Tropeços de
um campeão
No calendário angustiante de nossos dias, clube de futebol que não se organizar, estrategicamente, estará perdido. Dois exemplos estão aí, fresquinhos, a confirmar o que digo: o Palmeiras, que está se dando bem e o Vasco que quebrou a cara, feio, em apenas uma semana.
É temerário, hoje, um time pretender disputar com êxito duas, três competições, ao mesmo tempo, escalando, sempre, o mesmo elenco. Ou esse time se esgota, fisicamente, ou entra em colapso mental. Não há equipe capaz de matar um leão a cada três dias, usando sempre as mesmas armas.
O Palmeiras começou a derrotar o Vasco da Gama, bem antes da decisão de São Januário. Vejam só a declaração de Mauro Galvão, deixando o campo, depois dos 4 a 2: ‘‘Não deu pra suportar a batida. Depois do primeiro jogo, o Palmeiras teve o cuidado de enfrentar o São Paulo com um time misto. Descansou meio time e veio pra cá cheio de energia. Nossa equipe não aguentou o esforço.’ Se não foram essas, fielmente, as palavras do capitão vascaíno, foi isso que ele quis dizer, rosto vincado de fadiga, diante de mil microfones.
O Vasco da Gama tem um banco de reservas de causar inveja. É um arsenal de craques. Haja vista que, no segundo tempo da decisão, Lopes começou a trocar jogador. De repente, a equipe se recuperou e chegou a acuar o time do Palmeiras. Quase chega lá. Não chegou porque o Palmeiras esbanjava vigor físico e mental. Mesmo privada de Júnior, peça valiosa, ainda assim, com um a menos, a equipe paulista portou-se, bravamente, até o fim do jogo.
Em três dias, o Vasco da Gama perdeu duas decisões, castigado, senão por imprudência, talvez por avidez ou por onipotência de seu comando. A comissão técnica de Lopes deve ter superestimado o poder técnico da equipe, coisa que não aconteceu com o Palmeiras cuja liderança teve sensibilidade e humildade pra concluir que não daria pra brigar em duas frentes, sem trocar algumas figuras do seu poderoso contingente.
Quando o Palmeiras poupou meio time, contra o São Paulo, dava, então, um claro sinal de que tinha escolhido a Libertadores como prioridade um, deixando o campeonato paulista, momentaneamente, em segundo plano. Fez uma opção inteligente: o jogo da Libertadores era eliminatório, o outro, não. Se o Vasco tivesse poupado meio time contra o Flamengo, talvez o desfecho da história fosse outro. Afinal, o time do Vasco não está em decadência. Apenas, errou na dose.
Um filósofo de botequim diria que, nesses tropeços, faltou ao Vasco da Gama, não o time, mas o clube, uma graça que santifica o homem - a humildade, ‘‘bendita virtude do homem que sabe que não é Deus...’
Duas vezes feliz...
Estou num restaurante. Na mesa ao lado, um moço fala com alguém, ao celular. Espicho os ouvidos, discretamente. O papo é futebol e futebol é assunto de domínio público. Concluo, então, que dá pra escutar, sem culpa:
- ‘‘Ah, rapaz’’ - diz o de cá - ‘‘eu não mereço tanta felicidade. No mesmo dia em que o Flamengo ganha do Grêmio, lá no Sul, eles, aqui, tomam de quatro do Palmeiras, dentro de casa. É a glória. Vou tomar um pileque, hoje.’
Jules Renard, escritor francês, tinha razão: ‘‘Não basta ser feliz; é preciso que o outro não seja...’
Restos mortais de um córner
Já notaste, leitor, como fica a grande área, na espera de um córner? É de assustar. Virou um autêntico vale-tudo. A boca do gol fica apinhada. É um tal de trocar cotoveladas. Um tremendo empurra-empurra. Acredito que sempre tenha havido muito corpo-a-corpo, na área, mas não assim, como agora, com tamanho furor. Praticamente, ali se fustigam, belicosos, dois times inteiros. Hoje, com lentes poderosas, a televisão nos mostra, em carne viva, a cena do salve-se quem puder. É a própria guerra civil, em versão esportiva. Um árbitro ligeiramente intransigente marcaria, fácil, cinco pênaltis e cinco faltas de ataque, num só apito.
Se um gari da Comlurb passar por ali, depois de um córner, vai recolher, ao redor, no mínimo, lascas de tíbias, perôneos inteiros, rótulas desfolhadas, nacos de orelha, cacos de dentadura, chuteiras de língua de fora, perucas descabeladas, testículos esmigalhados.
Restos mortais de um córner, cobrado sem segundas intenções.
Rápidas e rasteiras
- O técnico Ricardo Navajas, do Suzano, deve estar amargando a incontinência verbal que o levou a destratar Renan, seu colega de ofício. A classe deplorou a grosseria de Navajas. A começar por duas sumidades do vôlei: Bernardinho e José Roberto Guimarães.
- Américo Wanderley, meu dentista, meu sorriso. Ele acaba de receber a Medalha de Honra ao Mérito Odontológico Nacional, por tudo que tem feito pela Odontologia brasileira. Parabéns, querido conterrâneo.
- Em matéria de goleiro, o futebol do Brasil vive dias de esplendor. Dá pra fazer uma seleção de craques da posição. Senão vejamos: Rogério; Clemer, Wagner, André e Dida; Zetti, Veloso e Marcos (do Palmeiras); Carlos Germano, Jean e Danrley. Certamente, haverá mais gente da mesma envergadura, como Emerson e Nei. Se outros me escapam, sou todo ouvidos, leitor.
- Da série ‘‘Lições que o esporte me ensinou’’: ‘‘A bola fita o cabeça-de-área com os olhos mudos da indiferença.’’

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