Na Grande Área (Armando Nogueira)
Na história, sem história
Deixo a cidade de Paris, a poucos dias de uma grande festa. A França vai celebrar, com clarinadas e fogos de artifício, o primeiro aniversário do título de campeão do mundo. O canto é livre e plausível. Afinal, atravessaram a Copa, vencendo a final contra o então campeão. Cá entre nós: a vitória de 3 a 0 foi acachapante, sem dúvida, mas, nem assim, consagrou um grande campeão.
A Copa do Mundo está cheia de campeões que entraram na história mas que não chegaram a fazer história. Há quanto tempo a Copa vem nos frustrando com desfechos insensatos? Que eu saiba, desde o mundial de 50, com aquele Brasil de craques excepcionais. Quatro anos depois, outra equipe de sonho, a Hungria, era desbancada, na final, por uma Alemanha quadrada, sem um pingo de charme. Felizmente, o Brasil ganharia a Copa de 58, libertando o futebol da burocracia européia.
Quem não se lembra da seleção holandesa de 74, derrotada pela geração brilhante de Beckenbauer, mas, mesmo assim, inferior à inesquecível Laranja Mecânica? E que dizer do Mundial de 82, decidido numa final sonolenta, em Madri, entre duas equipes que, então, encarnavam o antifutebol: Itália e Alemanha. Desfrutei, naquela tarde, uma boa sesta, em pleno estádio. Ainda bem que a memória da Copa exalta mais a seleção brasileira de Telê do que a Itália dos ferrolhos inomináveis.
Enfim, quem tem razão, mesmo, é Johan Cruyff que, ainda outro dia, desancava o futebol mesquinho de tantas Copas, concluindo com uma sentença irretocável: Mais importante do que ser campeão do mundo é entrar na história e lá ficar, pra sempre. Falava, notadamente, da Holanda de 74 e do Brasil de 82.
Quem não sabe manda...
Fico sabendo, aqui em Paris, que deu mais uma crise entre Marcelinho e um treinador. O homem teria dado uma ordem tática e o jogador, aborrecido, não quis cumprir. O técnico diria, depois: Quem manda sou eu! Aí, a galera conclui que a lei da vida vale também no futebol: Quem sabe faz; quem não sabe manda...
Talvez estejamos sendo injustos com o técnico Oswaldo de Oliveira, do Corinthians. Quem sabe Marcelinho devesse, mesmo, fazer direitinho o que queria o técnico. O jogador, ali, é o soldado; o treinador, o general. Acontece que, às vezes, me lembro que sou da antiga, quando a gente implicava com os técnicos que proibiam Garrincha de driblar, que não deixavam Nilton Santos avançar e que não engoliam os passes de efeito que o Didi dava como ninguém.
É desse tempo uma saborosa crônica do poeta, cronista e ponta-esquerda Paulo Mendes Campos, que assim dizia: Às vezes, acontece o seguinte: o primeiro tempo é chato, o segundo tempo melhora. Por quê? Porque o primeiro tempo, invariavelmente, é jogado pelos dois técnicos dos dois times. Os jogadores entram em campo pra redigir os ofícios, lavrar as ordens de serviço, expedir memorandos e circulares. Como essa burocracia frequentemente dá errado para os dois lados, além de aborrecer o público, os dois técnicos, no segundo tempo, concedem um pouco mais de liberdade aos 22 homens em campo. Aí, a coisa melhora. Aí, existe realmente um pouco mais de futebol, à maneira antiga, isto é, futebol invenção e amor... Aliás, cheio de amor, pois é o amor que inventa tudo.
Um libelo e tanto
Leio num jornal de Paris longa entrevista do jogador Matheus, líbero da seleção alemã. O coroa (39 anos) é o sobrevivente mais ilustre de uma geração apagada do futebol alemão. Jogou 86, no México, foi campeão mundial em 90, na Itália, jogou 94 e 98. Um título de glória e uma carreira respeitável. Sempre foi craque.
Na entrevista, Matheus deplora a degradação do futebol contemporâneo, marcado de violência, dentro e fora do campo. Diz que hoje em dia predomina só a lei da selva. A maioria dos jogadores não preza o espírito do jogo. Prefere a estupidez à boa técnica.
É o libelo de alguém que sempre decifrou, com engenho e arte, os enigmas do futebol. Ele tem razão: o craque sofre o diabo nos pés dos boçais que entulham os campos de futebol. Mas, pelo visto, a coisa já foi muito pior...
Passo ao craque Matheus um breve poema catado na Enciclopédia Britânica. É anônimo e data do século XVI, quando os ingleses já praticavam um esporte selvagem chamado football. Diz assim: Músculos estourados, ossos quebrados/Brigas, discórdia, juventude perdida/Impotente e estropiada/Eis as belezas do futebol.
Rápidas e rasteiras
- André Agassi está com tudo: no tênis, ganhou Roland Garros, recobrou posições perdidas e volta à elite encantada dos dez melhores do mundo. Igualmente, no amor, Agassi reconquista um coração recém-desfeito. Brook Shields e ele se telefonavam, diariamente - ela, na Califórnia, ele, em Roland Garros. Sorte no jogo e no amor.
- Nas recentes eleições do parlamento italiano, apareceu numa das urnas um voto pra Antônio Carlos, zagueiro do Roma. Pelo que me contam dele, no jogo com a Holanda, a torcida brasileira não votaria em Antônio Carlos.
- Duas mulheres comandam a batalha de combate ao doping no esporte europeu: Giovanna Meladri, ministra de Esportes da Itália e Marie George Buffet, ministra de Esportes da França. Pra variar, a dama italiana esbarra na baixa politicagem do parlamento italiano. Ambas estão preocupadas com a crescente submissão do esporte a interesses comerciais. Quem, de boa fé, não estará?





