Na Grande Área (Armando Nogueira)
Guga,
banana-ouro
No que termina a final de Roma, minha televisão entra em colapso total: nem imagem, nem som. Nada sei de eletrônica, mas pretendo que entenda um tiquinho de tênis. E, então, concluo que só pode ter sido coisa do Guga. Aquelas cruzadas de direita, anguladas, aquelas paralelas de esquerda, potentes, precisas, profundíssimas; uma delas deve ter decepado a cabeça de um chip, provocando no meu aparelho uma crise sistêmica que me deixaria sem ver os jogos de futebol e o basquete das moças, no Pré-Olímpico de Cuba.
Mas é tal coisa: depois de um recital como aquele de Guga, fazer mais o que num domingo de outono? Deixei que a tevê descansasse em paz e tratei de rever o jogo, mentalmente, set por set, game por game; se possível, ponto por ponto. Patrick Rafter tinha que fazer o que já começou fazendo: servia e subia à rede, o mais depressa possível, fiel à tática de aprofundar a bola bem baixinha, com slice, preparando o voleio infalível. Por slice, entenda-se efeito-contra. A bola sai suavemente escovada, por baixo, criando enorme dificuldade pro adversário, sobretudo se vem aguda, dissimulada, e nos cantos da quadra.
Levou meia-dúzia de passadas, ora, em paralela, ora, em cruzada, que Guga executava, sempre, com peso, velocidade e precisão técnica. E agora? - deve ter pensado o bravo australiano, depois de sucessivamente ultrapassado, a meio caminho da rede. A opção só poderia ser uma: acautelar-se. Foi que passou a fazer Rafter: plantou-se lá atrás, resignado. Era tudo que queria Guga. Um Guga que, ainda na flor da idade, já aprendeu que, no tênis de quadra lenta, como na vida, quem espera sempre alcança.
Revimos, então, aquele que, na Davis, abateu, um atrás do outro, os dois melhores tenistas espanhóis, Moya e Corretja, alternando ousadia e prudência. Coitado do Rafter! Ter que ficar no fundo da quadra, a trocar bolas com um especialista de terra batida. E que saibro o de Guga, paciente e sereno como um frade zen-budista em estado de iluminação mental.
Há golpes de Guga em que é tamanha a harmonia do gesto que não dá pra saber onde acaba o braço e começa a raquete. Braço do braço. Restava a Pat Rafter não mais do que se esmerar no saque, outra arma poderosa de seu arsenal de golpes. Afinal, foi sacando bem e voleando que ele derrotara, na véspera, o temível espanhol Felix Mantilla. Acontece que Guga estava irresistível, tanto no serviço quanto na devolução de serviço.
Não cometeu uma única dupla falta na partida. Devolvia bolas de deixar perplexo não só o adversário, mas a própria platéia, por sinal que dividida: metade Rafter, metade Guga.
Guga acabaria golpeando fundo a autoconfiança de Rafter, o qual, desapontado, devia estar pensando, em cada minuto e meio de descanso: e agora, qual será a saída? Se ficar atrás, o bicho pega; se subir à rede, o bicho come. Enquanto o australiano ruminava a dúvida, Guga mastigava uma banana, prosaicamente. No semblante dele, a alegria das merendas escolares.
Guga está jogando tênis, com a naturalidade de quem come uma banana. No caso dele, banana-ouro.
As pernas curtas
O time do Flamengo soçobrou, na partida com o Botafogo. Jogou sem a proverbial garra rubro-negra. Errou demais em lances elementares. Pra variar, a crítica preferiu simplificar: disse que a esterilidade rubro-negra deveu-se à falta de pernas. De estresse emocional ninguém fala. Como se, no futebol, a última palavra fosse dos músculos e não da cabeça. A cruel escalada de jogo-pós-jogo acaba com as reservas mentais de qualquer atleta, seja ele de esporte coletivo, seja de esporte individual. O time do Flamengo tinha se esgotado dois dias antes, contra o Palmeiras.
O Palmeiras está batalhando em três frentes, mas sabe muito bem o que quer. Tem um elenco estrategicamente manobrado por sua comissão técnica. Quando sai de uma partida extenuante, no jogo seguinte troca meio time e seja o que Deus quiser. Que se dane o campeonato paulista. Que se dane a própria Copa do Brasil. O objetivo é Tóquio-99, em dezembro.
No caso do Flamengo, o banco reserva não é assim tão expressivo. Em compensação, pode perfeitamente renunciar ao segundo turno do Rio e jogar todas as fichas na Copa do Brasil. Já devia ter feito isso contra o Botafogo. Teimou e se deu mal, porque perdeu, por contusão, jogadores preciosos.
Sei que estou chovendo no molhado. O treinador Carlinhos já fez a escolha: se a equipe é finalista do Campeonato Carioca, por que não se concentrar no desafio maior que pode lhe assegurar um lugar na Libertadores de 2000? É hora de dar um refresco pra jogadores como Romário, Beto, Iranildo.
Aí estão exemplos recentes: o Cruzeiro, sequioso, quis ganhar duas paradas simultâneas, ano passado. Acabou perdendo tudo de uma vez - dedos e anéis.
O Vasco da Gama também quis abarcar o mundo com as pernas, submetendo o mesmo time ao tiroteio da Taça Guanabara, da Libertadores e da Copa do Brasil. Espoliou, física e mentalmente, seus jogadores; empilhou atletas na enfermaria e, agora, está, aí, fazendo das tripas coração pra sustentar a liderança do returno carioca.
A cobiça tem pernas curtas, gente.





