Na Grande Área (Armando Nogueira)
O exemplo
de Churchill
Já me manifestei sobre a novela Sandro Hiroshi e seus desdobramentos políticos. Reconheço o direito que tem o Botafogo de acionar o São Paulo, na Justiça Esportiva. Se houve irregularidade, que se puna o responsável. Na mesma situação, com sinais trocados, o São Paulo estaria, hoje, tentando tirar, no tapetão, os três pontos do Botafogo.
Neste país, pratica-se a impunidade com a cara mais deslavada do mundo. Acho, porém, um constrangimento ter que ir buscar fora de campo o que foi perdido nas quatro linhas. O ideal seria que houvesse um meio mais salutar de castigar o desrespeito às normas legais do esporte. Minha paixão não pode ser mais transparente. Não aprovo o recurso. Não gosto de tapetão.
O assunto Hiroshi está empolando as veias dos torcedores. Um deles me escreve, enfurecido, exigindo de mim mais veemência, mais agressividade na condenação ao tapetão. A cobrança destemperada do leitor me faz lembrar um fato histórico da Segunda Guerra Mundial.
Passou-se com Winston Churchill. Ele escreveu uma carta a Hirohito, declarando guerra ao Japão. No dia seguinte, foi convocado à Câmara dos Comuns. Os parlamentares britânicos queriam saber porque Churchill tinha sido tão cortês nas palavras da carta. O Primeiro-Ministro justificou-se:
Na carta, deixo bem claro minha determinação: não sossegarei enquanto não tiver matado, um por um, todos os japoneses. Mas, pra dizer isso, não precisava ser indelicado.
Viagem ao ser humano
Entrevistei Suzy Fleury pro Esporte Real. Vai ao ar na próxima semana. Boa de bico a moça. A alma da seleção e a do Corinthians estão bem entregues. Comecei a ler Competência Emocional, o livro dela que está na vertente do Inteligência Emocional, do psicólogo americano Daniel Goleman. Ambos os livros são uma profunda viagem até o mais íntimo da criatura humana, passando pelos insondáveis caminhos do cérebro. Cérebro que vem a ser a sede da memória, velha cidade de traições, na soberba definição de Machado de Assis.
Valeu, dona Suzy!
Crítica em falta
Termina o jogo Inter 1 x Ponte Preta 0. Estou no SporTV e vejo o papo de Jota Junior com Mário Sérgio, comentarista do canal. São dois profissionais que sempre apreciei. Conhecem do riscado. O Mário, inclusive, foi um dos primeiros a clamar contra o carrinho, quando esse flagelo começou a estragar tornozelos e espetáculos. Pois nenhum dos dois fez a mais leve referência a um dado espantoso da partida: nada menos de 86 faltas. Pensei: ou já estão acostumados, ou, então, acharam normal.
Como é que se comenta um jogo, sem ao menos deplorar o excesso de faltas? O que haverá pra comentar numa partida em que se cometem perto de 100 faltas? A crítica, sem exceção, tem o dever de cair de pau em defesa do bom futebol. É a única voz livre e credenciada. O resto está comprometido. São os jogadores, os técnicos, os cartolas e os árbitros. Esses, então, têm poder pra coibir mas não estão nem aí pra se chatear.
Não tenho a menor dúvida de que os carniceiros do carrinho já pensam duas vezes antes de dar um bote nas canelas alheias e já pensam certamente porque os críticos mais vigilantes passaram cinco anos, pondo a boca no mundo. Entre eles, o Mário Sérgio.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O Corinthians entrou no Maracanã arrastando as sandálias de líder do campeonato. Quando deu pela coisa, estava tomando de quatro a zero, uma goleada impiedosa que lhe aplicou o Atlético Mineiro, numa tarde de gala.
- Um gol pra se guardar numa vitrine de troféus: Guilherme chega, em velocidade, à entrada da área, amortece a bola no peito, à presença do goleiro Dida, dá-lhe um chapéu de côco e sela a jogada com uma cabeçada certeira. Gol em três tempos: um tempo do peito, outro do pé e, por fim, o tempo da cabeça.
- O Vasco da Gama vai muito bem, obrigado, mas, de quando em quando, deve passar pela cabeça de Antônio Lopes: juntos, os dispensados Luisão e Guilherme, nos respectivos times, já fizeram 30 gols, enquanto Viola, que sucedeu os dois no Vasco, até agora, só fez doizinhos.
- Volta e meia, sai no jornal que o Fluminense cansou de Parreira. Só pode ser boataria. Carlos Alberto Parreira tem contrato até dezembro e nada justificaria um rompimento da parte do Fluminense. Pelo que tem feito pelo Fluminense, Parreira merece ser canonizado pelo clube das Laranjeiras.
- Dora Bria está procurando duas velejadoras pra um desafio monumental: cruzar o Atlântico numa prancha de Windsurf, numa regata de celebração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Serão 30 dias, surfando em mares nem sempre de almirante. As duas parceiras que Dora procura podem ser brasileiras ou portuguesas.
- É tanto time brigando por uma das cinco vagas restantes no clube dos oito finalistas do campeonato brasileiro mas é tanto time se engalfinhando que até se poderia dizer, biblicamente, que, a essa altura, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que entrar no rol dos oito privilegiados.





