O macro
e o micro
‘‘O Palmeiras é o Brasil! Assim estará gritando, no Parque Antártica, hoje à noite, o Galvão Bueno, num dó-de-peito de sabor patriótico. Como se a nação, em peso, admitisse torcer por uma vitória brasileira contra o argentino River Plate. Pois sim. Só quem não conhece o coração do torcedor de futebol seria capaz de imaginar um corintiano desejando a felicidade esportiva do Palmeiras. É pura retórica de um brilhante narrador que não resiste a disparar uma rajada de eloquência.
Todos sabemos, inclusive o Galvão, que o verdadeiro torcedor, o não palmeirense, só pede a Deus hoje à noite uma coisa: a vitória do River. De preferência, de goleada. Quem está rezando pelo Palmeiras, logo mais, é o Boca Juniores e quem mais, em Buenos Aires, não seja torcedor do River. O torcedor argentino, fora o River, estará grudado na tevê, dando uma força pro Palmeiras. Quem duvidar que duvide.
É o mesmo que dizer que o Botafogo, depois de amanhã, será o Rio de Janeiro na Copa do Brasil. Não será, mesmo. O rubro-negro, como o vascaíno e o tricolor, ninguém gosta de ver triunfar um rival de esquina, venha de onde vier o adversário. Quanto mais estrangeiro, melhor. No caso do Botafogo, o time tem que contar, mesmo, é com sua torcida e olhe lá. Serão seis gatos pingados num Parque Antártica coalhado de palmeirenses.
A equipe do Botafogo tem sido, este ano, uma flor de mediocridade. É, em verdade, o espelho de seu treinador, Gilson Nunes, pra quem, no futebol, não se deve arriscar nada. A ordem é jogar no erro do rival. Mais importante que vencer é não perder. Na Copa do Brasil, como no regional, o time do Botafogo joga, sempre, pisando em ovos. A ser tão temeroso, é preferível nem entrar em campo. Assim foi, domingo, contra o modesto Bangu, assim será, ainda mais, depois de amanhã, contra o indigesto Palmeiras.
Pouco importa saber se o Palmeiras entra desgastado pelo jogo com o River ou, então, se vai escalar um time misto, segundo a inteligente estratégia de sua comissão técnica. O time do Botafogo não ousará nada, pois só ouve a voz do medo; e o medo é um péssimo conselheiro.
Desde os dois jogos contra o Vasco que o Palmeiras dá lições de clarividência. Revesa, criteriosamente, os jogadores, de acordo com a hierarquia da competição. Prioridade-um pra Libertadores; prioridade-dois pra Copa do Brasil e prioridade-três pro campeonato paulista. Uma estratégia digna de um grande estado-maior. Não esquecer de adicionar a cada êxito palmeirense uma pitada de sorte.
Num calendário insano como o brasileiro, o treinador que pensa e procede estrategicamente vale mais, muito mais, que qualquer treinador estritamente tático. O treinador tático da semana foi Carlinhos, do Flamengo. Ele não foi feliz ao expor sua tropa de elite, numa batalha irrelevante contra o Friburguense. Na hora do grande combate, eliminatório, contra o Palmeiras, não pôde contar, cem por cento, com o jogador cujo peso-atômico vale por um time inteiro. Romário.
Um economista diria que o Flamengo esqueceu o macro e só pensou no micro.
Resultado: micou feio.
Guga-Meligeni: 2 a 0
Guga estreou bem em Roland Garros. Melhor do que eu esperava. A pressão sobre o favorito, no esporte individual, é infinitamente maior do que nos jogos coletivos. Aqui, o fardo de tensões se divide entre os membros da equipe; ali, concentra-se numa só criatura. Guga sabia que tinha pela frente um tenista, como ele, familiar ao piso de terra batida. Galo Blanco, carne de pescoço como todo espanhol, assustou meio mundo, ano passado.
A tensão da estréia deve ter contribuído para o baixo rendimento de Guga no primeiro serviço, um dos fundamentos que ele vem dominando, ultimamente, com o belo aproveitamento de 77 por cento, aí incluída uma boa cota de aces. É o segundo, abaixo apenas do holandês Krajicek. Ontem ele não passou da casa dos 60 por cento. Acabou tendo que decidir a maioria dos pontos na troca de bolas, o que é mais desgastante.
Menos mal que Guga soube abreviar a partida, vencendo Galo Blanco em três sets. Livrou-se bem cedo do desgaste físico e mental que o tênis de cinco sets impõe a qualquer jogador. A tirada do Aberto da França é longa e extenuante. São sete jogos seguidos, dia sim, dia não e todos eliminatórios. No tênis, não existe o benefício da segunda chance. Perdeu uma, dança.
O tênis brasileiro deu-se bem na quadra central, com Guga, e numa quadra satélite, com Meligeni, que sobrou, 6/3, 6/3, 6/3 contra o norte-americano Gimelstob. Fininho está em forma excepcional.
Rápidas e rasteiras
- O amigo leitor gosta de colecionar gol bonito? Então, certamente já guardou, na vitrine da memória, dois pequenos monumentos: o gol de calcanhar, feito por Paulo Nunes, contra a Matonense, domingo; e o gol de cobertura, feito por Roni, do Fluminense, contra o Flamengo. Duas delícias do futebol.
- A vitória do Corinthians contra o Santos, domingo, fez reviver a equipe que conquistou o campeonato brasileiro-98. Uma vez mais, dois jogadores deram récita: Rincon e Vampeta. Pena que o volante tenha feito falta tão grosseira, pela qual acabou expulso de campo. Como pode uma cabeça que concebe jogadas tão refinadas ser capaz de conceber gesto tão estúpido?
- Edmundo chega ao Rio, debulhando mágoas contra seu amigo Romário. Não gostou de saber que sua caricatura e de uma ex-namorada decoram a porta do banheiro masculino do Café do Gol. A caricatura, por sinal, nada tem de ofensiva. A queixa me parece infundada.
- O campeonato do Barcelona é o triunfo do futebol jogado com bom gosto. Bola pra frente, com engenho e arte. A Holanda está reinando no futebol europeu. Que bom!

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