Salvação de uma legenda
Não conheço clube grande que não tenha tido, em dado momento, um time ruinzinho de bola. De tirar a paciência de qualquer cristão. Não precisa nem que os onze sejam todos tecnicamente indigentes. Cinco pernas-de-pau, num time mediano, já arruínam uma equipe, vista ela a camisa que vestir. Esse é, precisamente, o caso do atual time do Botafogo. Tem lá um contingente de pernas-de-pau, eu diria, de dimensões apocalípticas. Que fez, então, a direção do clube? Juntou no mesmo saco um bom goleiro, Wagner, um bom atacante, Waldir, um razoável apoiador, Sergio Manoel, e um punhado de jogadores sofríveis. Só podia dar no que deu. Zero de eficiência. ‘‘Duble-zero’’ de consistência mental.
Agora, já não se trata mais de livrar o Botafogo do rebaixamento. Trata-se, sim, de separar o joio do trigo: o joio é o time, o trigo é o clube. No momento em que o time começa a comprometer, seriamente, a dignidade da instituição, a saída honrosa é refazer o time e recomeçar tudo, doa a quem doer.
Do time atual nada mais de bom se pode esperar. A não ser, novas derrotas e, com elas, novos tormentos. A equipe é fraquíssima e, pra agravar o quadro, a auto-estima da rapaziada deve estar abaixo do nível do mar. Então, por que não passar a borracha em cima? A hora é terrível. Ninguém suporta mais ver o calvário alvinegro. O mal-estar não se limita à chamada família botafoguense. Os rivais, que não são inimigos mas apenas adversários, esses também já se constrangem de ver amesquinhar-se em campo uma das maiores legendas do futebol brasileiro.
Repito: derrota não humilha ninguém. O que degrada uma reputação é o cenário em que transcorre o drama botafoguense. São os destemperos de jogadores, de técnicos, de cartolas, de torcedores. É esse apavorante clima de guerra civil que se instalou no coração do povo alvinegro.
O Botafogo de Futebol e Regatas é, hoje, uma estrela destroçada. Só um gesto de grandeza poderá salvá-lo do ocaso sem fim: a renúncia urgente da diretoria e uma radical reformulação da equipe.
Certas mágoas
Há instantes no futebol que têm um alto valor simbólico: o Palmeiras já vencia o clássico de domingo passado com um solene 4 a 0, quando o atacante Paulo Nunes deu um pique de velocista olímpico pra vir tomar a bola do lateral Cesar Prates, quase na área do Palmeiras. Aquele gesto encarnava todo o brio do time do Palmeiras.
O Palmeiras mostrava, assim, que não lhe bastava vencer, era preciso vencer sem ressalvas. Tudo que se viu em campo há de correr por conta de uma rivalidade que acompanhará esses dois clubes até o fim dos tempos. Mas quem quiser pode também se lembrar do último Palmeiras x Corinthians em que o atacante Edilson, com o título ganho, cometeu o mau gosto de tripudiar sobre o vencido. Há episódios que nem o tempo é capaz de digerir, plenamente.
Eu não gostaria de eleger aquele jogo como a fonte primordial do empenho palmeirense. Águas passadas não movem moinho. Mas não há como descartar o peso de certas mágoas. A vitória de domingo, porém, parece ter sido fruto – isso sim – da obstinação de quem sabe que, com o atual time do Corinthians, não se brinca. Vacilou, dançou. Por isso, o time do Palmeiras deu-se de corpo e alma e, como uns bafejos de sorte, venceria a partida, com uma exibição absolutamente soberba.
Ao Corinthians só restou aceitar a supremacia do Palmeiras, jogando com correção e, certamente, sonhando com a forra, na primeira esquina.
Como! Como! Como!
Como joga vôlei o jovem Giba! Como é pífia a arbitragem no futebol brasileiro! Como eu gostaria que não tivessem passado os bons tempos de Pelé e Garrincha! Como engordou o Maradona! Como são ruins os campos da terceira divisão! Como é bonita a Paula Newlands! Como é selvagem o tal carrinho! Como bate forte na bola a negra Serena, que derrotou Martina Hings na final do US Open! Como tem gente de joelho bichado nos esportes de alta competição! Como tem gente se dopando em qualquer esporte que dê dinheiro! Como é chato o repeteco sem fim de jogadas irrelevantes no futebol! Como é sem propósito a Copa Mercosul! Como ficou melhor o vôlei sem a enrolação da vantagem! Como pode o peixe vivo viver fora d’água fria!
Xeque-mate
Nóbrega é louco por xadrez. Abre o tabuleiro numa pequena mesa de botequim, põe-se a jogar com Buck. Buck é um cão pastor de estimação de Nóbrega. Na mesa ao lado, um freguês do bar, tomando um chope, comenta, extasiado: ‘‘Mas que beleza!’’ E acrescenta, olhando pro dono: ‘‘Ele deve ser muito inteligente!’’ Nóbrega, visivelmente, contido, limita-se a dizer: ‘‘Nem tanto, nem tanto; ele acaba de perder duas partidas seguidas pra mim’’.
Bial canta Virna
Pedro Bial não é só um brilhante jornalista. Não é só um ardente poeta. É, também, um ator. Deu prova de seu talento, ao recitar, no programa Esporte Real, um pequeno texto poético que dediquei à jogadora Virna e que abre a entrevista que a diva do vôlei me deu: Virna, clava forte / que alveja o espelho / da quadra - arma branca. / Mão que dardeja / a bola certeira / vergando outras mãos / verticais, belicosas / acima da rede / bem acima do bem e do mal.

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