Na Grande Área (Armando Nogueira)
O desafogo de Luxemburgo
O Brasil vence a Copa América. Traz pra casa um pomposo troféu que tinha obrigação de conquistar. A diferença da Seleção Brasileira pra outras era, no papel e no campo, a mesma da água pro vinho. Dá até pra dizer que o Brasil abateu os rivais, disparando tiros por majoração. Tiro por majoração, na linguagem militar, é usar armas de grosso calibre pra destruir alvos insignificantes.
Esperar o que de uma Copa América em que o Brasil, com o seu melhor time, pega a Argentina desfalcada e o Uruguai, com uma equipe de garotos sub-23? Basta ver os números da campanha brasileira: fez 17 gols e sofreu apenas dois, em seis partidas. Não esquecer que um dos dois foi sem querer: a bola desviou em João Carlos. Era um doce de coco atrás do outro. E se em certos jogos, a seleção chegou a se afligir um pouquinho era de pura preguiça, ou quem sabe, inapetência mesmo de quem sabe que a presa já está no papo.
E por que o Brasil não usou a Copa América como laboratório pra começar a refazer a seleção? Não foi o que fizeram a Argentina e, sobretudo, o Uruguai? Ora, amigos, vocês sabem tão bem quanto eu que, no Brasil, técnico que começa na seleção, já perdendo um título, não terá vida longa.
Luxemburgo precisava mais desse título do que o próprio futebol brasileiro. Por isso, ele jogou pesado. Pôs o bloco na rua, completinho. Sábado que vem, ele pode iniciar, sem maiores pressões, a colheita da nova safra, da qual já são frutos promissores, Alex, Ronaldinho Gaúcho e Athyrson. Wanderley Luxemburgo sabe que, agora, tem até o direito de perder.
Será que tem, mesmo?
A bola dos campeões
A personalidade do jogador de futebol está estampada na bola do jogo - bola que o encarna e o engrandece. Assim é, se me parece, a bola de cada um dos campeões da Copa América: a bola de Dida tem reflexos de felino e gruda nas mãos, tátil, como ventosa; a bola de Cafu transborda suor, mas não reluz; a bola de João Carlos é irmã gêmea da bola de Antônio Carlos: ambas têm pose de miss, mas adoram um sarrafo; a bola de Roberto Carlos, que andou meio desvairada, recobrou o juízo e voltou a correr pelo campo como um recital de músculos inteligentes; a bola de Flávio Conceição é dissimulada, até agora, não mostrou a cara a ninguém; a bola de Émerson é implacável, é sisuda, nunca sorri, mas transpira solidariedade; a bola de Amoroso, como o próprio nome dele diz, joga, sempre, cheia de amor pra dar; a bola de Ronaldo anda muito parecida com a lua: no mesmo jogo, oscila entre o crescente e o minguante; a bola de Rivaldo é talento só, tem alma de porta-estandarte do bloco: Ô abre alas que eu quero passar; a bola de Zé Roberto é sedosa, é sestrosa, é tinhosa. Bola, pra que te quero?
O exemplo da final
A comissão técnica de Luxemburgo certamente tomará como exemplo de força mental a equipe da final com o Uruguai. Nos últimos tempos a Seleção Brasileira anda abusando do mau costume de deixar o adversário tramar livremente suas jogadas, deixando pra fazer o combate direto quando a bola já chegou à intermediária brasileira. Isso não é nada bom. O certo é fustigar o adversário o tempo todo. Na final, foi uma beleza: a equipe deu show de brio, do primeiro ao derradeiro minuto.
Uma equipe se torna empolgante e irresistível, justamente quando goleiro, zagueiros, volantes e atacantes se equivalem na capacidade de luta, na aplicação, na bravura. Foi com esse espírito que a equipe brasileira deu dimensão épica a um triunfo de todo previsível.
Rápidas e rasteiras
- Os cortadores de imagem das tevês estão, mesmo, a fim de nos levar à loucura. Além dos repetecos em slow, mostrando por mil ângulos lances irrelevantes, deram, agora, pra abusar de takes de público. A bola correndo e as câmeras basbaques a mostrar, ora, rostos bonitinhos, ora, caras bizarras. Um desapreço à dramaturgia do jogo. Simplesmente torturante!
- Por falar em tortura, Guga foi massacrado, na Davis: em três dias, teve que jogar três partidas, num total de 11 sets.
- Rivaldo foi a figura da final da Copa América: jogou o seu próprio jogo e o dos companheiros; driblou, chutou, passou, combateu. O passe do gol de Ronaldo, pelo alto, um primor; o segundo gol, uma jóia. Mas, por favor, não me digam - como disseram no ar - que o primeiro gol foi consciente. Rivaldo cabeceou a bola de costas, querendo mandá-la pro melê da pequena área. A bola encobriu todo mundo e foi entrar, em ângulo morto, lá em cima. Pura sorte. Ah, porque me ufano do meu país!
- Essa Copa das Confederações só tem uma serventia pro futebol brasileiro: Wanderley Luxemburgo vai começar a montar a seleção que pretende chegar ao torneio olímpico de Sidney. No mais, pela modéstia dos concorrentes, não passa de um furo nágua do novo presidente da Fifa, Sepp Blatter. O tempo dirá.
- Os franceses do tênis tiraram um sarro em cima do Brasil: celebraram o triunfo, na Davis, vestidos com a camisa da seleção campeã do mundo. Quem tem que engolir o chauvinismo francês é o professor Zagallo e mais ninguém.
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