Na Grande Área (Armando Nogueira)
Caprichos
do futebol
PARIS - O tênis domina o noticiário esportivo europeu. Um tanto pela tradição do esporte e, certamente, muito mais pelo charme do torneio Aberto de Paris. Roland Garros é o mais celebrado entre os quatro torneios do Grand Slam: Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos.
Mesmo assim, em pleno fervor tenístico, a Europa só tem falado, esses dias, da partida Manchester United, 2 x Bayern de Munique, 1, pela Taça Européia de Clubes. Uma vitória inglesa que, se não for bem contada, ninguém acredita. Pois o triunfo do Manchester só se explica se for entendido como um prodígio.
O garçom, que já me conhece de outros cafés au lait, pergunta se, por ventura, já vi coisa igual no futebol: o Bayern vence o jogo, do 6º ao 90º minuto: um a zero. A cinco minutos do final, o ataque alemão me chuta duas bolas que estalam nas traves do Manchester, selando uma superioridade técnica e tática que o time inglês já não tinha tempo para neutralizar.
Afinal, o cronômetro acusava 90 minutos. Tanto que o banco reserva do Bayern já saboreava a glória iminente. Eis que de repente, não mais que de repente, o Manchester alça uma bola à pequena área alemã: gol do Manchester! O narrador, aos berros, sentencia: Vamos para prorrogação! E com morte súbita. Faltava, precisamente, um minuto para o fim dos três minutos de desconto.
Eis que de repente, não mais que de repente, córner para o Manchester. Bola de fogo pingando, na pequena área: dois a um para o Manchester. Delírio e desespero no Camp Nou. Vitória da equipe que ignorou solenemente o cronômetro. Vitória da mente que não desesperou jamais. Vitória da arte de desafiar os caprichos do destino.
Contei, então, ao simpático garçom africano que, ainda outro dia, vi coisa muito semelhante acontecer no futebol brasileiro, num jogo decisivo da Copa do Brasil. O filme é o mesmo; o roteiro, o mesmíssimo: o Flamengo, no papel do Bayern e o Palmeiras, no papel do Manchester United.
O futebol não é tão original como parece.
Bola, bolinha, boladas
A ISL parece, mesmo, decidida a tomar conta do esporte, no próximo século. A Copa do Mundo já é dela, até 2006. No momento que faz proposta tentadora ao Flamengo, a empresa suíça de marketing esportivo está fechando um contrato astronômico com o tênis, na pessoa jurídica da ATP (Associação de Tenistas Profissionais). O dinheiro é altíssimo: um bilhão e 200 milhões de dólares, numa parceria de 10 anos.
A ATP confia à ISL os direitos de comercialização, de difusão e de exploração dos símbolos do tênis, com poderes de disciplinar o calendário para evitar a banalização dos espetáculos tenísticos.
Cabe, então, a grande pergunta: terá o Flamengo cacife político pra apoiar a ISL na batalha pela racionalização do calendário do futebol brasileiro? Sozinho, claro que não. Em bloco, certamente. O Flamengo conta, sem sombra de dúvida, com o Corinthians, o São Paulo, o Palmeiras, o Vasco, o Santos, os três gaúchos, os dois mineiros, Botafogo, os baianos, os pernambucanos - enfim, os pesos pesados que, por força da lei Pelé, terão de transformar seu núcleo de futebol em legítimas empresas comerciais.
A ATP vai propor à Federação Internacional expressivas modificações nas regras do jogo. Uma delas é acabar com a vantagem no 40/40. Quem fizer o ponto vence o game. A eliminação da vantagem, tal como se deu no vôlei, é uma reivindicação da televisão para ganhar tempo. É bom saber que a tevê é a pessoa importante dessa tríplice aliança: uma que faz o espetáculo, uma que comercializa e uma que exibe.
Eles são a santíssima trindade do esporte-negócio.
Rápidas e rasteiras
- Na escala de Guarulhos, a caminho de Paris, pude ver, mesmo em pé, vinte minutos de Palmeiras x River. O alto-falante dava o embarque, justamente quando o Palmeiras trucidava os argentinos. A última impressão é que fica.
- Pete Sampras, no saibro, é uma negação completa. Na segunda rodada de Roland Garros, o melhor tenista do mundo já tinha sido levado para o cemitério dos elefantes, para usar uma expressão da imprensa francesa.
- Um caso comovente do tênis feminino é Jennifer Capriati. Revelação do circuito, aos 14 anos, campeã do Aberto da Austrália, medalha de ouro em Barcelona-92, a menina prodígio não resistiu às tentações da droga e se perdeu, da noite para o dia. Chegou a ser presa, certa vez, em Miami, num flagrante de furto, numa loja de bijuterias. Capriati, então, já tinha cinco milhões de dólares, no tênis. Passados cinco anos, ela reaparece em Roland Garros, num grato fenômeno de ressurreição técnica e moral.
- Nos últimos cinco anos, o tênis argentino entrou em recesso. Não aparecia ninguém para honrar as gerações de Vilas, de Perez Roldan, de Mancini. De repente, desponta aí uma geração para se tirar o chapéu. Vejam só o ranking: Zabaleta, 23º, Franco Squilari, 38º, Mariano Puerta, 44º, Gaston Gaudio, 78º, Herman Gumy, 80º, Guilhermo Ca¤as, 83º e Martin Rodriguez, 84º. Sete tenistas entre os 100 melhores. Não é pouca bobagem.
- Em Paris, recebo um correio-eletrônico da queridíssima Ana Moser, contando que, aos 30 anos, sente-se em perfeita forma física e técnica. Aninha está adotando um novo método de preparação atlética, segundo ela, muito proveitoso.





