra Sampras, só é boa pro mais fraco.
Madrugadas de Romário
O cronista esportivo Maceió, que assina brilhante coluna no jornal ‘‘A Notícia’’, de Santa Catarina, conta uma história saborosa, a propósito da briga de Romário com o Flamengo. O caso se deu no Barcelona.
Na véspera de um jogo importantíssimo, Romário sumiu da concentração. Foi visto, lá pelas tantas da madrugada, numa badalada boate da Catalunha. No dia seguinte, o presidente do clube chamou a figura às falas. Avisou que ia multá-lo, ali mesmo, no ato da conversa. Romário contra-propôs:
– ‘‘Vamos fazer o seguinte, presidente: a gente fica frio, hoje. Amanhã, o senhor me deixa jogar, numa boa. Segunda-feira, então, a gente volta a conversar e o senhor me multa pra valer.’’
O Barcelona enfiou 5 a 3 no arquiinimigo Real Madrid. Romário fez três gols – um deles, o da vitória.
A multa caiu no esquecimento...

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