Na Grande Área (Armando Nogueira)
Boas notícias de lá...
Wanderley Luxemburgo volta da Europa, trazendo boas notícias. De futebol, naturalmente. Trata-se de um treinador atento, estudioso, em cujas mãos, em boa hora, foi cair a seleção. Conta ele que viu, com satisfação, a escola européia seriamente empenhada em prezar a qualidade técnica, o toque artístico, em vez da força física que tem sido a arma principal de suas equipes.
Luxemburgo tem razão de estar contente. Ele é um dos que lutam por um padrão de jogo fundado, principalmente, no talento aliado ao suor. Pois time de Luxemburgo sempre foi de jogar bonito mas nunca foi de aliviar. Pelo contrário. Aí está o Corinthians que não nos deixa mentir. Mesmo sem Luxemburgo, ainda assim a equipe guarda, intactos, os mesmos valores básicos da lúcida e implacável orientação de seu ex-treinador.
No momento, a tendência mais expressiva do futebol europeu, segundo as observações de Wanderley Luxemburgo, é o refinamento técnico dos volantes (abaixo o cabeça-de-área botocudo!) e a volta do lateral à função primordial de defender. Pode avançar, mas não sistematicamente, como acontece no mundo inteiro. No caso especial dos laterais, isso já não é sem tempo, pois os fatos provam, sobejamente, que, com o advento dos alas, o futebol ofensivo acabou perdendo mais que ganhando. O lateral está, hoje, indefinido, zanzando pelo campo: nem é capaz de atacar eficientemente como um ponta, nem defende a contento como um bom zagueiro. Claro que estou falando em tese. Até que há laterais, como Serginho, que dão conta dos dois recados. Mas exceção não conta. E, ainda assim, eu diria que Serginho cumpre, no São Paulo, um papel bem mais eclético: ele é lateral, é ponta, é armador, é finalizador. Graças às virtudes físicas e técnicas excepcionais, que Deus lhe concedeu, Serginho é um verdadeiro coringa no tabuleiro de Carpegiani.
A vantagem de reter mais o lateral é que o time pode libertar mais os volantes armadores, qualificando, com eles, o toque de bola, a troca de passes, e acabando por propiciar, em consequência, ações ofensivas de maior aproximação entre armadores e artilheiros. Pra ser mais objetivo: é exatamente o que ocorre com o time do Corinthians, feito à imagem e semelhança de Luxemburgo. Quem viu o jogo da Libertadores, quarta-feira, certamente saiu feliz de ter visto jogar uma equipe assentada no talento da dupla Rincon-Vampeta. Talento e transpiração numa zona em que predomina, hoje, a esterilidade. Que partida estupenda jogaram ambos, no 2 a 0 Corinthians! Intransponíveis, defensivamente, e irresistíveis, ofensivamente.
Ao longo de 30, 40 anos, a palavra de ordem no futebol europeu provinha da escola italiana. Era o reino descarnado da retranca. Agora, a inspiração vem de outra fonte mais límpida, mais fluente que é a Holanda. Holanda cuja seleção nacional nos encantou, no Mundial da França, exibindo uma versatilidade coletiva que mal dava pra distinguir entre quem era do ataque e quem era da defesa. A única equipe que jogava, atacando pelas extremas, usando verdadeiros pontas, era, realmente, a holandesa.
A conversão do lateral em arma pretensamente ofensiva está fazendo 33 anos. É obra do futebol inglês, consumada no mundial de 66, com a seleção de Alf Ramsey. Foi ali que se viu, pela primeira vez, zagueiro lateral apoiando o ataque, com fumaças de ponta. É bem verdade que era à moda inglesa. Cohen e Wilson faziam o que até hoje faz a maioria dos laterais do mundo inteiro: avançam, mas já com o pezinho empinado pra fazer um centro sobre a área. Manobra convencional do futebol britânico dos anos 50 que, por cá, chegou a ser chamado de chuveirinho.
Nascia, então, a figura do ala. Desaparecia, desde então, a figura do verdadeiro ponta. Aquele azougue que busca, em primeiro lugar, chegar à linha de fundo, com a bola dominada, driblando, em velocidade, até que saia de seus pés um passe rasteiro, meio-gol. E o que é pior: pra agravar o mal que a emenda causava ao soneto, despontaria, na meia-cancha, o cabeça-de-área, denominação benevolente de um gênero de volante que o povão chama cabeça-de-bagre.
Dia virá em que o futebol vai reencontrar sua melhor inspiração: três bons zagueiros, quatro armadores transpirando, todos, igualmente, talento e suor e, mais à frente, três jogadores de gol, com redobrado espírito de luta. E, então, terá chegado a hora de celebrar o personagem de Jô Soares que, nos anos 80, já vivia suplicando: Bota ponta, Telê!
Rápidas e rasteiras
- O time do Palmeiras culminou o jogo com o Corinthians, quarta-feira, todo mundo, empilhado, orando, no meio campo. Zinho atribuiu a Nosso Senhor o pênalti bem cobrado. Cesar Sampaio recitou um versículo de Lucas. O goleiro Marcos, nos dois jogos, dividiu com Jesus Cristo o milagre de suas defesas. Acho bom o Palmeiras começar a jogar um pouco melhor. Qualquer dia desses, o Divino pode cansar de ser dadivoso...
- Um leitor me escreve, estranhando que eu tenha chamado Eurico Miranda de presbítero. Quer dizer: o amigo não morou na ironia...
- O Corinthians foi muito melhor que o Palmeiras nas duas partidas da Libertadores. De tal modo que, se o futebol fosse regido como o boxe, a banca de jurados teria classificado o Corinthians, proclamando-o vencedor por pontos...
- Um leitor pergunta se eu saberia explicar a saída de Maria Helena do BCN? Fui apurar e colhi a seguinte versão, de boa fonte: a direção do BCN pretendia afastar Heleninha da função de assistente-técnica do elenco principal. Algumas jogadoras andavam queixosas dela. Maria Helena, por sinal, excelente profissional, discordou do rebaixamento e preferiu ir embora, levando com ela sua fiel escudeira.





