Devagar com a louça
Uma se chama Hick Muse, é norte-americana; a outra é suíça, chama-se ISL. Uma quer bancar o Corinthians, a outra quer bancar o Flamengo. Ambas não escondem o jogo: o negócio delas é ganhar dinheiro nas águas dos dois. Pelo menos foi o que disse um gringo da Muse: ‘‘Queremos ganhar dinheiro!’ Os dois clubes, por sua vez, estão rindo à toa. Vivem matando cachorro a grito, de repente bate à sua porta um caminhão cheio de dólares. Não é a própria redenção?
Cuidado, gente. Devagar com a louça. Flamengo e Corinthians são dois símbolos do patrimônio afetivo popular do Brasil. São instituições nacionais. Não podem entrar de anjinho. A roda de pôquer é profissional. É de esperar que os conselhos deliberativos dos dois clubes examinem, à exaustão, os termos desses contratos. Acho que até mesmo o Ministério do Esporte está na obrigação de acompanhar, de perto, cada passo dessas transações.
A Inglaterra já deu o exemplo. Um magnata propôs pagar um bilhão de dólares, ‘‘cash’’, pelo Manchester United. O governo inglês brecou o negócio, em nome dos valores éticos que regem o esporte britânico. Na mesma batida, a Fifa já está contra o plano da Muse de passar o rodo por outros clubes brasileiros. Alguém dirá que a Muse não quer comprar o Corinthians, nem a ISL o Flamengo. Sucede que ‘‘dinheiro na mão é vendaval’’.
O que se insinua como parceria logo pode se transformar em apropriação. Numa jogada de milhões de dólares, as prioridades acabam invertidas e um clube nascido pra conquistar títulos acaba voltado só pra conquistar lucros. A Nike também não pretendia ser dona de nada, mas acabou sócia da CBF, com poderes absolutos sobre um lote de cinco partidas da seleção, por ano. Hoje, a seleção está aí, vulgarizada. Em dois anos de uma parceria infeliz, passou de mito a quase mentira.
Os clubes brasileiros estão todos a perigo. Devem os olhos da cara. São geridos como barraquinha de feira livre. Um quadro constrangedor que os fragiliza tremendamente. Qualquer um que apareça, falando grosso, em dólar, é recebido com honras de salvador da pátria. Vamos profissionalizar o futebol, sim. Chega de viver na pindaíba, sem cacife pra impedir que a Europa leve nossos craques ainda na flor da idade. Que venham as parcerias empresariais. Mas que a coisa seja feita com transparência e pés no chão. Nada de ir com muita sede ao pote.
Bambambãs em xeque
Três bambambãs do atual futebol brasileiro estão em xeque hoje à noite: Vasco da Gama, Palmeiras e Corinthians. Os dois últimos se entredevoram, no Morumbi, pela Libertadores. O outro, que joga em seu terreiro, poderia ter vida mais fácil se não tivesse perdido a primeira, da Copa do Brasil, em Goiás, por 4 a 2. O regulamento da Copa do Brasil é cheio de nuances. Usa uma aritmética, no mínimo, insólita. O time que não fizer a conta direitinho vence o jogo mas pode perder a vaga.
A parada paulista, no campo neutro do Morumbi, não admite favoritismo. Alguém dirá que o Corinthians está afogado numa crise, logo o Palmeiras, sem traumas, tem mais chance. Sucede que o desacerto corintiano é de caráter político e não técnico. O treinador foi embora, o diretor de futebol, também. Mas, o Gamarra não foi, nem o Marcelinho, nem o Vampeta, nem o Silvinho. Estão todos em forma e descansados. Folgaram no domingo. E mais: time de craques, quando é visto como um coitadinho, encrespa-se todo e fica a um passo de um ato heróico. Quem viver verá.
A noite de hoje destaca, ainda, Botafogo x Atlético Paranaense, no Maracanã, também pela Copa do Brasil. Hoje em dia, partida em que esteja metido o Botafogo não autoriza ninguém a fazer qualquer avaliação mais sensata. Sabe-se que o Atlético é uma equipe consistente, com um notável espírito de luta, capaz, portanto, de levar pra casa três valiosos pontinhos. Já o Botafogo, não sei de nada mais inconstante que seu time. A lua, do crescente ao minguante, é muito mais regular que a equipe alvinegra. Que o digam o São Paulo e o Friburguense.
Rápidas e rasteiras
- Atividade física faz milagres? Não. Faz criaturas física e mentalmente saudáveis. Um exemplo edificante vem na revista americana ‘‘Runner’s’’, deste mês: Payton Jordan acaba de vencer uma prova de velocidade de supercoroas (100 jardas) na Filadélfia, repetindo performance de 57 anos atrás, quando ganhou a mesma prova. Payton está com 81 anos bem corridos.
- Meu amigo Ruy Carlos Ostermann lançou no Rio seu novo livro, ‘‘O Nome do Jogo’’. Inteligência e retidão estão sobrando na vida de Ruy. Resfriadíssimo, não pude estar com ele na Livraria Argumento.
- Herbert Viana, astro do Paralamas do Sucesso, fez show, domingo, no hotel Porto Frade, em Angra dos Reis. O bacana é que Herbert se mandou, do Rio, pilotando seu ultraleve de estimação. Um modelo italiano, pintado de vermelho e preto, prova de uma arrebatadora paixão rubro-negra.
- O Campeonato Carioca está reduzido a Flamengo e Vasco. Os outros dois tradicionais concorrentes já entraram pelo cano, mal começou o segundo turno. Botafogo e Fluminense, ambos na pior, cada dia se parecem mais um com o outro.
- Um leitor, desapontado com o que denomina o sobe-desce de Guga no circuito da ATP, me pergunta se eu não exagero, pondo nas franjas da lua o tênis do nosso jovem herói. Ora, amigo, mais do que eu, quem aposta em Guga é um time respeitável de sete grandes anunciantes, a saber: Banco Real, Diadora, Head, Luxilon, Pepsi, Renault e Rider. Não há de ser pelos belos olhos de Guga que essas marcas patrocinam o rapaz.

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