Na Grande Área (Armando Nogueira)
Abre as asas sobre nós
Nem só de futebol vive o homem. Eu, por exemplo, tenho outras vidas, uma delas é voar. Criança, ainda, eu já planava, em sonho, sobrevoando a cidadezinha de Xapuri, enganchado no pescoço de um regador de jardim. O regador era de um japonês que, certamente levado pelos ventos do destino, apareceu na minha terra e por lá ficou até que eu o perdesse de vista. Além de voar, eu tinha a minha frota aérea. Eu mesmo fazia meus aviõezinhos. Era um jeito de dar vida a meus sonhos. Dobrava uma folha de papel almaço, dava-lhe feitio de avião e eis que o bichinho decolava da ponta de meus dedos, levando com ele a minha própria infância.
Hoje, estou tomando posse no Instituto Histórico e Cultural da Aeronáutica. É mais um vôo que vou fazer. Percorrerei céus e nuvens nas asas de Anésia Pinheiro Machado, por cuja cadeira cabe-me, agora, zelar.
Li, certa vez, que dois terços dos seres vivos são capazes de voar. Até a galinha voa, não sei pra que, mas voa; o mosquito, bichinho à toa, também voa. O morcego é cego, não enxerga nada, mas voa e voa IFR, no breu da noite; a formiga, que nasceu pra dar duro, quando se cansa de trabalhar, cria asas e sai voando, livre e contente como sua velha rival, a cigarra. O homem, tido e havido como a mais inteligente criação da natureza, não mereceu do Senhor a graça de voar. Por decreto divino, a sina dele haveria de ser a mesma das vacas, coitadinhas, condenadas a viver pastando neste vale de lágrimas.
Não poder passar pelo céu, triscando uma nuvem, aqui, vendo, bem de perto, um pôr-do-sol incandescente, ali já pensou, gente, o tamanho da nossa frustração?
Estava na cara que o homem não ia sossegar enquanto não arranjasse um jeito de entrar na farra dos passarinhos. Porque, amigos, voar é uma farra, é um passatempo. É um jeito poético e soberano de brincar. A andorinha é uma prova do que afirmo: sem a mínima culpa, a andorinha passa a vida, brincando de esconde-esconde com o vento. Anjo da guarda, quando não está de plantão, fica o dia inteiro brincando de furar nuvem, feito surfista na arrebentação.
Bicho lúdico por excelência, o homem tinha que acabar dando a volta por cima. E como deu! Inventou nada menos que o avião, sem sombra de dúvida, o brinquedo mais perfeito do século, se não for do milênio.
E, como neste planeta, povo nenhum gosta mais de brincar que o nosso, o avião tinha mesmo que sair da cabeça de um brasileiro. E é por isso que, como no hino, nós cantaremos sempre: Santos Dumont, abre as asas sobre nós!
Bumbum irreverente
Cada vez mais me impressiona o interesse feminino por esportes. Especialmente, por futebol. Os estádios começam a ser frequentados por meninas, moças e adultas. Recebo cartas e correios eletrônicos na seguinte medida: um terço de mulheres pra dois terços de homens.
Elas estão vendo, torcendo e jogando. E até já abusando do prazer de jogar. É o caso de Jô, atacante do time feminino do Sport Recife. Vejam o que fez a moça, no finalzinho da decisão do título pernambucano, entre Sport e o Santa Cruz, no último fim de semana, em Recife.
A partida estava zero a zero. Pelas tantas, Jô recebe um passe açucarado e parte, célere, bola dominada, na direção do gol do Santa. Na escapada, dribla a primeira, avança mais, dribla a segunda, avança ainda mais, encara e ultrapassa a goleira, aplicando-lhe mais um drible. Jô vai fazer um gol de placa, entrando com bola e tudo. Pois, sim! Jô pára em cima da linha das traves, pisa na bola. Tem todo o tempo do mundo pra escolher como desferir o golpe de misericórdia. Pode dar um biquinho sarcástico. Pode dar um toque de calcanhar, bem malicioso.
Jô deve ter pensado, num repente: gol de letra, muita gente já fez. Gol de calcanhar, então, quem já não fez? Gol de trivela, hoje, é coisa igualmente banal. Gol de peito, o Romário já fez. Gol de barriga o Renato Gaúcho já fez, por sinal, no Flamengo, decidindo o título num Fla-Flu. Pois Jô resolveu inovar e, num requinte de originalidade, senta na bola e faz um gol, literalmente, de bumbum.
Rápidas e rasteiras
- A federação Internacional de Natação acaba de aprovar o traje com que Ian Thorpe bateu o recorde mundial dos 200 metros, nado livre. É talhado num material sintético que, segundo o fabricante, reduz a resistência ao avanço, em cerca de 15 por cento. Praticamente, o maiô (corpo inteiro) permite dobrar a velocidade do nadador no gesto da virada.
- Uma onda de violência varreu diversos estádios, na França e na Holanda, na última semana. O hooliganismo é um flagelo de todos os mundos, primeiro, segundo, terceiro.
- Domingo passado, um ultraleve teve um problema no motor, em pleno vôo. O piloto, meu colega Antônio Bejar, fez uma singela manobra e pousou seu anfíbio na Lagoa de Jacarepaguá, sem qualquer transtorno. Ele e Renata, sua co-piloto, tão senhores estavam da situação que até curtiram a emergência. Pois, pra variar, deu no rádio que caiu um ultraleve na Lagoa da Barra. A imprecisão na informação e a impropriedade verbal é que deixam mal os meios de comunicação.





