Na Grande Área (Armando Nogueira)
A velha guarda
Meus amigos, quanto mais vejo o Torneio de Roland Garros mais ele me surpreende e me encanta. Agora, quando todos os catedráticos apostavam na novíssima geração, eis que a velha guarda ressurge, se impõe e sobe ao pódio com André Agassi e Steffi Graf, ambos entrando na casa dos trinta. Poucos admitiam a derrota de Martina Hingis, nº 1 do mundo, uma predestinada do tênis, encarnação da beleza e da pureza do jogo. Pois não é que Steffi Graf, recém-saída de sucessivas lesões, recobra a realeza e leva ao delírio a pequena multidão de Roland Garros, com a vitória inesperada de 2 sets a 1?
Não me lembro de ter visto contentamento maior que o de Steffi Graf, na quadra central de Roland Garros. A tal ponto que, deixando o estádio, ela tomaria uma decisão: jamais voltará a disputar o torneio de Paris. Quer guardar, com desvelo, intacta, a tarde de 5 de junho em que o estádio, de pé, em ardente aclamação, cingiu-lhe a legenda com a coroa de rainha de Roland Garros.
A vitória de André Agassi, no dia seguinte, não foi menos retumbante. Ele saiu de dois sets a zero a favor de Medvedev, pra uma vitória épica, construída em três sets seguidos, cada um mais devastador que o outro. Agora, a coleção está completa: Agassi é o primeiro tenista, em 30 anos, a conquistar os quatro troféus do Grand Slam: Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos.
Foram dois triunfos inesperados. Ambos os vencedores ficaram um bom tempo sem ver a luz do sol que brilha nas quadras do tênis mundial. Ela, martirizada por sucessivas contusões, não chegava a uma final desde 96. Ele vinha tentando ressurgir das cinzas do deslumbramento. O temível André Agassi, campeão de nascença, chegou à plena glorificação muito cedo. Logo, deslumbrou-se. Entregou-se à dolce-vita de dono do mundo. De repente, foi despejado da glória como um renegado. Desabou a 140º do ranking. O fundo do poço. Agora, aos 30 anos, ele retoma o caminho do Olimpo e reconstrói, com muita fé em Deus, o seu calvário dourado.
Linchamento no tênis
O torneio de Roland Garros, que junta, em duas semanas, a fina-flor do tênis, acaba de me provar uma coisa: esse belo esporte não é mais aquele. Não é melhor, nem pior, mas é bem diferente. Principalmente, fora da quadra. O público, antes fidalgo, judicioso, não mudou de cara, mas mudou de conduta. A mesma multidão que nos intervalos se diverte, fazendo ola, típica do futebol, passa a um estado de intolerância contra tudo e contra todos.
A platéia aristocrática de outros tempos converte-se agora numa ruidosa multidão, decidida a influir furiosamente no destino da partida, seja vaiando a arbitragem, seja apoiando, em coro de vozes agressivas, o jogador ou a jogadora de sua predileção. Pelo menos foi o caso da final feminina, sábado passado. O público da quadra central, simpático à alemã Steffi Graf, além de encorajá-la, passou o jogo todo a hostilizar a rival, Martina Hingis. Que, a bem da verdade, faz um gênero teatral que a multidão não tolera. Parece arrogante, o narizinho empinado de menina mimada pelos anjos do esporte.
Martina Hingis, 18 anos, a mais talentosa jogadora da era do tênis-pop, sofreu, sábado, um linchamento emocional. A tal ponto que no fim da partida, desabava em lágrimas, refugiou-se no vestiário e só voltou à quadra pra cerimônia dos troféus trazida pelos apelos de sua mãe e treinadora, Melaine Hingis.
Martina Hingis é, em essência, a pureza e a beleza do jogo, mas se já nasceu sabendo tudo de tênis, ainda sabe muito pouco da vida. Com certeza, o tempo cuidará de lhe ensinar que é a humildade, e não soberba, a virtude que precede a glória.
Três bolas na mão
Graças a Guga e, já agora, graças também a Meligeni, o tênis vem ganhando terreno no gosto popular. Prova disso é o aumento expressivo de e-mails, me falando do assunto. Um leitor me pergunta: por que a maioria dos jogadores, na hora de sacar, pede três bolas aos boleiros, se a regra só autoriza dois serviços? Sucede que, com o passar do tempo, a bola vai ficando mais despenteada. Começa a soltar fiapos de feltro que atuam como arrasto-parasita. A bola perde velocidade. Quanto menos usada, mais veloz é a bola. É justo, então, que o tenista escolha as bolas de superfície mais íntegra, mais lisa. Pode parecer superstição, mas não é, não. É ciência pura. Aerodinâmica.
Rápidas e rasteiras
- Acabou-se o que era doce: a seleção francesa campeã do mundo em 98 perdeu a invencibilidade, no último fim-de-semana, derrotada por 3 a 2 pela Rússia. Agora, a eliminação da Euro-2000 está por um fio.
- Outra seleção que vai de mal a pior é a inglesa. Precisava, dramaticamente, de uma vitória contra a Suécia e não foi além de um 1 a 0, em Wembley. É outra classificação em perigo.
- Fernando Meligeni conseguiu sensibilizar uma grife esportiva. Vai vestir uniforme da Fila até o ano que vem. A carreira desse guerreiro não tem sido um mar-de-rosas. O exemplo que nos dá, em parceria com seu jovem treinador, Ricardo Acioly, é edificante. Devia merecer um pouco mais de atenção dos patrocinadores esportivos brasileiros.
- A final de juvenis de Roland Garros foi disputada entre dois garotos argentinos: Nalbandiar e Coria. Coria saiu campeão. O tênis argentino, que andava por baixo, volta a ver a linha do horizonte.





