Na Grande Área (Armando Nogueira)
O riso dos Andes
Esta semana, precisamente dia 28 de outubro, a saudade voltou toda! Se vivo estivesse, Garrincha estaria fazendo 66 anos. Tirei os olhos da agenda e, logo, me lembrei de um certo dia de junho de 62, em Santiago do Chile. Jogava-se a decisão do mundial entre Brasil e Checoslováquia. Recordo que deixei o estádio, às pressas, nem pude comemorar. Debrucei sobre a máquina de escrever. Tinha que contar aquela história, ainda fervendo de emoção. Araújo Neto e eu dividíamos a autoria do livro Drama e Glória dos Bicampeões que a Editora de Rubem Braga e Fernando Sabino nos havia encomendado, com uma exigência incontornável: o livro teria que estar nas livrarias na mesma semana da chegada da seleção ao Brasil.
Do capítulo sobre a final, transcrevo, hoje, a parte sobre o recital de Garrincha. É o jeito que me ocorre de não deixar que caia no esquecimento o grande herói de duas Copas.
A Copa do Mundo está decidida, o Estádio Nacional de Santiago do Chile já conhece o campeão que corre, agora, em estado de graça, coberto de aplausos ardentes. Mas o público tem uma dívida a pagar: faltam cinco minutos para o fim e ainda não reverenciou o jogador mais perfeito em todo o campeonato o moço que, faz do futebol uma festa e que, brincando pela direita, amaciou os caminhos de seu ataque com o sofrido suor de todas as defesas adversárias.
Garrincha tem a bola aos pés. À frente, dois zagueiros checos, os dois melhores Popluhar e Novak. Havia se aproximado da área driblando, em ritmo lento. Dribla quatro vezes o mesmo homem que corre em ziguezague, sem saber para onde está sendo levado. Chega o socorro de Novak a Popluhar que, a essa altura, está parado a um passo da linha da área, armas ensarilhas, as mãos nos quadris. Garrincha fica imóvel ao lado da bola, aterrador. Vem chegando mais um checo é Kvasnak que, se tinha intenções de disputar a bola, perdeu-as pelo caminho, aos cacos. Põe-se atrás de Novak, estático, igualmente rendido à trama hipnótica. Uma fila de três beques irremediavelmente encantados.
Instante assim em um campo de futebol, só aquele do jogo Brasil x União Soviética, na Copa do Mundo de 1958, em Gotemburgo: depois de driblar quatro russos, Garrincha parou diante deles, na linha de fundo, sonso, fingindo de morto, fingindo de inocente. De vez em quando, provocava os adversários, oferecendo a bola com breves toques de bico de chuteira. Parecia o rato-e-o-gato: os quatro russos hipnotizados. Em volta, quarenta mil suecos rindo e batendo palmas.
A cena de Nya Ullevi se reproduz quase integralmente no Estádio Nacional de Santiago do Chile, que está em silêncio diante do lance insólito.
Com uma diferença: dessa vez Garrincha tem a intenção evidente de cortejar o público chileno, que passara o jogo inteiro a hostilizá-lo. Sobras, ainda, de um incidente entre Garrincha e um jogador chileno, na partida semifinal.
Agora, sim, Garrincha pode encerrar o lance: a Copa do Mundo está fanatizada, a seus pés, o estádio passa do silêncio a uma gargalhada de oitenta mil pessoas: o público começa a bater as palmas da consagração, fazendo as pazes com o ser desafeto. É a glorificação do anjo de pernas tortas.
A Cordilheira dos Andes guardará pra sempre a lembrança de Garrincha.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O Conselho Deliberativo do Flamengo deve aprovar o contrato com a ISL, em reunião marcada, em princípio, pra primeira quinzena de novembro. Mas, a vitória de Edmundo Santos Silva não virá sem dor de cabeça. As comissões de justiça e de finanças consideram lesivo à soberania do clube o artigo 10º do contrato que, praticamente, extingue o poder do Conselho Deliberativo. A Comissão de justiça, que é integrada por cinco desembargadores, todos rubro-negros de fé, pode levar a questão pra justiça comum.
- As irmãs Williams, heroínas do tênis americano, vivem condenando a discriminação racial no seu país. Há quem considere que é tudo ressentimento herdado dos pais. Pois vejam as palavras de uma das maiores atletas contemporâneas, a francesa Marie-José Peréc: Foi quando cheguei aos Estados Unidos, pra uma competição, que senti que era negra.
- Há esportes em que tamanho é documento. O vôlei é um deles. O basquete idem. Pois então uma boa notícia: a seleção brasileira infanto-juvenil de vôlei (17 anos) já é mais alta que a juvenil e a própria equipe adulta brasileira. A garotada tem, na média, dois metros de altura. Aliás, a infanto feminina também já deixa lá em baixo a adulta de Virna e Ana Moser.
- O drama do cabeça-de-bagre é pensar que futebol se joga só com os pés. Romário é assim: quando pensam que o futebol dele se acabou, ele ressurge das cinzas, mais Romário que nunca. É o Fênix da grande área.
- O boxe não me entusiasma; pelo contrário, me assusta pela contundência. Mas, acho esse jovem Popó uma figura humana interessante. Devia ter escolhido outro jeito menos ruinoso de vencer na vida.





