Na Grande Área (Armando Nogueira)
Meligeni,
o guerreiro
Caiu, mas caiu como um bom guerreiro o brasileiro Fernando Meligeni, vítima, como Guga, de um ucraniano implacável, Andrei Medvedev. Embora tenha chegado a Roland Garros como fecha-raia, Medvedev não é um estranho às glórias do tênis. Há duas temporadas, ele pertencia ao clube fechado dos dez melhores tenistas do mundo. Dizem que a fama e a fortuna fizeram muito mal à sua cabeça. O ucraniano pirou e foi acabar abaixo de 100, no ranking da ATP.
Meligeni teve a partida nas mãos, diversas vezes. Faltou-lhe um pouco mais de serenidade pra sustentar os momentos confortáveis que conquistou. Como no primeiro set, quando chegou a liderar a contagem com quatro games a um e quando teve cinco set points e não conseguiu fechar.
A bela campanha que fez, chegando às semifinais, vão lhe render preciosos pontos. No mínimo, Meligeni chega ao rol dos 30 melhores, o que vem a ser a posição mais expressiva de sua carreira.
Honras, pois, ao franco-atirador Fernando Meligeni.
Guga e Ronaldinho
Foi na primavera-verão de 98. Cada passo que eu dava, na avenida dos Champs Elysées, havia sempre alguém a me perguntar, como num cantochão: O que é que aconteceu com o Ronaldinho? E não é que a história se repete, quase um ano depois? Agora o personagem é outro. Chama-se Guga. E, claro, a abordagem é muito menos frequente. O tênis não tem, pro brasileiro, a dimensão que tem o futebol.
Guga não teve chilique nenhum. Vinha jogando um tênis excepcional. Era favorito do jogo e, pra muita gente do ramo, ninguém pintava mais candidato ao título do que ele. Aconteceu, apenas, o que é muito comum no esporte: quarta-feira, nada deu certo pra ele. Num esporte coletivo, como o futebol, se um jogador está mal, a equipe pode perfeitamente se salvar. Restam dez pra carregar o peso-morto. No tênis, amigo, a palavra de ordem é aquela que vem na voz sofrida do desespero: Se não tem tu, vai tu mesmo!
A bola de Guga, sempre muito pesada, muito veloz e profunda, de repente mal chegava ao fundo da quadra do adversário. Em contrapartida, vinha de lá um petardo que não lhe dava tempo, sequer, de armar o contragolpe. Eis a síntese da partida. Baixou em Medvedev o espírito de Guga. São os caprichos do esporte.
O infortúnio eventual de Guga em nada afeta o alto conceito em que é tido no universo do tênis. Ele continua a ser um dos melhores jogadores do circuito. Saiu do torneio mais cedo porque o tênis não dá segunda chance a ninguém. Ele jogou cinco partidas, perdeu apenas uma. Ficou, portanto, entre os oito mais cotados, numa disputa da qual participavam, de saída, 64 tenistas. Antes dele, foram embora pra casa luminares como Kafelnikov, Pat Rafter, Pete Sampras, Mantilla, Corretja, Carlos Moya.
A derrota de tantos ídolos só confirma a máxima secular das quadras: o tênis é o mais cruel dos esportes individuais. E, certamente por isso, o mais fascinante. Tão belo e tão artístico como uma paralela de Guga, varando a quadra como uma flecha de luz.
Rápidas e rasteiras
- Guga, agora, pensa em Wimbledon. No Brasil, terá um árduo programa de adaptação à quadra rápida. Antonio Borges, dono do Hotel do Frade, ofereceu a quadra de grama natural que tem em Angra dos Reis, mas Larri Passos agradeceu. Disse que prefere ver Guga treinando em quadra de grama sintética, em Santa Catarina.
- Marcelo Rios perde em Roland Garros, sem deixar saudade. Dizem que, abordado por um ardente admirador, em vez de assinar o autógrafo, simplesmente quebrou a caneta e devolveu os cacos ao fã. Era um garoto. Cabecinha turva a desse chileno.
- Os 15 ministros de esportes da Europa não querem mais deixar o esporte correr em faixa própria, sem controle do Estado. Decidiram, em recente reunião na Alemanha, que esporte é assunto de saúde pública e, portanto, não pode continuar a ser caixa-preta nas mãos dos cartolas. Vão entrar firme e forte contra o flagelo do doping e da falta de ética nas transações esportivas. Enquanto isso, na América do Sul, os governos não estão nem aí pros desmandos da cartolagem.
- Excepcional! É a única palavra justa pra partida semifinal feminina de Roland Garros, entre Steffi Graf e Mônica Seles, quinta-feira. Nem o vento maluco que soprava na quadra conseguiu comprometer o alto nível técnico do jogo de duas figuras de exceção do tênis contemporâneo. A amplitude dos golpes de Graf só pode ser comparado à contundência das respostas de serviço de Mônica Seles. A vitória da alemã Steffi Graf consagra a moça como um exemplo de perfeição no tênis de quadra de saibro.
- Sepp Blatter, com cacife de presidente da Fifa, quer fazer um torneio só de campeões mundiais: Brasil, Inglaterra, Uruguai, Argentina, Itália, Alemanha e França. Seria em 2004, na Espanha que, como anfitrião, pegaria uma carona no trem dos Sete Grandes.
- Luciana Tamburini está brilhando no tênis do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, onde estuda. Saiu, agora, vice-campeã do Arizona. Motivo de contentamento pra família Tamburini. O pai de Luciana, o médico Tamburini, me conta uma história de uma profecia. Há alguns anos, num torneio na Pampulha, Luciana conheceu um garotinho de raquete embaixo do braço. Uma senhora, em tom profético, disse a Luciana: Quero te apresentar um menino que, em breve, será o número um do mundo. Muito prazer - disse Guga, sem timidez.





