Na Grande Área (Armando Nogueira)
Truque? magia? milagre?
Existe o gol de placa. O gol de letra. O gol que aplaca. O gol que mortifica. O gol que glorifica. O gol de bico, estupro. O gol de calcanhar, que Aquiles nunca fez. O gol de peito, que Romário já fez. O de cabeça. O gol sem pé, nem cabeça. O gol contra, autoflagelação. O do gaúcho Ronaldinho, contra a Venezuela, tem um pouco de tudo que é capaz de eternizar um gol: audácia, astúcia, rigor, harmonia. O lençol, conciso, me lembrou Pelé, contra Gales, em 58. O gancho, acelerando a bola que lhe ficara pra trás, me lembrou Zico, num jogo contra o Paraguai, em Assunção.
Será Ronaldinho um craque? Se não é, parece. Se não vier a ser, terá sido, ao menos, naquele instante em que inventou seu próprio espaço, uma das virtudes que distinguem o grande jogador, o grande bailarino, o grande pintor - o artista, enfim. Naquele gesto nada havia de pensado, de sofrido, como nas obras de intelecto.
Há certos gols que transcendem esse mero engenho de truques que é o cérebro humano. São pura magia, essência de milagre. Aquele é um.
Pensata de Jô Soares
Jô Soares é criatura de muitas paixões. Uma delas é o futebol. Jô me manda um bilhete eletrônico, com a seguinte reflexão, bem-humorada: Depois de muitos anos como observador do futebol, cheguei à conclusão de que não há nada mais parecido com goleiro do que técnico: é tudo igual. Não tem nem bom, nem ruim. Tanto faz. Vi Castilho engolindo frango e Felix fechando o gol. O técnico Rhinus Michels, da Holanda, perdendo contra a Alemanha, em 74, e o Parreira, campeão do mundo, em 94. Já vi Taffarel imbatível e o grande Iachin tomar gol entre as pernas. Quem é melhor: Luxemburgo ou Feola? Waldir Peres ou Gordon Banks? Tanto faz. Beijos, Jô.
O solo de Edílson
Dá um palmo de altura a pilha de mensagens em que leitores discordam de mim, no já distante episódio Edílson: acham que a embaixada do craque não teve nada de deboche, que aquilo é arte, é brasileirice poética. São vozes veementes, respeitáveis, todas, mas às quais não me renderei. Achei o gesto temerário, inoportuno, abusivo. Aliás, a embaixada não é arte; é apenas manha. Artimanha. É um gesto já tão banal no futebol brasileiro que peladeiro que se preza já nem faz mais. Tampouco, justifico a represália. Foi um episódio, como já escrevi, ele todo, um atentado ao espírito esportivo.
Há, ainda, os que me acusam de ter aprovado a reação de Paulo Nunes. Em absoluto. Violência não é comigo. Eu teria gostado, sim, que o time do Palmeiras se perfilasse, cada jogador no lugar em que estivesse, e fizesse um minuto de silêncio, em sinal de protesto. Enfim, cada qual com a sua verdade.
A força do olhar
André Agassi derrota o nosso Guga, jogando um tênis avassalador. Em tudo: na devolução de serviço, na troca de bolas, as dele, sempre chumbo grosso, cruzando a rede, incandescentes. Nada tenho a objetar sobre a performance de Guga. Diante de um jogador no esplendor técnico, físico e mental em que está André Agassi, só lhe restava render-se, como se rendeu, com dignidade. Desde o recente Roland Garros, Agassi está iluminado. Tem uma luz que nasce da força mental. Cintilações de um obstinado. Ou será de um predestinado? Agassi dá a impressão de tutelar o rival, quando o fita com o olhar místico, retalhando a quadra em infinitas percepções. Ah, o poder mágico do olhar nas batalhas do esporte!
Rápidas e rasteiras
- Boris Becker despediu-se da grama, num jogo repassado de saudades, contra Pat Rafter. Deixou a quadra, mais aplaudido que o vencedor. Se o tênis não conhecesse o perdedor, jamais alguém poderia compreender a cena insólita em que a multidão celebrava a derrota e não o triunfo. Boris Becker regou de gestos memoráveis a relva secular de Wimbledon.
- Encontro Raul Plassman, no avião que me traz de Foz do Iguaçu. O legendário goleiro, hoje, comentarista, vinha da inauguração do Arena, do Atlético do Paraná. Está deslumbrado com o monumento que é o estádio. Daqui, de longe, mando felicitações a três atleticanos roxos: Sigismundo Morgenstern (o Zig), Mário Celso Petráglia e Ênio Fornéia. Os três moveram todas as palhas de uma obra consagradora.
- Em recente papo, com Wanderley Luxemburgo, saiu o assunto seleção argentina. O treinador me dizia que os argentinos disputariam a Copa América com apenas dois desfalques: Redondo e Batistuta. Engano. A Argentina está aí sem nove titulares, que, alegando cansaço, declinaram da seleção, momentaneamente. São eles: Sensini, Chamot, Redondo, Veron, Batistuta, Crespo, Almeyda, Claudio Lopes e o goleiro Roa, que acaba de trocar o futebol pela religião: agora, é pastor de almas numa igreja evangélica. Wanderley Luxemburgo estava mal informado e eu, pior ainda, desinformado.
- Perguntei ao árbitro Márcio Resende de Freitas: Se a Fifa lhe desse carta-branca, o que você faria pra melhorar o futebol? Resposta, em cima da bucha: Eu dava cartão vermelho pra maior inimiga dos árbitros: a televisão.
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