Na Grande Área (Armando Nogueira)
Os reis da falta
Outro dia, numa conversa profissional, fiz a seguinte pergunta a Wanderley Luxemburgo: por que será que o volante Émerson, titular da seleção, comete tanta falta? O técnico me deu uma explicação que, sinceramente, não me convence: Émerson estaria mal acostumado pelo futebol alemão que é, sempre, de muito corpo-a-corpo.
O futebol europeu é menos técnico que o sul-americano, sim, mas não me consta que seja tão faltoso quanto o nosso. O jogador brasileiro é, longe, o que mais comete faltas. Chega a ser, mesmo, o mais violento. Haja vista a lista de gente expulsa, por jogo pesado, ao longo de qualquer torneio ou campeonato doméstico. Deve ser recorde mundial. Não deixa de causar estranheza. Que seja assim. Afinal, o mais bem dotado, tecnicamente, costuma ser vítima e não agente de tanta infração à regra do jogo.
Sucede que o futebol mudou. Infelizmente, no Brasil, mudou pra pior. O elemento força física obriga até mesmo o artista a ser, também, um gladiador pra não sucumbir ao corpo-a-corpo, que é cada vez mais encarniçado. Quem não estiver bem adestrado vai levar a pior na disputa da bola. Pra não sair perdendo, o jogador, então, apela pra falta. É aquela história: quem não sabe tirar a bola do adversário acaba tirando o adversário da bola.
Foi-se o tempo em que o futebol brasileiro esbanjava craques no ofício de desarmar o adversário. Quem não se lembra de Luis Pereira, de Elias Figueirôa, de Nilton e Djalma Santos? Todos eles, grandes estilistas. Desarmavam os atacantes e saiam jogando, elegantemente. Nos dias de hoje, podemos citar o vascaíno Mauro Galvão.
Durante anos, defendo uma regra pra limitar o número de faltas. Seria, talvez, um bom caminho pra inibir o excesso de infrações. Confesso, porém, que começo a perder a esperança. Dificilmente, a International Board vai modificar a regra XII, que trata de faltas e incorreções. E sabem por que? Simplesmente porque a taxa de faltas, no mundo inteiro, é tolerável. Fica, ali, entre 20 e 30. Na Europa, que é o principal laboratório da FIFA, a média não vai além disso. No campeonato inglês, jogado nas barbas (brancas) dos coroas da I.B., nem chega a tanto. Há partidas severamente disputadas, cujo índice não chega nem a vinte faltas, no total das duas equipes. Convenhamos que não dá pra estragar o espetáculo.
No Brasil é que a coisa engrossa. A média, em qualquer campeonato, passa de 60 faltas. Estarei exagerando? Pois então, fiquemos em 50. Aqui, é comum, no final de uma partida, o computador acusar um fenômeno espantoso: a bola fica mais tempo parada que rolando. Pra quem joga a bola exímia que joga o brasileiro, chega a ser um despropósito.
A volta por cima
Ronaldinho é matéria de capa na revista inglesa World Soccer, com uma entrevista em que fala de futebol e de amenidades. Diz, em dado momento, que 99 é o ano da volta por cima; que vai voltar a ser o número um do mundo. Menos mal que o próprio Ronaldinho reconhece que, ultimamente, ele não tem sido o dono absoluto da bola. Sinal de que discorda da mídia nacional cuja maioria continua a celebrá-lo como o maior jogador do planeta.
Resta saber é se Ronaldinho pretende, mesmo, voltar a ser um profissional de futebol, como era, quando apareceu - e por isso apareceu, arrasando. Pois há dois anos, ele se dedica muito mais ao rendoso papel de garoto-propaganda do que ao ofício de jogar bola. E foi assim que acabou perdendo a forma física e principalmente a condição psicológica, sem a qual o craque perde a motivação.
Agora, Ronaldinho tem duas pedreiras a desafiá-lo: uma está fora de campo. Ele tem que dar uma meia-trava na agenda promocional que a cupidez dos agentes organiza pra ele. A outra está dentro de campo. O Inter acaba de contratar o artilheiro Vieri, numa transação que escandalizou até o Vaticano: Vieri custou 51 milhões de dólares, cifra que o Papa considerou uma afronta aos miseráveis e aos pobres deste mundo.
Em matéria de talento, Vieri não chega aos pés de Ronaldinho. Mas é um obstinado: só pensa em fazer gol. De tal ambição já deu provas, por onde passou. Em dez anos, trocou de clube dez vezes. Um por ano. Christian Vieri foi campeão da Itália no Juventus, depois artilheiro do campeonato espanhol no Atlético de Madrid, depois maior artilheiro da Liga italiana no Lazio.
Em quatro anos, o salário de Vieri foi multiplicado por 18, sendo que, no Inter, vai ganhar, na temporada 99-2000, seis milhões de dólares.
Se Ronaldinho continuar a sair pelo mundo, vendendo relógio, será fatalmente engolido por Vieri, colega no Inter e na grife Nike, também.
O exemplo do Barça
O estado-maior do Corinthians considera que faz um bom negócio, entregando a gestão do seu futebol a uma empresa estrangeira, ficando o clube com 15 por cento dos ganhos: bilheteria, direitos de tv, placas, merchandising de produtos com o escudo corintiano. Será que é uma boa?
Pois ouça essa historinha: o Barcelona acaba de recusar 15 milhões de dólares, por ano, pra deixar grudar na camisa do clube o nome de um artigo comercial. Eu disse: 15 milhões de dólares, por ano! Pra ser mais transparente, a diretoria do Barcelona decidiu ouvir os seus 103 mil sócios. Perguntou se alguém gostaria de ver um anúncio ao lado do escudo no uniforme da equipe. Noventa e oito por cento votaram contra.
Se um dia o Barcelona decidir se transformar em sociedade anônima, a conta já está feita: não será por menos de cinco bilhões de dólares. Ou seja: cinco vezes o que Rupert Murdoch ofereceu recentemente pelo Manchester United.





