Na Grande Área (Armando Nogueira)
O solo macabro
Edílson é um jogador endiabrado; e de um capeta, tudo se pode esperar. Até um solo macabro, como aquele que conflagrou o Morumbi, na final do Campeonato Paulista. A torcida, em geral, adora um tripúdio. A firula de Edílson, nas circunstâncias em que foi feita, deve ter lavado a alma da multidão corintiana. Até sou capaz de jurar que lavou, mesmo. Mas, só podia dar no que deu. Edílson brincou com fogo.
Na ética do futebol, um gesto como o de Edílson sempre foi repelido como um ato de injúria real. É pior que um carrinho por trás, ou uma cusparada no rosto. O carrinho permite dupla interpretação e a cusparada, a multidão não vê.
O preceito, melhor dizendo, o dogma não vale só pro esporte profissional. Na pelada, quem menospreza o vencido leva um troco, muitas vezes, desproporcional à dimensão do desdém. Me lembro de um jogo de subúrbio, se não me engano, na Baixada Fluminense, que acabou na página policial dos jornais do Rio. Sozinho na pequena área, ele e as traves, o atacante cruza os pés e faz o gol de letra com um totozinho. Um torcedor que estava atrás do gol deu dois passos e fulminou o jogador com dois tiros de revólver. Se tivesse escapado do torcedor insano, talvez fosse linchado pelo time adversário, que perdia o jogo. Perdendo, ninguém aceita. Qualquer enfeite vira achincalhe. Vira desrespeito.
O que conforta o homem derrotado é o respeito que lhe devota ao vencedor. Assim é no campo de futebol, assim será, sempre, nas disputas da vida em que haja dois corações: um que ganha, outro que perde.
Há quem admita que alguns jogadores do Palmeiras se excederam na represália ao solo ultrajante. É bem possível. Mas, quem, no aceso da paixão, será capaz de reprimir a cólera de um coração desfeiteado? Como se sentiria o torcedor do Palmeiras se seus ídolos deixassem passar em branco tamanha afronta à sua dignidade de perdedor?
Edílson foi infeliz e até já se penitenciou. Afinal, ele é um legítimo campeão, com o Corinthians, e não há nada pior no esporte do que um herói de consciência pesada.
O charuto de Romário
Em São Paulo, domingo, saiu campeão do estado o melhor time. O Corinthians, que em 99, não andou lá muito bem das pernas, voltou a ser, agora, o que tinha sido no Campeonato Brasileiro de 98: uma equipe, ao mesmo tempo, brilhante e vibrante. Em todos os fundamentos, ultrapassou os adversários, notadamente, a partir das semifinais. É uma equipe de futebol principesco. Adoro ver jogar um time assim, como esse do Corinthians.
No Rio, se não venceu o melhor, certamente, venceu o maior de todos. O Flamengo sempre foi assim: quando lhe falta um grande time, eis que desponta no campo o grande clube que é. Tão grande quanto a infinita paixão que o inspira e engrandece. O Flamengo jogou as duas partidas, do título, privado de meio time. Ou alguém discute a tese de que, sem Romário e sem Iranildo, a equipe do Flamengo entra em campo sensivelmente enfraquecida? Um é o arco preciso, o outro, a flecha infalível.
O que mais se deve realçar, na epopéia rubro-negra, é o reencontro do Flamengo com a sua vocação. A gestão Kleber Leite não fez bem ao Flamengo. Violentou a sina do clube, convertendo-o num mero entreposto de compra-e-venda de jogadores. Ora, a vaga mercantilista que invadiu o futebol jamais poderá prevalecer sobre a legenda de um clube da estatura do Flamengo.
O time do Flamengo conquistou o Campeonato Carioca, tendo como armas principais o sangue, o suor e as lágrimas de uma equipe modelada à imagem e semelhança do clube rubro-negro. Na primeira partida, o time já tinha dado claros sinais do quanto pode um coração que pulsa. O Vasco da Gama, não os seus honrados profissionais, mas o Vasco cartola, há séculos, já vinha fustigando o brio do Flamengo. Pois a bazófia do Vasco cartola acabaria se esfumando nas baforadas do charuto de Romário.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Um rubro-negro, velho conhecido, cruza comigo e pergunta: E aí, gostou do Flamengo? Mais adiante, vem vindo outro conhecido, esse vascaíno. Prevenido, vou logo preparando a resposta. O vascaíno, porém, não está nem aí. Então, gostou do corte do Edílson? No ato, me lembrei do livro de Alvaro Moreyra: As amargas, não.
- Brasil, campeão sul-americano invicto de basquete. São os primeiros frutos de um trabalho de renovação que faz, criteriosamente, o técnico Hélio Rubens. Gente fina, homem estudioso, obstinado, competente. Esse eu conheço.
- Vi Sampras estrear em Wimbledon, derrotando o australiano Scott Drapper. Quem nos dá um bom exemplo da diferença entre o tênis de saibro e o tênis de grama é ele, Sampras: na terra batida, um jogador de segunda classe, na grama, um portento.
- Interpretação de um membro da seleção, pessoa muito próxima de Wanderley Luxemburgo: O Edílson acabou dando um gancho precioso pro Wanderley atravessar a Copa América sem problemas de indisciplina. Tomara.
- Certa vez, Ademir da Guia parou a bola, levantou-a de colher, deu um balãozinho, deixando Vavá com a cara no chão. Mais adiante, Vavá cochicha ao ouvido de Ademir: Vou te dar um conselho: nunca mais faça isso. Um dia, alguém vai te quebrar uma perna. Se Edílson tivesse encontrado um Vavá no começo da carreira, talvez não faria aquela provocação.
- Ainda, a embaixada de Edílson: no sul-americano de 53, no Peru, estourou um quebra-pau porque, no jogo Brasil x Uruguai, Ipojucan, sozinho embaixo dos paus, em vez de chutar normalmente, resolveu dar uma letra. Todo mundo brigou e brigou feio.
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