Quem te viu
Brasil e Argentina jogaram duas vezes, em menos de uma semana. Como faz bem ao coração ver duas excelentes seleções dando as cartas e jogando de mão! Senão as duas ao mesmo tempo, pelo menos uma de cada vez, como aconteceu. Que beleza teria sido uma partida entre a Argentina, vencedora em Buenos Aires, e o Brasil, vencedor em Porto Alegre.
É em jogos dessa dimensão que Wanderley Luxemburgo vai poder forjar a seleção brasileira do novo século. Palmas, pois, pro treinador e sua comissão técnica que estão sabendo programar, com visão realmente estratégica, o futuro da equipe nacional. Depois da Argentina, a seleção volta a pegar a Holanda, em mais dois amistosos, um já garantido. Mais adiante, quer jogar contra Portugal e Bélgica. Convenhamos: um cardápio bem mais proveitoso do que ficar se barateando com a Arábia Saudita e outros que tais.
Chega de ver a seleção nacional se banalizar, jogando contra equipes de segundo e terceiro escalões. Agora, certamente, o técnico Wanderley Luxemburgo já sabe que deve espicaçar o orgulho dos jogadores, antes mesmo do primeiro jogo. A derrota em Buenos Aires – está provado – foi muito mais psicológica que técnica ou tática. O diagnóstico é esse, não vejo outro.
A equipe do Brasil vacilou, mentalmente. Tanto que, encostados à parede, numa preleção contundente do técnico, os jogadores se transfiguraram. Deram uma exibição de talento e de brio justamente contra o adversário que os tinha surrado com tamanha nitidez.
O jornal argentino ‘‘La Nación’’ arremata, com as seguintes palavras, um longo comentário sobre o 4 a 2 do Beira Rio: ‘‘O Brasil demonstrou que é verdadeiramente grande. Pois só quem é grande tem tamanho poder de recuperação. O Brasil foi assombroso’’.
Por sua vez o ‘‘Ol钒, de quarta-feira, abre um título que vale pras duas equipes: ‘‘Quien te ha visto, quién te ve!’’ E manda lá um texto épico, assim: ‘‘O campo explode, arde em mil cores, em centenas de gritos que acabam num grito único. Brasil joga, joga e joga. Argentina não vê a bola, desaparece e tudo, de repente, é verde-amarelo. É um baile com todas as letras, em maiúsculas. E é um tal de vem-pra-cá-vai-pra-lᒒ.
Bola na rede
Houve quem cobrasse os dois gols argentinos, no jogo de Porto Alegre. O primeiro, uma cabeçada fulminante de Ayala, que pegou de surpresa o bloco defensivo do Brasil. Depois, o gol de Ortega, fruto do poder quase mágico que tem o atacante argentino de driblar e fintar.
Prefiro exaltar os cinco gols brasileiros (o gol anulado foi uma heresia do bandeirinha). Qualquer equipe, disposta em campo ofensivamente, fica mais vulnerável. É o preço que se paga quando se joga, pensando mais em vencer do que em não se deixar vencer.
O verdadeiro futebol brasileiro é o que se viu no Beira-Rio: tomou dois gols mas fez cinco (um mal anulado), e mais teria feito não houvesse nas traves argentinas um goleiro da envergadura do jovem Bonano. Como bem diz o povão: bom, mesmo, no futebol é bola na rede.
Guga no cimento
Não deu. Chegar às quartas-de-final não é nada mal pra quem vem de outras plagas. A quadra rápida nunca foi a praia de Guga. E não se diga que ele não sabe volear. Sabe, sim, mas sucede que, no cimento, muito mais importante do que o voleio é o golpe que precede o voleio. O voleio é mera consequência de uma aproximação conscientemente executada. E, nesse fundamento, Guga ainda tem muito que aprender.
Cedric Pioline mostrou, claramente, porque venceu. Ele maneja bem as bolas ideais do piso rápido. Pioline acuou Guga, subindo à rede, sistematicamente. No chão de cimento, vai ganhar, sempre, quem for mais ousado. Depois de perder o primeiro set, Pioline tratou de mudar a tática. Preparava o ataque, chegava à rede e, de lá, comandava o jogo, fechando os ângulos ao contra-ataque de Guga.
Guga só não saiu mais cedo porque tem um primeiro saque poderoso. Arma que o faria vencedor do primeiro set e o manteria vivo, até o fim do terceiro ‘‘tie break’’. A partida teve um ‘‘tie break’’ emocionante: 16 a 14. Enfim, o escore dirá melhor o que foi essa epopéia de mais de três horas de quadra – Guga: 6/4; Pioline: 7/6, 7/6, 7/6.
Rápidas e rasteiras
- O vôlei feminino do Flamengo acerta duas cortadas mortais: contratou Leila, atacando de esquerda e Virna, atacando de direita. A tacada é mais perfeita, ainda, porque as duas jogadoras da seleção são amigas de fé, dentro e fora das quadras. Só há um pequeno porém: Virna torce pelo Flamengo e Leila, pelo Vasco. Mas a consciência profissional de Leila há de levá-la a defender o escudo rubro-negro com redobrado fervor.
- Noite dessas, vi André Agassi derrotar o francês Nicolas Escude, no US Open. O chamado ‘‘Kid de Las Vegas’’ está jogando tênis como jamais jogou. Mentalmente, está fortíssimo; fisicamente, também. Da técnica nem é preciso falar. Agassi é um superdotado.
- Outro fenômeno americano é a bela negra Serena Williams. Ela pulverizou – pulverizou, mesmo – o estilo naturalmente preciso e agressivo de Mônica Seles. Serena tem uma força física espantosa, além de uma técnica impressionante.
- Recebi alguns e-mails, puxando-me as orelhas porque, ao falar da simpatia de Scherer por golfinho, chamei o bichinho de peixe. No tom em que tratei do assunto, no Esporte Real, soaria feio falar mamífero marinho. Enfim, há leitores que não perdoam uma licença poética.

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