Um furo n’água
Achei sem um pingo de graça, incolor, enervante, a exibição da Seleção Brasileira contra os Estados Unidos. A não ser o goleiro Dida, ninguém mais escapou. Como pode jogar tão mal uma equipe cheia de individualidades tão festejadas?
Mesmo quando passou a ter jogadores de estilo mais artístico, como Alex e Warley, ainda assim, a seleção nacional não emplacou, momento algum. Em matéria de espírito de luta, e mesmo de futebol coletivo, organizado, a equipe de Luxemburgo se deixou engolir pelo adversário.
Vampeta é um jogador de qualidade técnica superior, mas, na seleção, ainda não deu o ar de sua graça. Émerson, pelo amor de Deus, vá ser atabalhoado assim, lá na Floresta Negra! E Flávio Conceição, tenha santa paciência, professor Wanderley.

A Nova Zelândia
Tendo que aprontar a coluna antes do jogo, fico devendo ao leitor qualquer comentário sobre Brasil x Nova Zelândia. De todo modo, não chega a ser uma dívida assim tão expressiva. A Nova Zelândia não existe no atlas do futebol. É um país maravilhoso. Quem já esteve por lá adorou a paisagem, o grau de civilização. Mas a bola deles é rugbi e críquete. A seleção neozelandesa é um apanhado de vários ofícios: tem padeiro, analista de sistema, pastor de ovelhas e pastor de almas. Positivamente, a CBF é das arábias mesmo.

Poesia em movimento
Quem mais emocionou, nesses dias de Pan-Americano, foi a gauchinha Daiane, medalha de prata na ginástica olímpica. O solo dela, principalmente, na prova do cavalo, foi um encantamento só. Aquela princesinha negra, desfilando pelo ar, como que exibia a própria harmonia dos corpos celestes.
Reverencio a pureza de gestos nos movimentos de uma ginasta. Quem não se lembra de Nádia Comaneci, que projetava no ar multidões de seu próprio corpo? Pois Daiane me lembrou muito a ginasta romena.
Na coreografia dessas meninas se revela a ousadia da criatura, na luta que o corpo humano sustenta contra a força da gravidade. O desafio da ginástica é mesmo desafio da dança.
É poesia em movimento.

Rádio Gogó
Recebo uma fita VHS: é uma cópia do curta-metragem Rádio Gogó, realização de uma turma de Salvador, Bahia, a turma da Truque Cine TV Vídeo, roteiro e direção de José Araripe. O filme conta a história de um torcedor, motorista de uma kombi colorida, locutor apaixonado de futebol e pai de uma adolescente que, às sapatilhas de balé, prefere umas boas chuteiras de futebol. Nosso herói é interpretado pelo excelente ator Caco Monteiro, comediante nato, ginga da cabeça aos pés. Caco Monteiro/Gogó faz lembrar personagens de Hugo Carvana, vivendo um tipo malandro de bom coração, brasileiríssimo e infelizmente cada vez mais raro nas telas do cinema, da TV... ou na vida mesmo.

Rápidas e rasteiras
- Pra mim, Sicupira era apelido. Não, é não. É sobrenome, mesmo. Gafe minha. Mais uma. O personagem em questão é o ex-jogador, hoje, comentarista de futebol no Paraná, chamado Sicupira. O prenome dele é Barcímio, herança de família. Tem Barcímio pai, Barcímio filho e Barcímio neto.
- Ainda no reino da antroponímia: quem não conhece o Capitão, ex-Portuguesa de Desportos? Capitão é apelido. O nome dele, nome de batismo, é Oleúde. O filho de Capitão também é Oleúde. Assim, mesmo, começando com O, sem aquela extravagância de letras da meca do cinema e do cigarro. Oleúde, com filtro.
- O Flamengo dá um exemplo de maturidade, reunindo cerca de 600 conselheiros pra debater a proposta de parceira com a ISL. Já o Corinthians, quase na calada da noite, fecha com a Muse um contrato que transfere à multinacional, por uns caraminguás, o maior império popular do futebol brasileiro, depois do Flamengo. Estranho, muito estranho. Saudades da democracia corintiana.
- Chove correio-eletrônico celebrando as jogadas de Ronaldinho Gaúcho, no jogo Brasil, 4 x Alemanha, 0. Em todas as mensagens, a mesma preocupação: será que o paparico da mídia não vai estragar o menino? Realmente, a imprensa, o rádio e a tevê exageram no confete, sempre que surge um novo talento no futebol. A saída é torcer pro anjo-da-guarda do garoto protegê-lo contra a tentação das serpentes que se escondem no jardim da glória e da fortuna.
- Vem de Guadalajara a crença de que o grande adversário do Brasil, na Copa das Confederações, era a Alemanha. Uma vez derrotada, não haverá mais espantalhos no caminho da seleção. Discordo dos catedráticos: difícil, mesmo, é o México, que já deu trabalho à seleção principal e que, agora, joga em casa.
- O zagueiro César e o atacante Christian, finda a Copa das Confederações, pegam um avião e vão pousar em Paris. Mais precisamente, no PSG, por onde passaram, deixando saudades, Raí, Leonardo e Ricardo Gomes. Pois, então, quero dar uma dica a César e Christian: não deixem de procurar o Flávio Carvalho, que é diretor da VARIG na Europa, com sede em Paris. A casa do Flávio é a embaixada informal do Brasil, na França. Tem calor humano, tem feijoada e tem churrasco. Perguntem só ao Raí.

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