Na Grande Área (Armando Nogueira)
A terceira coroa
O time do Palmeiras tenta, hoje, a última das três coroas que vinha disputando, há meses, com uma ambição incomum. A primeira já foi perdida contra o Botafogo; a segunda está sendo perdida, contra o Corinthians; a terceira, que é mais desejada, depende de uma vitória de 2 a 0, contra o Deportivo Cali, hoje à noite.
Como estará o moral da tropa palmeirense, depois de duas desilusões? Não há dúvida de que, a essa altura, a campanha do Palmeiras já está marcada por um sentimento de perda que pode se transformar em tremenda pressão emocional, hoje. Tomara que não.
Confesso que não entendi a estratégia do Palmeiras. Contra o Botafogo, pela Copa do Brasil, entrou com a força máxima. Era um jogo decisivo, sim, mas, nem por isso, mais relevante que o clássico contra o Corinthians. Não terá havido, aí, uma inversão de prioridades? À luz da paixão clubística, não seria preferível perder os anéis contra o Botafogo a ter que arriscar perder os próprios dedos contra um rival de morte como o Corinthians?
Enfim, hoje é o dia, há tanto sonhado. Que seja feita a vontade do Palmeiras. A equipe, um exemplo de brio e de brilho, bem o merece.
Noite de torcedor
A criatura tem televisão em casa. Sabe que o jogo será transmitido, ao vivo. Sabe que, de carona, não terá a mínima chance de ver seu time. Intrépido, sai de casa domingo, seis da tarde. Em vez de ir ao cinema com a namorada, aboleta-se ao pé de um guichê e passa a noite inteira, de plantão, à porta do estádio. Um frio infernal. Infernal, sim, porque, nas profundas do inferno, segundo o poeta, o que existe, mesmo, é gelo e não fogo. A roupa vai, aos poucos, se ensopando da insidiosa garoa paulista.
Comer alguma coisa pra enganar o estômago insone, nem pensar. Beber uma que outra pra aquecer o esqueleto, tão pouco. Enfim o dia amanhece. Um desnaturado abre a bilheteria. O tresnoitado compra o primeiro ingresso, que ele guarda, a sete chaves, no bolso mais perto do coração. Como se fosse o passe pra entrar no paraíso.
Eis a breve saga de um torcedor do Palmeiras, na véspera da decisão da Libertadores, hoje à noite. Dá um filme, ora, se dá! A trilha sonora poderia ser perfeitamente um certo samba do imortal Monsueto, que diz assim: Já não é amor/Já não é paixão/O que eu sinto por você/É obsessão!
Estou com Edmundo
No plano das idéias, não costumo concordar com Edmundo, mas, dessa vez, assino embaixo quando ele diz que faltou espírito de luta à equipe do Vasco, no primeiro jogo da decisão com o Flamengo. Imagino que esteja implícito, na queixa, o reconhecimento de que o Flamengo, ao contrário, esbanjou coração, do primeiro ao derradeiro minuto da partida.
A outra bronca de Edmundo, contra a arbitragem, é igualmente procedente. Parte da defesa do Flamengo fartou-se de derrubá-lo, com bola e sem bola. Quem duvidar que pegue o teipe do jogo. Há cenas que lembram o esdrúxulo jogo de rugby: dois, três jogadores, atropelando Edmundo em botes desvairados. A intenção não era tirar-lhe a bola, mas tirá-lo da bola, a qualquer custo. O árbitro, como sempre, indiferente ao sacrifício do craque.
O time do Flamengo deixou bem claro, domingo, que o Vasco pode até sair campeão, mas não há de ser sem muito suar a camisa. A jovem equipe do Flamengo, desfigurada pela ausência de Romário e Iranildo, jogou, o tempo todo, movida por um sentimento de bravura que chega a empolgar o espectador mais sereno.
Correção de rumos
Rescaldo de uma breve conversa que tive, há dias, com o técnico Wanderley Luxemburgo: 1) Pelo menos uma coisa ele tem em comum com Zagallo, em matéria de seleção: mais que tudo, quer conquistar uma glória que o futebol do Brasil ainda não tem: a medalha de ouro olímpica; 2) Luxemburgo tem orgulho de ter alterado, pra melhor, os rumos de duas carreiras: Rincón e Edilson. Ao colombiano, ele disse, um dia: Você não é atacante, você é meia-armador. Ao baianinho, disse justamente o contrário: Você não é meia, você é atacante. Os dois acataram e se deram muito bem; 3) Ele descarta a defesa com apenas três zagueiros porque, segundo tem notado, os europeus jogam sempre com três atacantes e não com dois, como se diz; e três contra três é morte certa: É preciso sobrar alguém na cobertura.
Rápidas e rasteiras
- O time do Corinthians parece ter reencontrado o tom maior de sua bela temporada, no ano de 98. Está, outra vez, jogando o fino. É bonito ver uma trama da equipe: Vampeta, Marcelinho, Ricardinho, Edilson e Rincón andam fazendo pelo campo cirandas cintilantes.
- Subidas honras a um jogador: Rincón. Se fosse brasileiro, Rincón seria, fácil, parceiro de Vampeta, na seleção.
- Tomou posse o novo ministro da Defesa. Se o Fernando Henrique acompanhasse o futebol de perto, certamente teria escolhido Gilson Nunes.
- Romário não tem grandes esperanças de jogar contra o Vasco, sábado. Num mano com um amigo, ele confessou que a lesão é bem mais séria do que ele próprio imaginava; e é bem possível que tenha sido esse o laudo que o médico Runco, do Flamengo e da CBF, levou para a reunião da comissão técnica da seleção.
- Aliás, a comissão de Luxemburgo bateu o martelo da convocação, domingo de noite, logo depois de Vasco 1 x 1 Flamengo, em jantar de primeira classe, no restaurante Antiquarius, um dos mais celebrados do Rio. Sentado a três mesas de distância, espichei o quanto pude os meus ouvidos, mas a conversa era de tal modo cochichada que só deu pra escutar a pedida de Luxemburgo: arroz de pato.





