Na Grande Área (Armando Nogueira)
À beira da lagoa
Andar na Lagoa Rodrigo de Freitas, mesmo em cadência militar (um-dois, um-dois!), é um bom exercício físico e um deleite também. A vista, com o Cristo Redentor lá no alto, chega a dar vontade de parar a caminhada só pra ficar olhando o Corcovado. Mas não é hora de contemplações. É hora, sim, de suar a camisa. Aprendi, mocinho, que o coração do homem está nas pernas.
Quem quiser viver bem, seja do corpo, seja da mente, deve caminhar, pelo menos 45 minutos, três vezes por semana. É o que faço, com rigor espartano. Quando não estou na esteira, estou no calçadão da Lagoa. Mal me permito, sequer, uma meia-trava, pra um alô, quando passo por um conhecido. Vou em frente. Ainda assim, tenho, sempre, os ouvidos apurados. Aqui e ali, vou registrando fragmentos de diálogos entre caminhantes da contramão.
O casal de coroas que acabou de cruzar comigo deixa no ar um fiapo de conversa. Mas botar quem no lugar dele? pergunta a mulher. A resposta me escapa, mas ainda consigo salvar o comentário dela dando o troco! Quem? Cruz credo! Esse, não. Nesse país só tem ladrão. A madame cospe fogo.
E lá vou, subindo a doce ladeirinha da curva do Calombo. Agora, à minha frente, outro casal, igualmente sessentão. A pergunta dele é de quem reconhece na parceira autoridade na questão: Purê de batata tem gordura? A mulher, sentenciosa, balança a cabeça, dizendo que tem, sim e muita. Desapontado, o distinto aperta o passo, quem sabe querendo queimar as culpas do jantar da véspera.
No Corte Catangalo, recolho um resquício de papo, esse das arábias. Realmente, são dois senhores, ambos de bermudas, ambos pra lá dos setenta. Um atento, escutando; o outro, falando pelos cotovelos. Anteno os ouvidos na direção dos dois. Pesco uma frase, mas é o quanto basta pra me deixar em cócegas, de curiosidade: É, amigo diz o coroa acredite, se quiser, mas o fato é que a mesa andou! Me dá vontade de fazer meia-volta pra não perder o fio da meada. Resisto. Toco meu barco, pensando: um cineasta americano pagaria um milhão de dólares por uma história como essa. Uma prosaica mesa, batendo pernas pelo ar.
O melhor, porém, viria mais adiante. Precisamente, perto da Fonte da Saudade, onde costumo fazer a pausa dos alongamentos. À boca de uma grande manilha, onde moram, dois mendigos trocam silêncios. De repente, um deles fala qualquer coisa que não escuto direito. E o outro: Quer saber de uma coisa? Ele tem é inveja da gente. Ele mora num viaduto e lá não tem essa vista bonita que a gente tem aqui.
Fim da caminhada. Passa por mim um moço com um cachorro. Ambos vistosos e ambos de fone, contentes, ouvindo música, de um mini-toca-disco preso na cintura (do rapaz). Devia ser coisa boa. Me lembrei do escritor J.J. Charles. Ele tinha uma gata chamada Petit, que se desmanchava toda quando ouvia um disco de Vivaldi. Um dia, o escritor tirou Vivaldi e pôs o Parabéns pra Você. Petit retirou-se da sala, desapontada.
O lugar do técnico
Luis Felipe Scolari vai mudar de conduta. Não ficará mais à beira do campo, esbravejando o tempo todo. Agora, ele volta a acompanhar seu time, sentadinho no banco de reservas, que é, realmente, o verdadeiro lugar do técnico. Certamente, o fogoso treinador do Palmeiras terá chegado à conclusão de que a encenação não ajuda em nada. Só perturba a equipe, emocionalmente. Ninguém gosta de levar bronca na frente dos outros. Roupa suja se lava é no vestiário.
Está provado, cientificamente, que o jogador não assimila coisa alguma, quando o treinador põe-se a berrar palavras de ordem em pleno fragor da batalha. Mesmo que um ou outro jogador tenha boa memória auditiva, ainda assim, resulta em perda de tempo e de energia qualquer instrução no meio daquela barulheira toda.
Paulo Cesar Carpegiani dirige o time do São Paulo sem um mínimo de teatro. Em pé, ele acompanha a partida, fazendo observações que, mais tarde, no meio-tempo, repassará à equipe, sem sofreguidão, no sossego do vestiário. É assim também que se porta o mineiro Levir Culpi. É natural que, havendo uma situação de gritante falha tática, o treinador aproveite um lateral pra transmitir uma orientação específica. Mas, será, sempre, coisa breve.
Sem contar que a mise-en-cene do técnico, ali, à borda do gramado, acabará vulgarizando a figura do comandante. Claro que não precisa vestir traje a rigor.
A era Emerson
A angústia do tempo conspira contra o cronista. Tenho que fechar a coluna antes do jogo Brasil x Argentina, em Porto Alegre. Contento-me em falar da partida de Buenos Aires. Amargo tema. A Seleção Brasileira não deu pra saída. Vitória, sem sustos, da Argentina. Numa síntese, eu diria que venceu quem exibiu mais talento na faixa inteligente do campo. Redondo e Veron, além de Ortega, engoliram a meia-cancha brasileira. Há quanto tempo não se vê a Seleção Brasileira jogar bem e bonito? Quanto tempo durará a era Emerson? Santo Deus!





