Na Grande Área (Armando Nogueira)
Eles estão de volta
O Campeonato Brasileiro ainda não esquentou, mas já dá pra notar uma coisa um tanto chocante: não é que está voltando à cena do futebol a figura rebarbativa do cabeça-de-área? Ninguém nasce cabeça-de-área, embora o dito esteja bem mais pra cabeça-de-bagre do que pra craque mesmo. Ser ou não ser cabeça-de-área é questão muito mais do treinador que do jogador. Cada um ganha a vida como Deus é servido. Mas, é claro, não precisava exagerar no barbarismo das faltas.
Domingo passado, Vasco da Gama e Botafogo puseram em campo nada menos de seis, sete, sei lá. Foi o que bastou pro jogo ficar pesado, chato. O cabeça-de-área é um desmancha-prazer. O cara estraga qualquer festa. Destila um mau-humor que acaba contagiando o resto da equipe. A fera dá o tom, rosnando, e todos logo mergulham na maré do anti-jogo. Todo mundo erra passe, todo mundo dá bico pro ar, todo mundo solta o sarrafo. Vasco x Botafogo registrou 65 faltas umas quantas, claramente, malévolas.
Em tempo: na partida Coritiba x Cruzeiro, foram 85 faltas. Como o jogo teve 40 minutos de bola em ação, é só fazer a conta do que sobrou de futebol, de espetáculo em Curitiba. É o fim do mundo. A arbitragem, essa, ora essa! O árbitro é o próprio burocrata do Apocalipse.
Logo que Zagallo assumiu a seleção, há perto de quatro anos, eu advertia, lembro-me bem, na mesa do Apito Final: Zagallo vai ter que arrancar os cabelos pra encontrar dois zagueiros de categoria. Discordaram de mim. Zagueiro não era problema. O futebol brasileiro estava bem servido, diziam, citando dois nomes como exemplo: Cléber e Junior Baiano. O tempo haveria de provar que eu estava coberto de razão. O drama perdura até hoje. A seleção não tem zagueiro de fé.
Na época, eu já tinha até o diagnóstico: a escassez de zagueiros de classe estava intimamente relacionada à figura do cabeça-de-área. Sim senhor! Grassava, então, no futebol brasileiro, a praga do defensivismo, cujo postulado era: Defender, sempre, atacar jamais, contra-atacar, se possível.
Em nome de tamanha aberração, os técnicos superlotavam a frente dos zagueiros com falanges de gladiadores mal-encarados. A palavra de ordem era matar a jogada, a qualquer preço, antes que a bola chegasse à meia-lua. Resultado: os beques centrais passaram a viver dos restos mortais das bolas que sobravam da carnificina dos mata-mouros à entrada da área. Claro que, superprotegidos, os zagueiros acabariam sem dominar o chamado tempo da bola, além de não ter chance de exercitar o combate direto. Sem contar que, àquela altura, nem modelos havia, pois os mestres da posição estavam todos se aposentando. Um deles, Elias Figueirôa, estupendo zagueiro do Internacional, acaba de definir o grande segredo do beque de área: O bom zagueiro é aquele que induz o atacante a fazer o que ele, zagueiro, quer e não o que pretende o atacante. Perfeito.
Hoje, o zagueiro mal consegue se esconder à sombra do cabeça-de-área, sombra que se estende por todo o campo como a própria negação do futebol.
Rápidas e rasteiras
- Vanessa Menga não tem boa impressão de Martina Hingis, como criatura. Vanessa, campeã pan-americana de tênis, abriu o coração, num papo reservado com um jornalista, na festa que a Bovespa fez pra homenagear a tenista brasileira. O público francês hostiliza a Hingis porque ela é muito arrogante e menospreza as colegas de circuito.
- Craque é craque: no jogo Vasco 2 x Botafogo 1, Juninho iluminou as trevas da partida com duas centelhas de inteligência. Que talento admirável pra jogar futebol: dois passes magistrais, dois gols do Vasco.
- O tênis feminino vai ter que penar até que surja outra jogadora do esplendor técnico de Steffi Graf. Tive a sorte de vê-la conquistar um Roland Garros, em 88, derrotando na final a russa Zvereva que, então, despontava também. Graf, um fiapo de menina, cravou 6-0/6-0, em 32 minutos de jogo. Um fenômeno.
- Coaracy Nunes é capa da Veja Rio. A revista apresenta-o como o campeão das piscinas. Nada mais verdadeiro. Coaracy é o tipo do cartola (raro) que faz do esporte um apostolado. Exatamente por isso é tão estimado pelos nadadores brasileiros, dos mais ilustres aos mais anônimos.
- A Internet é um trunfo tentador que nos aproxima dos leitores. Recebo e-mail de gente que, como eu, gosta de esportes. Não deixo de responder a ninguém. Principalmente, aos que discordam das minhas idéias. Dou satisfação até mesmo aos que cospem fogo. Mas há alguns que passam dos limites. A esses, não vou dar mais a mínima bola. Quero mais é que se danem.
- Vejo, no GNT, uma entrevista de Oscar de La Hoya, campeão mundial de boxe, categoria peso-médio. O rapaz é o doce-de-côco do público feminino. Recente pesquisa revela que 60% das pessoas, em qualquer luta dele, são garotas. Diz ele que já perdeu a conta das calcinhas e sutiãs que autografou. De la Hoya é boa pinta. Em 98, foi o atleta que mais faturou: precisamente 96 milhões de dólares. Com semelhante ficha, continuar solteiro, só mesmo sendo muito bom de esquiva.
- O novo CD de Guinga é de emocionar. Guinga, além de excelente compositor e violonista, é um peladeiro do mais alto coturno e vascaíno tão doente quanto Aldir Blanc e Sergio Cabral.





