Na Grande Área (Armando Nogueira)
Concentração, uma farsa
Certa vez, a seleção estava concentrada, num hotel. O toque de recolher era às 11 da noite. Feita a revista dos quartos, faltava um. Procura daqui, procura dali, nem rastro do rapaz. Onde teria se metido Pelé? Lembraram-se da boate do hotel. Ele só pode estar na boate, concluiu a comissão técnica, reunida de urgência.
Ligaram pro ramal da boate, não deu outra. O problema, agora, era saber quem iria amarrar o guizo no rabo do gato. Sobrou, naturalmente, pra Mário Américo que, além de massagista, era boxer. E lá se foi o Mário, na árdua missão diplomática. Pelé, no meio da pista, rodopiava com uma loura. Mário Américo, ali, bordejando, sem coragem de falar com a fera. Adianto, ainda, que Mário era gago de enroscar a língua. Quando ficava nervoso, mal conseguia articular uma palavra. Chiava, tartamudo. Tentou uma palavra, a palavra não lhe saiu.
Ganhou mais coragem e, de mãos postas, pediu a Pelé que seguisse o titio. Pelé levou até o fim o que, então, se chamava a contradança e, em seguida, mandou-se pro quarto, onde dormiria o sono dos justos.
Sempre foi assim. Romário cumpre, apenas, o lado cabaré de todo jogador de futebol. A rigor, de todo jovem de alma boêmia. Garrincha era assim também. Uma noite, sumiu do hotel, numa excursão do Botafogo ao México. Reapareceu, já dia claro, escoltando uma bailarina com quem vencera um concurso de dança, num cabaré da cidade. Saldanha, malandro velho, nem estrilou.
A concentração de véspera de jogo é um fardo insuportável. Além de ser contraproducente. Prender o jogador, numa espécie de cárcere privado, é atentar contra o bom senso. Confinados, seja numa casa, seja num hotel, os atletas acabam irritados. O ano inteiro, a mesma rotina, um olhando pra cara do outro. Lá fora, a vida pulsando, a mil. É claro que o passarinho, engaiolado, começa a querer que o clube se dane, que o jogo vá pro inferno. A concentração, em vez de motivar, exaspera.
Tenho pra mim que o presidente do Flamengo só foi fundo na punição a Romário porque o momento da equipe não era, nem é animador. A Mercosul, a seletiva e nada é tudo a mesma coisa. Ter caído fora do campeonato nacional, isso sim, pegou no fígado rubro-negro.
Veja, leitor, como é estúpido esse regime de concentração: se Romário tivesse passado a noite, jogando baralho e em qualquer concentração, o carteado corre solto, valendo dinheiro grosso se Romário tivesse varado a noite, apostando fortunas no vinte-e-um, certamente, teria tido um desgaste emocional muito maior do que sofreu, na noitada de Caxias do Sul.
Tudo bem, às vezes, na vida, a injustiça é melhor do que a desordem, do que a indisciplina. Mas por que não aproveitar o episódio pra decretar, de vez, o fim dessa farsa, dessa hipocrisia que, em má hora chamou de concentração?
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Faço exame médico, periodicamente, no CEMAL, por cujo crivo passam todos os aviadores, da categoria aeroesportiva, como a minha, até a aviação comercial e militar. Esta semana, estive lá, justamente, na manhã em que o centro médico da Aeronáutica formigava de garotos, entre 15 e 17 anos. Fiquei impressionado com um dado que me foi revelado: 50 por cento dos garotos candidatos à Escola Preparatória de Cadetes de Barbacena 50 por cento, repito são reprovados por problemas de vista e de coluna vertebral.
- Pela primeira vez, o contrato do Flamengo com a ISL reuniu, num grupo de estudos, a direção da empresa suíça, a presidência do Flamengo e as três comissões ligadas à questão: Financeira, Jurídica e Fiscal. Aparadas as arestas, o contrato será assinado de uma hora pra outra.
- A seleção feminina de vôlei classificou-se pra Sidney-2000. Olimpíada com Leila, com Virna e com o astral de Bernardinho é outra coisa.
- Dessa história toda, envolvendo Ronaldo, Luxemburgo e Inter, uma coisa parece inegável: Ronaldo vinha sendo tratado como titular absoluto sem que fizesse o mínimo, tecnicamente, pra merecer o privilégio. A verdade é que aquela atroz pergunta sobre o que aconteceu com o Ronaldo na final da Copa a verdade é que, até hoje, pelo menos em campo, ele continua a ser um desapontamento só.
- O Cruzeiro ainda não assinou contrato com a Hick Muse, mas está tudo acertado. Só falta sacramentar. Uma coisa, porém, é certa: Eurico Miranda vai soltar os cachorros, ingressando na justiça contra o acordo da multinacional com Corinthians e Cruzeiro. Quer anular os contratos, à luz da medida provisória que proíbe a gestão, por empresa comercial, de dois ou mais clubes que disputem a mesma competição.
- Bastidores do Clube dos Treze: a associação desconfia que a CBF tenha feito vista grossa pro negócio Hick Muse-Corinthians-Cruzeiro, pois sabia muito bem que a Fifa, em seus estatutos, proíbe transações semelhantes.
- Em plena contagem regressiva dos Jogos Olímpicos, a Austrália dá um conselho: quem for a Sidney, pra ver as Olimpíadas, que leve chapéu e protetor solar. Se chegar de mãos abanando, que trate de comprar um chapéu Legião Estrangeira, tipicamente australiano, que protege o rosto da ação maléfica do sol. A Austrália, louvada como um paraíso, figura como o lugar de maior incidência de câncer de pele, em todo o mundo, por causa do sol.
- O tênis de alto nível anda empobrecido pela contusão de Pete Sampras. Ele sofreu um pinçamento de vértebra, às vésperas do Aberto dos Estados Unidos, quando batia bola com Guga. Senti uma dor nas costas, como se alguém tivesse enfiado um punhal na minha coluna. Sampras anda jogando no sacrifício, longe, portanto, da sua forma física ideal.
- Conclusão de uma recente pesquisa: o Manchester United é o clube mais rico do mundo. Faturou, na temporada 96-97, nada menos de 140 milhões de dólares. A maior parcela vem de direitos de televisão. Por falar em TV, o novo contrato do Barcelona, com a tevê espanhola, é algo assombroso: 75 milhões de dólares, por ano, no período entre 2003 e 2008.





