Na Grande Área (Armando Nogueira)
Campeãs da coragem
O esporte é uma das mais ricas manifestações de vida que eu conheço. Contém todas as virtudes e todos os pecados da criatura humana, dos mais sublimes aos mais subalternos. A coragem é, entre os melhores dons, o que mais se deve celebrar no esporte. É dela que nasce o herói.
Dito isto, aqui estou pra louvar a bravura das moças do vôlei, no Pan-Americano. Heroínas todas, elas derrotaram a poderosa equipe de Cuba, dando uma demonstração de fina técnica, de impecável rigor tático e, sobretudo, de fair play, o que não é nada fácil, quando o vôlei brasileiro enfrenta o vôlei cubano.
A verdade é que a hegemonia da escola cubana acabaria azedando a rivalidade entre as jogadoras de lá e de cá. Pois agora, em Winnipeg, a nova geração brasileira portou-se de modo soberbo. Tanto na primeira vitória, da classificação, quanto na finalíssima. E o que mais empolga é ter visto em quadra um punhado de calouras, defendendo, passando, levantando, cortando com o elã de grandes damas do vôlei. De Elisângela a Janina, de Érica a Carol, de Waleswska a Raquel, é tudo cara nova, talento puro lapidado com esmero por um ourives chamado Bernardinho.
Gostei de ver despontar, na final, uma liderança de quadra que a seleção perdera, fosse com a retirada de Fernanda Venturini, fosse com a licença de Ana Flávia e de Ana Moser. Falo de Virna, que começa a simbolizar as três: soberba na arte de cortar e no desassombro de guerreira.
No momento mais dramático do jogo, no quarto set, de repente Virna começou a incendiar a equipe, encarnando na quadra o próprio Bernardinho. Possessa de entusiasmo, Virna apelou até pros benditos palavrões, decidida a não deixar que a equipe perdesse a pulsação da vitória.
A seleção feminina de vôlei é um belo exemplo de renovação nos esportes coletivos do Brasil. Em três anos, remoçou dez, que é, mais ou menos, o tempo de uma geração; e já parece madura, em plena adolescência da lourinha Érika.
A decisão com a excepcional equipe de Cuba começou e terminou num suspense de destroçar os nervos de qualquer mortal. As meninas, porém, não perderam a cabeça, em nenhum momento. Foram impecáveis. Soberbas. Corajosas. Irresistíveis.
Lágrimas de gratidão às heroínas do vôlei brasileiro.
Uma mera aventura
A seleção brasileira joga com o México, hoje. Vai decidir a Copa das Confederações. Aqui pra nós, pode haver torneio mais chinfrim que esse, em má hora, inventado pela FIFA? Em nome de que um futebol de luxo como o nosso mete-se numa aventura com a Arábia Saudita, a Nova Zelândia, o Egito et caterva?
E os ossos do ofício ainda nos levam a falar de uma partida em que uma equipe dá de oito a dois na outra, em plena semifinal. Positivamente, meu pobre latim não me autoriza a ir além de um breve confete em dois lances do jogo de domingo: o toque de Ronaldinho Gaúcho, encobrindo o goleiro saudita; e outro toque, também mágico, quase imperceptível de Alex, ultrapassando o goleiro pra fazer um gol de maestria.
No mais, é esperar que o jogo do Brasil, hoje, no Azteca, transcorra sob inspiração - ainda que longínqua - de memorável exibição da seleção na decisão do mundial de 70.
Atlético vai à luta
O Atlético Mineiro resolveu abrir os olhos ao futuro imediato: contratou Bebeto de Freitas e Elena Landau. Vai montar um departamento de futebol modelar - e sai da frente! Chega de viver de migalhas. Um clube com a força popular do Atlético não pode faturar a mixaria de sete mil reais por mês, na venda de sua legendária marca. Pois é exatamente essa a cifra ridícula que os parasitas entregam ao clube pelo merchandising de camisas, flâmulas e chaveiros com o escudo do Atlético.
E saber que o Manchester United ganha, na comercialização de seu escudo, 60 milhões de dólares por ano. Isso mesmo! O departamento de merchandising do Manchester United põe pra dentro do clube, mensalmente, cinco milhões de dólares. Vende tudo - até cuecas e calcinhas com o distintivo do clube.
O Atlético Mineiro está dando um chega-pra-lá nos atravessadores e vai abrir uma rede de lojas, em Minas Gerais, pra vender sua marca. Faz muito bem.
Rápidas e rasteiras
- Findo o jogo Brasil x Cuba, no vôlei masculino, os rivais trocaram o tradicional aperto de mãos, embaixo da rede. Já no feminino, foi zero de fair play. Vencedoras e vencidas nem sequer se entreolharam. Como diz o malandro carioca: Em briga de mulher, não tem suplico.
- Pra quem não entendeu que Leila tivesse jogado tão mal na decisão do Pan: Leila tem uma lesão no ombro e entrou no sacrifício.
- É creatina pra cá, creatina pra lá. No mundo do esporte, só se fala dessa droga como um milagroso complemento alimentar. Pois no entender da Associação Norte-Americana de Treinadores de Natação, mais de 70 por cento das versões vendidas em farmácia contém esteróides, substâncias consideradas dopante.
- Eurico Miranda está voltando de Winnipeg com a idéia fixa de fazer uma super-equipe de vôlei feminino. Virna e Leila, sem contrato, estão na mira do Vasco da Gama.
- Há dias, entrevistei Djalma Santos, em encontro na sala de troféus da Federação Paulista de Futebol. O nosso bicampeão de 58-62, que acaba de fazer 70 anos, está tinindo - um garotão.





