Duas pedras
de gelo
Assisti ao jogo de Guga, contra Ulihrach, sentado bem pertinho de dona Olga. Ela, uma fila acima da minha. Cumprimento-a, reverente. É a avó e talismã de Guga. Acaba de chegar do vestiário, onde assistiu à derradeira conversa entre Larry Passos e o neto querido.
Nos primeiros games do jogo, o checo está irresistível. Olho pra ela, intimidade. Dona Olga me parece tranquila, no seu par de olhos muito verdes em que se pode ler, na linguagem dos símbolos, traços de esperança e de vingança, também. Esse checo que se cuide!
Depois de sucessivos golpes vencedores, Guga fecha o primeiro ‘‘set’’. Volto-me para dona Olga. Ela me estende a mão, fraternalmente. Retribuo. São duas pedras de gelo que se encontram, em silêncio. Ela repele, secamente, a minha insinuação de que pode estar com um pouquinho de medo. Diz que confia muito no instinto do neto. Eu, como o neto não me pertence, abro logo o coração admitindo que o checo, como todo franco-atirador, pode muito bem estragar a festa brasileira.
Dona Olga é que tem razão: Guga, mesmo sem a constância dos últimos jogos, vai vencendo o segundo ‘‘set’’, amparado, aqui e ali, por uma voz que sussurra, atrás de mim: ‘‘Vamos, Guga! Agora, temos que quebrar o serviço dele.’’ E não é que Guga quebra, mais uma vez, o serviço do checo? Canto de avó é dueto de mãe.
De repente, um vacilo de Guga, em mais um ponto de ‘‘set’’. Olho para trás, temeroso. Dona Olga me dá uma bronca oracular: ‘‘Não olhe mais para mim quando o Guga errar!’’ Recolho-me à solidão de minha cadeira, obediente como um súdito de ocasião.
Felizmente, logo adiante, Guga fecha mais um ‘‘set’’. Dona Olga me estende a mão solícita. São as mesmas duas pedras glaciais que se reencontram, mas, já agora, em claro processo de degelo. Pelo menos, estou falando por mim que já começo a me encantar com a insolência do tênis de Guga. Ele vem minando, pacientemente, a explosão técnica do adversário, obrigando-o a errar com grata frequência.
Guga está jogando com impressionante frieza. Mentalmente, me lembra um enxadrista. Como tem pleno domínio de todos os golpes, Guga prepara várias jogadas e acaba, sempre, escolhendo a melhor. Essa é a faculdade que distingue o predestinado. Um dia, alguém perguntou ao lendário campeão de xadrez Raoul Capablanca qual o seu golpe predileto. Ele respondeu: ‘‘Um só: o bom.’’
E assim, com um bom golpe, Guga chega ao ‘‘match point’’, que dona Olga aplaude em pé, depois de apertar minha mão, repetindo o ritual de cada ‘‘set’’. Éramos, por fim, duas mãos, cálidas. Tão próximas e tão distantes uma da outra, pois dona Olga foi se embora sem sequer saber que hoje, estarei noutra cadeira, bem longe da mão dela, sem ter a quem estender a minha solitária pedra de gelo.
O soneto de Meligeni
Poucas horas depois do triunfo histórico de Meligeni, encontro-o, numa festiva ‘‘brasserie’’ de Paris. Está com os pais e os amigos mais queridos. No salão, uma mesa repleta de brasileiros levanta-se e, na maior efusão, saúda com champanhe a presença do herói, recém-saído da sombra de Guga. Agora, com luz própria.
Fernando Meligeni não é um ilustre desconhecido de Roland Garros. Em 93, ele chegou a inspirar ao jornalista Philippe Bouin, do ‘‘L’Equipe’’ o título de ‘‘Petit Génie’’, quando deu um tremendo sufoco no astro do momento, o espanhol Sergi Bruguera, que terminaria campeão de Paris.
Meligeni me dá uma explicação precisa para o renascimento de seu tênis. Canhoto, ele executava o golpe de revés (‘‘backhand’’), usando as duas mãos. Mas a mão direita só ajudava a canhota até a metade do gesto. Um movimento mal-arranjado de golpear a bola só até a metade do caminho. O resultado não poderia ser mais frustrante: saia-lhe da raquete um peteleco.
Ele, então, conhece Ricardo Acioly, ex-tenista de conceito, que passa a treiná-lo, profissionalmente. A primeira conversa foi da mais dura franqueza. Acioly propôs um desafio cabeludo: ‘‘Vamos mudar completamente o seu golpe de revés.’’ Meligeni tremeu nas bases. Temia que, aos 25 anos, a emenda pudesse sair pior que o soneto. O técnico deixou-o à vontade. Meligeni pensou, pensou. No dia seguinte, entrou na quadra decidido a topar a aventura. Os colegas o chamavam de maluco: trocar de golpe, depois de tantos anos de carreira!
Foram seis meses de trabalho. E como a caravana não podia parar, os dois andavam pelo circuito, comendo o pão que o diabo amassou. Eram derrotas sucessivas. Cada adversário que ele enfrentava, já sabia como derrotá-lo: era só martelar, impiedosamente o ‘‘backhand’’, ponto nevrálgico de Meligeni.
Felizmente, Acioly soube explorar a maior virtude de Meligeni que é a obstinação, atributo das mentes fortes. É precisamente aí que nasce a autoconfiança, sem a qual, nem no tênis, nem na vida, ninguém chega a lugar nenhum.
Meligeni apurou o golpe temerário. Hoje, quando um Mantilla passa duas horas, fustigando-lhe o revés, simplesmente, encontra um braço adestrado pra disparar contragolpes de notável consistência.
E, como nunca teve medo de perder e, muito menos, jamais terá medo de vencer, Fernando Meligeni chega aos 27 anos, com respeitável domínio da quadra de saibro, tanto no plano da ciência como da arte do jogo. Se Guga é um belo exemplar da graça divina, Meligeni é um belo exemplar da tenacidade, nobre virtude que eleva o homem às culminâncias do céu.

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