Deus castiga...
Quando Pelé fazia chover no Pacaembu – e era, quase sempre, contra o Corinthians – os próprios jogadores do Santos já entravam em campo pedindo a Deus que a torcida hostilizasse a fera. Sabiam que, espicaçado, Pelé ia jogar com fervor redobrado. Ora, se sem fervor já era um problema, com, então, nem era bom pensar.
– Ah, estão me provocando, é?
Então sai da frente porque, acuado, Pelé costumava acabar com o jogo. E como o time do Corinthians, pra fazer média com a torcida, também se metia a besta em campo, aí mesmo é que o caldo engrossava de vez.
No recente Flamengo x Corinthians, no Pacaembu, o time rubro-negro entrou primeiro. Nada de Corinthians. A torcida, não vendo em campo seus ídolos, resolveu matar o tempo pegando no pé de Romário. Debochava, xingava. O coro infernal da multidão chegava pesado aos ouvidos do craque. Aquilo já não era mais uma simples gozação de torcedor; aquilo ressoava como insulto. Gritavam que Romário já era.
Engana-se quem pensa que jogador não liga pra essas coisas. Que está já calejado. Sucede que a aura de ídolo reveste uma criatura humana, carne e osso, como qualquer mortal. E, se o jogador dissimula, fingindo que não está ouvindo, não quer dizer que esteja imune aos agravos da torcida.
Um dia, Didi, no Fluminense, perdeu a paciência com as ofensas da torcida do Flamengo. Enfurecido, começou a jogar o que sabia e o que ninguém sabia que ele sabia. Nesse dia, lembro-me bem, criei um provérbio que vivo a repetir: ‘‘Deus castiga a quem o craque fustiga’’.
Pois foi o que voltou a ocorrer no Pacaembu, agora com Romário. Quem assistiu ao jogo viu com que empenho ele jogou a partida. Deu passes magistrais, fez corta-luz, clarão de inteligência medular, marcou dois gols de enciclopédia. Havia resplendor e suor, tanto no chute quanto na cabeçada. Cada gol encerrando um instante de sublimação na arte de jogar futebol.
Na cabine da Globo, Casagrande, velha raposa do futebol, pisava e repisava na mesma tecla: ‘‘Viu, eu bem que avisei (e avisou mesmo!): foram provocar o baixinho. Tinha que dar no que deu’’.
Parreira, em gotas
De um papo proveitoso que tive, há dias, com Carlos Alberto Parreira: 1) ele está sendo tentado por um clube espanhol e por outro, no Oriente Médio – ‘‘Agradeci, mas até o fim do ano, vou me dedicar ao Fluminense.’’; 2) ele está convencido de que só agora o Fluminense vai começar a colher, em campo, os frutos do trabalho insano que foi refazer a infra-estrutura do futebol tricolor; 3) acredita que o lugar de grifes históricas como Fluminense e Bahia é mesmo na 1ª divisão; 4) considera que uma liga nacional seria a salvação, não apenas de um ou dois clubes, mas do próprio futebol brasileiro; 5) como colaborador da FIFA, espera, ardentemente, uma nova regra que limite o número de faltas, por jogador: cinco faltas eliminariam o jogador da partida, tal como no basquete; 6) acha que o time do Fluminense perdeu na estréia da 3ª divisão porque todos, inclusive ele, Parreira, como que foram de ‘‘smoking’’ a uma festa de nudistas. A barra, na terceirona é pesadíssima; 7) ele não se arrepende do estilo de jogo da seleção, no mundial de 94 – ‘‘Foi a primeira vez, depois do mundial de 70, que o Brasil se organizou, em campo, pra retomar a bola do adversário’’; 8) sente que a torcida do Fluminense o tem poupado, na hora de hostilizar a equipe e a própria diretoria – ‘‘Mas, não me iludo: qualquer dia, pode sobrar pra mim.’’
Rápidas e rasteiras
- Em nota recente, enchi a bola do colombiano Rincon. Pela categoria técnica, pela visão de jogo, pela elegância com que joga. Pois na partida em que o Corinthians perdeu do Flamengo, Rincon negou tudo que eu vinha dizendo sobre ele: errou na cadência de jogo, errou passes, errou dribles, não orquestrou a equipe. Pra culminar, cometeu um gesto estúpido, acertando uma cotovelada no nariz do atacante rubro-negro Leandro. Uma noite de escuridões na carreira de Rincon.
- Leila vai jogar no Flamengo. Assim, eu acabo torcendo pelo Flamengo, nem que seja só no vôlei.
- O atacante Palermo, o tal que perdeu uma penca de pênaltis na Copa América, está fora da seleção argentina. Pelo menos, até que esteja curado do trauma vivido pelo jogador. No Boca, Palermo é semideus. Semana retrasada, saiu na capa do ‘‘El Gráfico’’, depois de ter feito três gols, dizem, fantásticos.
- Quem tem saudades do tempo em que o vôlei entremeava os pontos com a tal da vantagem? Era uma chatice: nem atava, nem desatava. Enchia o saco de todo mundo. O vôlei estava perdendo substância, como espetáculo de televisão. Tanto que estou sabendo que, com o fim da vantagem, triplicou a audiência do vôlei, na tevê.
- A CBF está querendo restabelecer a norma do terceiro cartão amarelo. Ainda assim, não é por aí que se resolverá o problema. Só o limite de faltas salvará o futebol do flagelo do anti-jogo.
- Encontro Waldir de Moraes, um dos homens que introduziram no futebol brasileiro o treinamento específico de goleiros. E foi por aí que começou a redenção do goleiro no Brasil. E mais: Waldir de Moraes me confessa que o seu grande ídolo, na posição, foi Barbosa, do Vasco e da seleção brasileira. Dele e meu também.

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