Show de equívocos
A seleção que apanhou do México não engana ninguém. Está cheia de jogadores apenas razoáveis; alguns, nem isso. Mas o México, por sua vez, também não é tão bom como pareceu. Pra mim, um dos fatores decisivos do massacre mexicano só pode ter sido a altitude. Uma equipe como a nossa, que já não é lá essas coisas, ainda ter que superar a rarefação do ar de uma cidade a 2.000 metros de altitude, positivamente não é fácil. Por isso, acho que houve imprevidência da comissão técnica.
A zaga Odvan-João Carlos, ao nível do mar, já é a própria hecatombe. Juro a vocês que não me lembro de ter visto dois zagueiros de seleção cansar de bater cabeça, num desengonço de matar de rir (ou de chorar).
Admiro o trabalho de Wanderley Luxemburgo, que tanto no Corinthians quanto no Palmeiras formou e consagrou equipes esplêndidas. Como explicar, então, que o técnico da seleção tenha cometido o equívoco de inventar Flávio Conceição como lateral? Será que só ele não se deu conta de que o rapaz é um medíocre, que pensa lentamente e mais lentamente ainda executa o papel de volante?
Os apoiadores, tanto Vampeta quanto Émerson, jogaram sem um pingo de clarividência. Notadamente Vampeta, que sabe ler o jogo com clareza. Ambos, que sempre atuam com respeitável constância, dessa vez abriram o bico, cedo. Outro vacilo foi fazer de Beto uma peça de criação. Não é certo superestimar um jogador que não é mais que banal. Beto é carregador de piano, incapaz de surpreender o adversário com um golpe de astúcia. Ele pertence à categoria dos jogadores que não sabem ler o jogo; quando muito, soletram.
Infeliz, também, é ter querido fazer de Alex um finalizador. Alex é um especialista na arte de tocar a bola, fazer lançamentos, vindo de trás.
O rei está nu
A equipe do México encheu as medidas. Fez gato e sapato da seleção. No primeiro minuto, já era melhor. No derradeiro, também. Ignorou o cartão de visitas do adversário. Solenemente. Esbanjou coração, força mental e técnica. Depois de fazer dois a zero e de já ter sido garfado num gol legítimo, o time anfitrião pôs o gigante na roda. Um jogador de nome Blanco, sozinho, deu-se ao luxo de brincar de gato e rato com a defesa brasileira toda. Em dado momento, ele pegou a bola e, com meia-dúzia de lances espetaculares, como que anunciou à multidão do Azteca: ‘‘Muchachos, o rei está nu!’’ E estava mesmo.
Não me lembro de ter visto uma seleção do Brasil ser tão facilmente engolida por um adversário de terceiro escalão.
Felizmente, na mesma época da hecatombe da seleção, o Brasil viveu noites felizes, com Fernando Scherer, Gustavo Borges, Leonardo Costa e Luiz Lima; com o Quirino, com a gata Maurren Maggi, com a turma da Virna, com a Shelda, com o Scheid.
Amigo, o Pan-americano nos mostrou que, fora do futebol, a vida é risonha e franca.
Rápidas e rasteiras
- Sei que o Brasil não vai perder nada, mas, se um dia Wanderley Luxemburgo voltar a escalar na seleção a dupla Odvan-João Carlos, por favor, me avisem, a tempo, que quero pedir asilo na Embaixada do Sossego.
- O técnico Mauro Fernandes, do Botafogo, não se sente constrangido com as duas goleadas (10 gols em dois jogos) sofridas pelo time do Botafogo. Vê-se que o rapaz está preparado pra novas rebordosas. É um masoquista almofadinha.
- A gata Maurren Maggi, ouro no salto em distância e prata nos 100 com barreiras, está nas nuvens. Foi visitar o colégio no qual sua mãe é professora, em São Carlos, e lá deu de cara com a glória intacta: a meninada abandonou as salas de aula e fez fila de autógrafos diante da atleta. Se vocês ligarem, amanhã, no SporTV, verão, no Esporte Real, que graça de criatura é Maurren. Ela me deu uma entrevista que arrancou palmas do estúdio da Globosat.
- Vamos deixar de panos quentes com a seleção: o que aconteceu no Azteca, quarta-feira, não foi uma partida de futebol; foi, sim, um naufrágio.
- Pretinha, estrela do futebol feminino, está no Sports Illustrated, sem dúvida a mais famosa revista esportiva dos Estados Unidos. Na entrevista, Pretinha confessa que ganha seis mil reais por mês, no Vasco da Gama. Deve ser o que Edmundo abiscoita por dia.
- A CBF, por politicagem, não deixou que a comissão técnica escalasse, no México, a turma de menos de 23 anos. Seria o estágio de formação da equipe pré-olímpica. Ricardo Teixeira queria agradar Blatter, de olho na candidatura brasileira a sede do mundial de 2006. Deu com os burros n‘água.
- O que é que o México tem que ninguém tem? Pra um país que nunca foi potência esportiva e que tem uma geografia absolutamente desfavorável, 2 mil metros de altura, não é pouca bobagem já ter feito, lá, uma Olimpíada (68), dois mundiais (70 e 86) e uma Copa das Confederações.
- Um torcedor me encosta à parede, achando que eu só não elogio Ronaldinho Gaúcho porque o craque é jogador do Grêmio. Acha o distinto que eu não gosto do Grêmio. Eu imagino de onde pode ter saído semelhante delírio: o torcedor ouviu um dia, há anos, Luiz Felipe Scolari me acusar de ter má vontade com o Grêmio. Francamente, às vezes, eu desconfio que a vida seja mesmo um intenso tecido de equívocos e confusões.

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