Que bom Felipe!
Não conheço pessoalmente o jogador Felipe. Sei, porém, que o êxito fulminante deixou-o um tanto deslumbrado. É aquela história de sempre: o garoto sai do zero pra um salário de megassena, compra logo uma Mercedes-Benz, é entronizado nos embalos da noite – e pronto. A bola torna-se mais pesada, as pernas, também, a cabeça está noutras, sobrevém a cobrança da torcida, do treinador, da imprensa. Ao mesmo tempo, a corriola enche-o de razão e o craque pode acabar naquele estado de alienação em que, qual uma criança, fecha os olhos pra não ser visto por ninguém.
Digo tudo isso porque vejo em Felipe um craque excepcional. O mais legítimo representante da escola brasileira de futebol. Ele é o drible mais espontâneo, mais astucioso dos nossos dias. Ninguém arranca da velocidade zero com a leveza de Felipe. Ninguém. O grande driblador não usa a força dos músculos; usa um senso de tempo que só ele tem. Assim é Felipe cujo poder de drible não se esgota no primeiro gesto. O drible dele, como em Garrincha, é um processo.
Mas não é só o drible enxuto, no instante certo, que dá ao futebol de Felipe uma dimensão superlativa. É também o domínio do passe impressentido, o passe que desequilibra o adversário. No Vasco como na seleção, ele tem produzido verdadeiras jóias, lançando aos atacantes bolas de assombrosas concepções. É um menino, ainda, mas exerce a regência de uma equipe como se tivesse o olhar absoluto dos grandes maestros. Acontece que tem.
Wanderley Luxemburgo pode ter encontrado em Felipe o que andou procurando em Zé Roberto. Felipe deu ao núcleo de criação da equipe nacional a dose de talento, a aura de beleza há muito perdidos em tantos anos de futebol de resultados.
A guerra santa
A guerra santa do Campeonato Brasileiro segue a sua implacável batida: crucificando uns e canonizando outros. O Corinthians é o principal eleito da 1ª fase, já tendo chegado à cifra de 31 pontos. Vai ganhando uma cadeira cativa entre os oito bem-aventurados da fase final. Abaixo dele, estão vindo, pela ordem, Atlético Mineiro, depois, Cruzeiro, São Paulo, mais abaixo Vasco da Gama, e Flamengo, os dois com 25 pontos. Ali, pertinho, estão a Ponte e o Atlético do Paraná, o primeiro, com 25 pontos mas com menos vitórias que São Paulo e Flamengo, e Atlético do Paraná, com 24 pontos.
Palmeiras, Guarani, Santos, Grêmio – esses ardem, ainda, no purgatório, querendo um lugar ao sol mas ainda estão fora do clube fechado dos oito.
Às portas do inferno, em cólicas, estão o Botafogo de Ribeirão Preto, o Juventude, o Paraná Clube e o Botafogo do Rio. Os quatro cairiam no abismo da segunda divisão se o Campeonato Brasileiro tivesse terminado domingo.
Pra esses quatro times, a guerra, até agora, não tem sido nada santa.
Duas fora e uma dentro
No jogo Botafogo 2 x 1 Flamengo, houve um lance que escandalizou os alvinegros: depois de apitar um pênalti contra o Flamengo, o árbitro Jorge Travassos engoliu, não o apito, mas o sopro e mandou cobrar impedimento contra o Botafogo. ‘‘Onde já se viu – gritavam os jogadores do Botafogo – marcar um pênalti e depois voltar atrás. É um escândalo.’’ Não, não é escândalo nenhum. A regra autoriza o juiz a rever uma decisão sobre um lance, em si, viciado.
É de lastimar que a história tenha começado com dois erros de conduta: Jorge Travassos devia ter olhado na direção do bandeirinha, justamente, na hora de um passe profundo pra Rodrigo. Não olhou. O bandeirinha, por sua vez, tinha que manter a bandeira no alto, mesmo depois que viu o árbitro apitar a penalidade máxima. Ao baixar a bandeira, omitiu-se. Foi preciso que jogadores do Flamengo o pressionassem, levando a confirmar verbalmente perante o árbitro que, de fato, tinha assinalado o impedimento alvinegro.
De qualquer modo, erro mais grave teria sido manter o pênalti, cometido em lance, como já disse, que já nascera viciado por um impedimento flagrante.
Um minuto de silêncio
E lá se foram dois homens, ambos João, da minha admiração e estima pessoal: o Cabral de Melo Neto e Saad. De um e de outro sempre estive bem próximo. O poeta e diplomata João Cabral, conheci-o no mundial de futebol de 82. Tive o privilégio de contar com ele na equipe da Rede Globo. João Cabral escrevia sobre a Espanha textos, naturalmente primorosos, que enobreciam a nossa cobertura.
João Saad, dono da Rede Bandeirantes, era igualmente uma convivência enriquecedora. Volta e meia, almoçávamos juntos, no restaurante ao lado de seu gabinete de trabalho. Era eu contratado da Bandeirantes, subordinado dele, portanto, mas o ‘‘doutor’’ João me distinguia com um tratamento igualitário que só a amizade pode explicar.
Esta coluna, fiel aos rituais do futebol, pede um minuto de silêncio por dois queridos amigos.

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