O Pan e o mercado
O Brasil sai campeão panamericano de handebol feminino - e nós, jornalistas esportivos, ficamos de queixo caído, sem saber coisa alguma sobre as nossas heroínas. Quem é Chicória, com seus braços indomáveis de 27 gols? O Brasil é também campeão panamericano de ginástica rítmica - e nós, jornalistas esportivos, com cara de marido enganado, somos os últimos a saber de quem se trata. Quem são essas belas atletas que com tanta graça, lirismo e rigor técnico, dão a um esporte olímpico culminâncias de arte?
Vivemos a noticiar, aos quatro ventos, os amores e os humores de Ronaldinho. Se, um dia, Rivaldo for internado com uma unha do pé encravada, haveremos de fazer logo um mutirão excitado e vigilante, no pátio do hospital, vivendo uma paródia da sinistra aventura de Kirk Douglas, na ‘‘Montanha dos Sete Abutres’’.
Alguém dirá que, daqui pra frente, a coisa vai ser diferente. Tomara, mas duvido. Somos reféns de uma paixão antolhada. O futebol fez um pacto com o dinheiro grosso e, dificilmente, sobrará tempo pra mostrar, na tevê, ainda que por estímulo, modalidades como ginástica olímpica ou canoagem. Felizmente, o futebol brasileiro não estava lá em Winnipeg. Só assim nós pudemos ver cenas empolgantes de tantos esportes até então por nós ignorados.
Quando leio que o Corinthians vai virar Corinthians Licenciamentos, aí mesmo é que tremo nas bases. O dono da bola, o americano Tom Hicks, já deu o mote: o negócio é ganhar dinheiro. A Hicks Muse é uma poderosa empresa que administra fundos de pensão. Em poucas palavras: aplica o rico dinheirinho das velhinhas americanas. À luz do neo-capitalismo, se a aventura do futebol não der certo, as velhinhas de Ohio e adjacências vão chiar e o Tom Hicks terá que trocar o Corinthians por uma fábrica de pregos.
Sempre defendi a profissionalização do futebol brasileiro. O que ocorre, por aqui, há meio século, é uma baita pantomima, à sombra da qual se regalam tantos cartolas inescrupulosos. Tínhamos que nos salvar do capitalismo anárquico, sim, mas não precisava exagerar. Não estarão os clubes abrindo de sua soberania, em obscuras transações com o capital desnaturado?
Os clubes necessitam de parceiros, que entrem com o vil metal, mas será que vai ser preciso vender a alma ao diabo? Pelo visto, estamos caindo nas mãos do que os filósofos chamam o capitalismo tardio, que tem como característica primordial um solene desprezo pelos valores do coração. E não é justamente aí, no coração, que nasce, cresce e se fortalece o sentimento clubístico?
Tenho medo que pélo de que o futebol pode deixar de ser um fim pra ser um meio. E que a torcida, alma do jogo, possa acabar reduzida à mera condição de mercado.
Que é assustador é.
Nome sobre nome
Assunto rendoso é falar de apelidos no futebol. De repente, fico sabendo que Sicupira é sobrenome; que o jogador Capitão se chama Oleúde e que seu filho é Oleúde Júnior. Agora, me chega um lance ainda mais extravagante, contado pelo leitor Augusto Licks. É o caso de um cidadão inglês, de Londres, que, apaixonado pela seleção brasileira de 70, batizou o filho com todos os nomes da equipe. A mãe, quando soube, ficou revoltada com a maluquice do marido, pediu divórcio e conseguiu na justiça anular o registro.
Já pensou, o filhinho dela, se apresentando a um novo conhecido: ‘‘Muito prazer: eu me chamo Felix Carlos Alberto Brito Piazza Everaldo Clodoaldo Gerson Jairzinho Pelé Tostão Rivelino - às suas ordens’’.
Rápidas e rasteiras
- É uma triste tradição: clube de futebol, no Brasil, sempre ignorou as outras modalidades. Daí, o mérito de Vasco da Gama e Flamengo, que acabam de dar ao Brasil uma coleção de medalhas, ouro, prata, bronze, como jamais se viu na história dos Jogos Panamericanos.
- Phil Heagler, meu colega de ultraleve, acertou na mosca: ele tinha me dito que o Brasil ia se dar muito bem, no mundial de vôo livre, na Itália. Não deu outra: Pedro Matos, Luiz Niemeyer, Gustavo Saldanha, Carlos Niemeyer, Carlos Alberto Schmitz e André Wolf saíram campeões mundiais por equipe. Gente fina essa da Asa Delta.
- Impressionante esse Fernando Scherer, ganhador de quatro medalhas de ouro em Winnipeg. Scherer é o que se pode chamar a alegria das águas.
- Vi, domingo passado, a decisão da Liga de Futsal. Havia mais público no Mineirinho do que em qualquer jogo do campeonato brasileiro: 25 mil pessoas. O time do Atlético Pax de Minas, com o incomparável Manoel Tobias, derrotou o Rio de Janeiro do não menos talentoso Vander Carioca. O futebol-de-salão, com regras semelhantes às do basquete, tornou-se um esporte realmente empolgante. Imagino a felicidade do Tacão, o maior entusiasta do futsal no Brasil.
- Fazer filmes de ficção sobre futebol é desafio que o cinema não gosta de enfrentar. Pois acabo de ver um curta-metragem, que conta, de modo singelo, a história de um menino chamado Dico. Dico era apelido de Pelé, quando criança. O filme arrancou lágrimas à pequena platéia de colegas que reuni, em casa, pra ver o curta de Paulo Macline. Uma beleza.
- A Federação Espanhola de Futebol vendeu por um bilhão e meio de pesetas, mais ou menos dez milhões de dólares, os direitos de imagem dos árbitros espanhóis, por cinco anos. A partir de agora, as empresas poderão exibir suas logomarcas no uniforme dos árbitros.

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