Na Grande Área (Armando Nogueira)
Rodada de fogo
Que dizer de um campeonato que, mesmo longe de seu fim, acabou caindo, de corpo inteiro, nas malhas finas da matemática? Eu sei que a matemática é uma ciência exata. É pão-pão queijo-queijo. Mas a exatidão dos números é obra da vida, não do futebol. Aqui, há de entrar, sempre, no acerto de contas, uma parcela imponderável que se chama sortilégio. Tudo pode acontecer por intercessão sobrenatural. Sem contar outras variáveis de peso como as forças da natureza vento, chuva, sol! que costumam contrariar a lógica de um esporte inventado por Deus mas, às vezes, administrado pelo capeta.
Só pra dar uma idéia do tamanho da equação matemática, a luta de logo mais à noite, em disputa de três vagas no lote dos oito finalistas, desdobra-se numa intrincada conta de seis mil e 561 combinações. É como se o leitor estivesse concorrendo a um prêmio, numa loteria de 6 mil e 561 volantes.
A encruzilhada é terrível, tanto pra quem pretende entrar no paraíso como pra quem estrebucha pra não descambar nas profundas do rebaixamento. Lá no alto, oito times se engalfinham, lutando por três vagas. São eles: Guarani (99,9% de chance de entrar), São Paulo (96,2%), Palmeiras (45,4%), Atlético Mineiro (29,2%), Flamengo (14,8%), Santos (9,9%), Coritiba (3,3%) e Atlético Paranaense (1,1%). Esses cálculos foram feitos, sem que se soubesse o resultado da ação do Inter contra o São Paulo, ontem, no TJD.
Alguns se classificam com a simples vitória; outros, como o Flamengo, Atlético Mineiro e Santos, ficam pendurados na sorte alheia. Dependem de terceiros, o que torna a situação deles bem dramática.
Assistem, de camarote, ao corpo-a-corpo dos oito candidatos uma corte formada por Corinthians, Cruzeiro, Vasco, Vitória e Ponte Preta, todos cinco já devidamente promovidos à segunda fase do campeonato.
Por fim, chegamos ao vale de lágrimas do rebaixamento, onde se contorcem Gama, Botafogo-RJ e Inter. Dos três, o menos sofrido é o Gama que, com um simples empate, em Campinas, contra a Ponte, escapa da segunda divisão. Na tabuada do meu guru Lauro Araújo, o Gama está com todas as chances de se salvar, ficando na primeira. É só vencer.
Não gostaria de estar na pele de nenhum dos três. Pelo seguinte: o Gama pega a Ponte Preta, que está naquela fase de querer mais respeito. Mesmo classificada, a Ponte Preta ainda precisa mostrar que já é grande. Jogando em casa, então... O Botafogo-RJ, por sua vez, enfrenta o Guarani. Depois do nocaute sofrido contra o Palmeiras, como andará a cabeça do time alvinegro? Por fim, o Inter. O jogo é no Beira-Rio, mas o adversário é alguém na implacável gangorra: ou sobrevive ou desfalece de vez. Já pensou com que ânimo entra em campo, hoje, o Palmeiras?
Tal que o pôquer, jogo cheio de blefes, o futebol nos oferece, esta noite, uma autêntica rodada de fogo.
Coitadinho do Gama
Eurico Miranda já não esconde de ninguém: Eu não vou deixar o Botafogo cair dizia ele, ao microfone, na festa de lançamento da Kaiser Clube, no Metropolitan, segunda-feira de noite. Era a notícia fresquinha que o cartola vascaíno trazia, recém-chegado de uma reunião na CBF.
Pode ser que eu esteja enganado, mas vai sobrar pro Gama. Coitado do Gama. Fez um time tinhoso, que joga um futebol razoável, ensopa a camisa do suor mais honrado e, no fim, dão-lhe um passa-moleque descarado.
Pobre ética do futebol brasileiro.
O joelho de Leila
Carlos Nuzman, presidente do COB, telefona, chateado com a notícia aqui publicada, de que o Comitê Olímpico e a Confederação de Basquete ignoraram a contusão da jogadora Leila, que voltou de Winnipeg com o joelho avariado. Minha fonte tinha me assegurado que, à falta de apoio das duas entidades, a operação de Leila seria bancada pela Knorr, que patrocina a equipe de Karina, em Campinas.
Nuzman documenta tão fartamente o seu esclarecimento que chego à conclusão de que ou minha fonte estava mal informada ou não gosta nem do COB nem da CBB. E o marquês, aqui, entrou de gaiato.
Rápidas e rasteiras
- Do jogo Santos 1 x Flamengo 0, ficaram-me alguns instantes, realmente soberbos, de dois jogadores. De um lado, o jovem Dodô, o qual, dizem, só não é um fenômeno porque ficou metido a besta. Teria ficado pra lá de prosa. Mas é, sem dúvida, o mais brilhante atacante da nova geração. Falo de brilho, não de eficiência. Do outro lado, houve Romário, em dois lances de refinada concepção e execução: dois lençóis de meia distância com que encobriu o goleiro Zetti. Seda pura. O mais bonito, triscando a trave superior, nasceu de meia bicicleta frontal; o outro passou raspando a trave. Irrepreensíveis!
- Uma das idéias fixas da multinacional Hick Muse, que vai administrar Corinthians e Cruzeiro, é tirar as transmissões de futebol das tevês abertas (Globo, Bandeirantes) e levar pro pay-per-view; e, de preferência, pra um canal de cabo de propriedade dela.
- Passa o tempo, passam as gerações e o Cruzeiro segue, fiel, à escola de futebol requintado que emplacou ainda nos anos 60, com a geração de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza e Evaldo.
- Pelé, Beckenbauer, Bob Charlton e Boniek, consultores da Fifa, reúnem-se e discutem uma agenda substanciosa: unificação do calendário mundial, número de jogadores estrangeiros por equipe, profissionalização da arbitragem e também dupla de arbitragem. Só não falam do escândalo que é o número de faltas no futebol especialmente no brasileiro.





