Cabeça-de-craque...
A questão é: um grande time deve ter, à entrada da área, um ou dois gladiadores? Ou não ter nenhum? Dois pesos-pesados da crítica estão em cordial divergência: Sérgio Noronha não abre mão de dois; Fernando Calazans prefere soluções mais ousadas no setor do meio-campo. Noronha argumenta com o time do Vasco da Gama que, com os guerreiros Nasa e Amaral, deu de 2 a 1 no Palmeiras. Já o Calazans cita o exemplo do Corinthians que ganha bem, sem que precise usar nem mesmo um cabeça-de-área. Joga – e joga bonito – com Vampeta e Rincón que pertencem à dinastia do futebol regado a suor, mas, acima de tudo, exercido com engenho e arte.
O modelo em discussão é o Vasco da Gama. Quando Antônio Lopes, certa vez, escalou o batedor Amaral e, em torno dele, dispôs Felipe, Juninho e Ramon, capengou. Fez-se, então, uma tempestade em copo d’água e Lopes, rapidinho, descartou Felipe e recorreu ao bate-estaca Nasa. Trocou o pianista pelo carregador de piano. E a conclusão apressada logo se impôs: com três ourives, não dá.
Segundo Zagallo, nós, comentaristas, somos todos palpiteiros. Ou seja: somos uns inconsequentes. Falamos sem raciocinar, traço típico do palpiteiro. Pois bem, palpiteiro de plantão, direi que deixar no banco um jogador da envergadura de Felipe só mesmo obra de alguém que tenha as costas quentes como Lopes. Ou, então, quem sabe, Felipe ainda estaria por recobrar a condição atlética perdida em cerca de dois meses no sereno, por conta do impasse com o Roma, da Itália. Porque jogar futebol como Felipe, que eu tenha visto, em 50 anos de janela, é coisa rara. Raríssima, meus senhores!
Um Vasco da Gama azeitadinho com Felipe, Juninho e Ramon, Deus que me perdoe! Não vai ter graça pros outros. É só Lopes tirar de seus craques o rendimento atlético que Oswaldo de Oliveira tem sabido tirar de Vampeta, Rincón, Marcelinho e Ricardinho. No Corinthians, a fórmula é ainda mais ousada porque, na receita de jogo, entra um quinto artista-combatente que é Edílson. Agora mesmo, no jogo com o Inter, vi Edílson disparar diversas vezes, voltando à meia-cancha pra desarmar alguém do Inter. É assim mesmo, na franqueza da transpiração, que o artista humaniza sua obra.
A solidariedade e o desprendimento dos atacantes é tão mais necessária porque a zaga do Corinthians não é lá para que digamos...
Enfim, alguém contestará que o Corinthians é um belo time, rico de tramas ofensivas, simplesmente mortal nos contra-ataques de Vampeta-Rincón-Ricardinho-Edílson-Marcelinho-Luizão? E quem é o clássico cabeça-de-área nessa que é a equipe líder do Campeonato Brasileiro? Ninguém. Ou melhor, todos. A rigor, um pouco de suor de cada craque é que acaba gerando o cabeça-de-área ideal.
Pois o Vasco, com um pouco mais de suor, poderia ser ainda mais brilhante que o Corinthians, justamente porque dispõe de zagueiros bem mais confiáveis.
Os melhores do século
A onda, no momento, é eleger os melhores do milênio, no futebol. Ninguém dá por menos. Como se o futebol tivesse existido muito aquém dos últimos cem anos. No século XIX, o futebol ainda confundia bola com cabeça de guerreiro inimigo.
A Federação de Histórias e Estatísticas do Futebol acaba de consagrar 10 jogadores como os mais perfeitos da história do jogo. Lá estão Pelé, Garrincha, Maradona, Di Stéfano, Bobby Charlton, Platini, Cruyff, Puskas, Eusébio e Beckenbauer.
Não costumo levar muito a sério essas listas. O teor de subjetividade, em tais seleções, a meu ver, compromete o resultado. Pra variar, a escolha é insatisfatória. Começa que ignora jogador de defesa. Zagueiro e goleiro são discriminados.
Como se o futebol só criasse luminares do meio pra frente. A menos que a eleição tenha a clara intenção de privilegiar atacantes, hipótese em que, de cara, Beckenbauer não poderia estar na lista. Outro reparo: quando, em que mundo Platini jogou a bola esmerada de mestre Zizinho?
Como é que alguém tem o desplante de omitir nomes como Nilton Santos e Domingos da Guia, em qualquer relação de supercraques do século? De Nilton Santos, basta lembrar o título de Enciclopédia do Futebol. O apôsto pretende proclamar que, em matéria de futebol, Nilton Santos alcançou o pódio celestial dos melhores na arte de evitar gols.
De Domingos da Guia, ninguém precisa queimar neurônios pra defini-lo com exatidão. É só pegar o livro ‘‘El Futbol a sol y sombra’’, do escritor uruguaio Eduardo Galeano que, numa frase, exalta assim o mestre dos mestres: ‘‘A Leste, a Muralha da China. A Oeste, Domingos da Guia’’.
No livro ‘‘Na Grande Área’’, eu também me debruço sobre a geometria da grande área, aproximando os dois geniais zagueiros: ‘‘Contemplo os pés imortais de Domingos da Guia, pisando a grama de leve pra não magoar a semente de sua arte – Nilton Santos.’’
Voltarei ao assunto.
Rápidas e rasteiras
- A decisão de panos quentes que o presidente do Flamengo adotou no caso Onça-Gilmar é bem um sinal do quanto pode custar à ISL meter-se com um clube de forte ranço amadorista. O cartola-torcedor não tinha nada que ir espinafrar os jogadores rubro-negros, num vestiário de cabeça quente.
- A porta de acesso ao clube fechado dos oito finalistas está cada vez mais estreita: estão empilhados, na ante-sala, nada menos que São Paulo, Palmeiras e Flamengo, os três tendo que dar um chega-pra-lá em quem, já está do lado de dentro que são Ponte Preta, Atlético Mineiro, Atlético Paranaense e Vitória.

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