Perder não é nada; duro é não se achar. Pois foi assim que vi a seleção tomar uma suadeira dos coreanos, domingo de manhã. Dizem os burocratas do assunto que faltou inspiração. Eu diria que o que faltou foi transpiração, que costuma ser fruto da vontade e do esforço. A mim me pareceu que ninguém, ali, estava afim. O corpo estava em campo; a mente, não. Daí, a imprecisão, o alheamento da equipe, notadamente dos criadores, que têm o dever de pensar o jogo. E não é pra menos. Pegar um avião, voar 30 horas e, dois dias depois, ter que pisar num formigueiro. Laborioso formigueiro.
Não é sopa, não. O futebol asiático é e será sempre, assim, meio encapetado. Hoje é contra o Japão. De novo, ninguém espere boa vida. Dizem os japoneses que com eles não haverá tamanha correria. Eles se acham mais técnicos. E sustentam que quem deve correr é a bola. Os brasileiros que não caiam nesse lero. Japonês sabe, como ninguém, esconder o pensamento.
Se a Nike quiser vender suas chuteiras por lá, a seleção vai ter que suar e suar muito, hoje. Se entrar com aquele ar vago, metido a zen que se viu na Coréia, vai acabar estragando a nossa quarta-feira, como aconteceu domingo passado.
Em tempo: jogos como esses, de ocasião, feitos no pior estilo ‘‘embrulha e manda’’, são infalíveis pra queimar jogador. Juninho, Jardel, Zé Roberto podem acabar na rua da amargura, vítimas de uma improvisação absurda, inaceitável.
A caixa registradora
Longe vai o tempo em que todo mundo torcia pra chegar o dia de um Fla-Flu, no Rio, ou de um Corinthians-Palmeiras, em São Paulo. Grenal eram dois por ano; Porto Alegre decretava feriado nacional. O Ba-Vi incendiava os corações baianos. Nos idos de Tostão e Reinaldo, Minas Gerais tiritava de emoção, na véspera febril de um Atlético-Cruzeiro.
Hoje, tantas são as taças, tantos são os campeonatos, tantos os torneios que clássico virou rotina. Banalizou-se. Em apenas um mês, já houve três partidas entre Palmeiras e Corinthians. O calendário é massacrante. Há uma superposição de datas. Nasce um campeonato, a cada dia. Ninguém duvide: está em curso um estúpido processo de vulgarização de clássicos no futebol mundial.
Os cartolas, na sua insana voracidade, entronizaram a caixa registradora como o grande símbolo do futebol.
O cofrinho do Olympikus
Um velho chavão que jogador de esporte coletivo costuma repetir: ‘‘O grupo está unido’’. Na verdade, nem sempre está. Há dissenções que afetam o rendimento da equipe. Quando ‘‘o grupo está unido’’, acontece o que está acontecendo com o time de vôlei da Olympikus. São 22 partidas, 22 vitórias. No começo da temporada, o técnico Renan fixou uma tabela de multas pra atrasos, desleixo no uniforme, desacato aos chefes, bate-boca entre os jogadores. O dinheiro das indisciplinas iria para uma caixinha de poupança da própria equipe.
Até agora, não pingou um único centavo no cofrinho. O comportamento da turma tem sido exemplar. Daí que o técnico Renan pode proclamar, com orgulho, que seu ‘‘grupo está unido’’.
Rápidas e rasteiras
- Toni Ramos me promete um papo de futebol, no Esporte Real. É só uma questão de agenda. A dele, que vive repleta de viagens profissionais, pelo Brasil. Toni é a fidalguia em pessoa.
- Escrevi um pequeno texto, meio sobre o poético, louvando Ana Paula, agora jogando vôlei de biquíni. No dia seguinte, o correio-eletrônico me chegou, com ardentes aplausos masculinos. Agora, os leitores querem um texto sobre a italiana Francesca Piccinini, da equipe do Rexona. Por sinal, moça de uma beleza sem afetação. Por favor, não provoquem este pobre marquês de Xapuri.
- Joana Vianna Garcia, que já foi campeã brasileira mirim de xadrez, vai disputar, na Espanha, o mundial. Joana tem 11 anos de idade e é considerada um fenômeno. Pertence a uma aristocracia de xadrez, orgulho da cidade catarinense de Lages. Boa-sorte, Joana.
- Os coreanos têm todos a mesma cara, o mesmo jeito de jogar. Se bobear, no intervalo, o técnico troca os onze e ninguém percebe. Não é possível que os mesmos onze corram tanto, o jogo inteiro, sem dar o menor sinal de cansaço.
- Luxemburgo admite convocar Romário. Nada mais inteligente. Só no Brasil, um jogador genial como Romário fica fora da seleção. O técnico deve estender seu bom-senso e chamar, também, o Mauro Galvão. Se fosse possível somar o futebol de todos os zagueiros convocados, ainda assim, a soma não daria um Mauro Galvão. O resto é preconceito.
- Marcelinho volta a cair em desgraça no Corinthians. Desafiou o técnico Evaristo, foi hostilizado pela torcida, que o chamou de pipoqueiro e mercenário. Atleta de Cristo com o diabo no corpo?
- No último Fifa News, Sepp Blatter volta a condenar o carrinho por trás. Pra ele, não tem conversa: é obrigatório o cartão vermelho. Infelizmente, por aqui, a coisa já começa desandar de novo: a arbitragem brasileira não está mais punindo devidamente a jogada selvagem do carrinho pelas costas.

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