Na Grande Área (Armando Nogueira)
A chance do esporte
O governo federal já tem uma posição firmada sobre a ajuda ao esporte: incentivos fiscais só mesmo pras equipes e, mesmo assim, durante competições do calendário oficial, seja doméstico, seja internacional. A ajuda só pode ser eventual, episódica. Por exemplo: se o Brasil vai ao mundial de iatismo, a empresa que resolver bancar a equipe poderá descontar do imposto de renda o tanto que investiu na participação brasileira.
O que está fora do projeto em estudos no Ministério do Esporte é patrocínio individual de atleta. O governo não quer dar força a um tipo de apoio financeiro que acabará inflacionando os ganhos de uma elite que já vive nadando em dinheiro, seja qual for a modalidade esportiva: do futebol à natação, do vôlei ao futebol de salão.
A idéia em discussão no Ministério do Esporte, segundo ouvi do professor Manoel Tubino, presidente do INDESP, é a lei de incentivos contemplar também programas de formação de atletas, assim como apoio empresarial a projetos de caráter cultural, como seminários de ciência do esporte e criação de museus e projetos de documentação em livros, vídeos e filmes.
O esporte olímpico está justamente ansioso por uma lei que lhe dê o mesmo tratamento dado à cultura pela Lei Rouanet.
Teste de memória
O futebol deve à televisão muita coisa boa. Em compensação, a tevê nos trouxe dois momentos de permanente mal-estar: o primeiro é o jogo-de-cena do autor de um gol, a correr pelo campo, na direção de nada, senão da câmera, espelho no qual ele se sente contemplado pela multidão. O falso herói, com a maior cara-de-pau, livra-se, do abraço do colega, até com safanões, pra poder saborear sozinho, como se aquele fruto não fosse obra do esforço de outros dez membros da equipe.
Outro mal-estar é a comédia do técnico, à beira do campo. Como a FIFA recusa-se a usar o seu poder pra aperfeiçoar o espetáculo do futebol, usa-o pra empobrecê-lo moralmente, ao permitir que o treinador plante-se na borda do campo como um espantalho. É o que digo, sem a menor intenção de desmerecer os treinadores raros, infelizmente que usam a prerrogativa pra tentar ler melhor a dinâmica do jogo.
Queixo-me, sim, da maioria, que está ali, a meu ver, por mero exibicionismo. O cara berra, gesticula, vocifera, intimida, faz um tremendo teatro. Menos pelo jogo e mais pra ser visto por quem vê o jogo. Pra mostrar serviço e valorizar seu peixe.
Todo mundo está cansado de saber que o jogador não consegue ouvir o que grita o técnico, à beira do campo. E se ouvir, não vai entender. Em jogo de multidão, então, a barulheira infernal não deixa que chegue aos ouvidos do jogador qualquer orientação.
Estou lendo um livro chamado Longevidade do Cérebro, de Dharma Singh Khalsa e Cameron Stauth. Nele, há um capítulo que enquadra, perfeitamente, a situação acima descrita, à luz dos segredos do cérebro. Os autores contam a seguinte experiência vivida pelo técnico Tex Winter, na equipe de basquete do Chicago Bulls. O treinador constatou que alguns jogadores só eram capazes de assimilar instruções por meios visuais; outros eram ruins de memória visual, mas muito bons de memória auditiva; e, por fim, havia um terceiro grupo que só aprendia executando ele, repetidamente, a jogada. Era a turma da memória cinestésica, a memória do movimento, do gesto.
Só um jogador era absoluto nos três estilos de memória. Nota dez pra quem falou: Michael Jordan.
É o caso de perguntar: será que o jogador brasileiro é tão bom de memória auditiva, a ponto de reter uma ordem dada aos berros, no meio de um pega-pra-capar que é o futebol de nossos dias?
O pior time do mundo
O moço me diz que está na maior fossa. Me conta, em carta, que o Íbis não é mais o pior time do mundo. Acaba de fazer uma promissora campanha, na segunda divisão do Campeonato Pernambucano. Saiu vice-campeão e, ano que vem, já estará figurando na elite do futebol pernambucano.
O Íbis escreve Jair Rodrigues de Freitas é mais conhecido no mundo do que muito clube grande brasileiro. E é distinguido justamente por ter sido eleito, ao longo dos tempos, como o pior time do mundo. Era um perdedor inveterado. Um admirável perdedor. Tem até torcida organizada, em Portugal.
Agora, lastima o leitor, o Íbis já não é mais o pior; é apenas mais um, entre tantos outros. Perdeu a graça. -
A carta do leitor até que dá pra filosofar: perder demais faz bem à alma humana? Ganhar sempre endurece o coração? A derrota perene encerraria uma lição de humildade? Será que o insucesso contumaz purifica? Torcer pelo fracasso é torcer contra ou a favor de alguém, de alguma coisa? Quem sabe Sucesso e Fracasso não desembocam no mesmo leito de sonhos que banha a vida do homem? Ou, deixando de lado a filosofia, não seria o caro leitor um refinado sádico, eis que torce mesmo é pelo Sport? Será que ele seria capaz de sobreviver se, um dia, de tanto perder, o time do seu coração fosse proclamado o pior time do mundo?
Meu bom Jair, ironia é uma forma de insulto, que Deus não perdoa!





