CBF rebaixada
Entre mortos e feridos, escaparam todos, menos um. Sobrou pro Gama, tal como todo mundo temia. Caiu mas não foi no campo de jogo, onde verteu até a derradeira gota do honrado suor do esporte. Se o campeonato não tivesse sido levado às trampas do tapetão, o Gama teria escapado do rebaixamento, ficando, dignamente, na primeira divisão.
Tenho décadas e mais décadas de futebol brasileiro. Não me lembro de ter vivido momento mais constrangedor que o do campeonato deste ano. A CBF esmerou-se, como nunca, no exercício da bagunça. É a casa da mãe-Joana. Ninguém se entende, todos mandam e se desmandam, num festival de incompetência e má fé.
No dia em que a comissão disciplinar da CBF deixou de punir o Vasco da
Gama, cujo vice-presidente, cercado de seguranças, invadiu o campo pra melar o jogo com o Paraná, naquele dia instalou-se a desordem no campeonato. Desordem a que se seguiria uma série de atos condenáveis, cometidos nos tenebrosos bastidores da entidade.
O tapetão teria sido evitado se a CBF não se omitisse no episódio Sandro Hiroshi, pra citar um dos inúmeros casos de bloqueio de jogador por transferência irregular. Dizem que são dezenas. E, no entanto, a CBF ignorou tudo, solenemente.
A CBF está à matroca. Perdeu de todo a credibilidade. Não é diferente o conceito do tribunal de Justiça Esportiva, com suas sentenças iníquas. O resultado é o que se vê: os clubes divididos, São Paulo e Rio em pé de guerra, precisamente porque a CBF não tem pulso pra liderar o futebol brasileiro.
Se houvesse opinião pública no futebol, o Gama não estaria na rua da amargura, com a sua equipe de humildes e heróicos jogadores.
O Gama está tecnicamente rebaixado. Mas, moralmente, quem se rebaixou, mesmo, foi a CBF.
Vandalismo em campo
E o jogo Moto Clube 1 x Fluminense 1? Basta a CBF pedir o teipe ao Sportv. As cenas estão lá, nítidas, chocantes. Se não puder identificar os brigões pela fisionomia, é só anotar o número na camisa. Quase todos aparecem de frente e de costas, no sururu. Foram três minutos de vandalismo, de parte a parte.
O estopim foi um gesto desastrado do atacante Roger, que atropelou o goleiro do Moto, em pleno ar. Sobreveio o bate-boca, o árbitro foi solenemente ignorado e o pau quebrou, solto. O flagrante de um jogador do Fluminense sendo chutado, escoiceado, da cabeça aos pés, o rapaz deitado no chão, indefeso – o flagrante, repito, é repugnante.
Em plena selvageria, a figura patética do árbitro Iran Aranha chegava a inspirar pena. Recomeçando o jogo, oito de cada lado, ele parecia um fantasma. Fez que não viu dois pênaltis escandalosos, cometidos pela defesa do Moto Clube. Àquela altura, o instinto de sobrevivência já falava mais alto que a consciência.
Racha via Internet
A novela Sandro Hiroshi dividiu a minha correspondência: metade me acusa de cariocada, supondo que defendo a justiça esportiva só porque os pontos tirados ao São Paulo beneficiam o Botafogo do Rio; a outra metade me acusa de omissão, achando que faço o jogo do futebol paulista porque condeno o recurso do tapetão.
Nem adianta tentar convencer a galera de que procuro não tomar partido, a não ser pra defender o que considero sensato e justo. Torcedor raciocina com o coração, e coração, a gente sabe, não foi feito pra pensar; foi feito pra pulsar.
As gatas e os gatos
A figura do gato não é, como se pensa, uma invenção do futebol. O artifício foi criado pelas mulheres que, antes de chegar à casa dos trinta, começa a esconder, atrás do biombo do tempo, tudo o que lhe estiver pesando, em matéria de dias, semanas, meses, anos.
É da ilustre dama do antigo cinema americano, a atriz Mirna Loy, a seguinte declaração:
– Os dez melhores anos da vida de uma mulher se passam entre os 28 e os 30 anos de idade!
Rápidas e rasteiras
Que outra expressão senão fiasco pode ser atribuída ao Flamengo, na despedida do campeonato brasileiro? O que aconteceu em Caxias do Sul – e que eu vi pela tevê – foi a derrocada de um ‘‘grupo unido’’ pelos micróbios da desunião.
- Que coisa feia, desrespeitosa, a atitude dos gandulas do Beira-Rio, atirando em campo uma segunda bola, com a clara intenção de fazer cera!
- Casagrande não é comentarista de pisar em ovos. Quando o narrador da Globo, ainda no primeiro tempo, dizia que o Flamengo estava fazendo a sua parte, derrotando o Juventude, o dito Casão soltou os cachorros: ‘‘Não concordo com essa idéia, não. O Flamengo tinha que ter feito o dele era durante todo o campeonato. Pelo contrário, perdeu jogos e mais jogos, em casa, até chegar à situação em que chegou.’’
- Da revista Don Balon, falando mal de Denilson, do Betis: 1) a torcida do Betis quer vê-lo pelas costas; 2) Denilson vive trancado em casa, com medo de ser hostilizado pela torcida do Betis, de Sevilha; 3) Denilson insiste tanto em tentar fazer gols de bicicleta (sem o conseguir) que já não se sabe mais se ele é jogador de futebol ou ciclista.
- Uma coisa que não passou em branco, no Beira-Rio, foi a indiferença com que o Palmeiras recebeu a desclassificação. Mal escondia o sentimento de que a saída, mais cedo, do campeonato, deixa-o livre e desimpedido pra se concentrar única e exclusivamente no mundial de clubes que vai disputar, daqui a 20 dias, com o Manchester United, em Tóquio.
- Entre os cohichos de Brasília, há um que põe na marca do pênalti o ministro Rafael Greca. O nome pro lugar dele, soprado aqui e ali, é João Havelange.

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