Um dos assuntos desta coluna, quarta-feira passada, foi a cena em que o zagueiro Gamarra, ao tentar rebater a bola, na boca do gol corintiano, errou o chute, duas vezes seguidas. Um vacilo inimaginável em um jogador da envergadura técnica de Gamarra. O flagrante foi tão grotesco que o próprio Gamarra saiu do lance visivelmente contrafeito.
Como sou um empolgado admirador do futebol de Gamarra, um estilista do jogo, recordo-lhe, a título de consolo, fato semelhante a que assisti, no Maracanã, ali pelo meio da década de 60.
Jogava o Santos, se não me trai a memória, contra o Botafogo. De repente, dá-se o desastre. A bola resolve afrontar sabe quem, caro leitor? Adivinha?
Fiquei tão impressionado com a cena que, no dia seguinte, escrevi uma crônica que, agora, me permito relembrar, transcrevendo um trecho: ‘‘A cantora desafinou? O piloto furou a pista? O soldado errou o passo? O fotógrafo cortou a cabeça do figurão? Ninguém se amofine. Todos estão perdoados, porque eu vi Pelé dar uma monumental furada no Maracanã. Foi assim: a bola lhe chegava à meia-força, rasteirinha. Já vinha como que pedindo a ele: me chuta, me chuta! Pelé armou a perna direita infalível, o gol escancarado, era só chutar. Pois não é que Pelé chutou o vento, a perna subiu pro nada, a bola passou, incólume? Pelé desequilibrou-se, quase caiu no chão. Um vexame. - O Maracanã inteiro não sabia se ria, se chorava. Em campo os jogadores se entreolhavam perplexos.
Dali em diante, baixou no estádio um sopro de maldição. E o jogo, que transcorria fluentemente, subverteu-se como no Apocalipse; e os jogadores principiaram a se estranhar; e foram expulsos beques, goleiros, atacantes; e o campo foi invadido por soldados, de guarda-chuvas abertos; e os gandulas, atarantados, corriam, como zagalos, entre o túnel e o réu, que era o próprio juiz; e a bola do jogo acabou, no centro do campo, esquecida e murcha como uma flor de remorsos.’
O vôlei sem a vantagem
O vôlei, sem a bola da vantagem, melhorou ou piorou? Fiz a pergunta a Bebeto, a Zé Roberto, a Bernardinho e a Radamés Lattari. Nenhum deles deu-me a menor pelota. Vai ver, não leram a coluna. Não há de ser nada. O professor Paulo Russo, não menos ilustre que os ilustres treinadores, responde, assim, à minha indagação:
a) Sem vantagem, ficou mais fácil pro espectador entender o jogo; b) o vôlei ficou mais dinâmico; c) caiu o coeficiente de erros de saque (Brasil-Cuba, na Liga Mundial, teve 51 erros de serviço); d) o desgaste físico dos atletas cai significativamente (o vôlei é campeão mundial de lesões de joelho, ombro, de estresses e de tendinites); e) a qualidade técnica do jogador aparece muito mais.
Em suma, não ter a vantagem é a grande vantagem do novo vôlei.
Rápidas e rasteiras
- Outro dia, pisei na bola: ao falar do paradeiro de Djalma Santos, disse que o ex-craque mora em Uberlândia. Pra que? Uberaba protestou. Cordialmente, mas protestou. O primeiro a reclamar foi o escritor Mário Prata. Fica, pois, o dito pelo pós-dito: nosso herói Djalma Santos, bicampeão mundial (58 e 62), é cidadão de Uberaba.
- Pisar na bola é o mesmo que fazer gol contra. Cometi outro, em recente coluna. Fui confiar em leitura de jornal e sai logo alfinetando Ricardo Teixeira, que estaria querendo trocar Armando Marques por alguém indicado por Farah, da FPF, pro comando da arbitragem na CBF. Ricardo Teixeira não só desmentiu, publicamente, como telefonou a Armando Marques, reafirmando total apoio ao ex-árbitro na presidência da Comissão de Arbitragem da CBF. Minhas desculpas ao presidente da CBF.
- Assisti, outro dia, a um jogo de vôlei que me deixou empolgado: Olympikus, 3 x Ulbra, 1. Foi um recital de técnica, de exuberância atlética. O nome de realce foi Nalbert. Sou um simples espectador de vôlei, mas ousaria afirmar que, no momento, duvido que haja alguém no mundo jogando o que está jogando Nalbert. Fisicamente, tecnicamente, taticamente, mentalmente, Nalbert é o próprio esplendor em quadra.
- Uma que eu não sabia e fico sabendo ao ler o livro ‘‘Darwin’s Athletes’’, do americano John Hoberman: George Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Norman Mailer e Jack London, quando rapazes, tentaram lutar boxe. Pelo visto, não deu certo. A escritora Rachel de Queiroz não tentou lutar mas, como seus colegas de letras, adora boxe. É, aliás, o que ouviremos dela, daqui a dias, em entrevista que ela concedeu ao Programa Armando Nogueira, do Sportv.
- Gilda Mattoso, alma prestativa, me passa o seguinte e delicioso fax: ‘‘Caro Armando, o nosso Arthur Moreira Lima está, desde dezembro, morando em Londres. Faz uma série de gravações pra revista Caras e acompanha o lançamento do CD ‘Piazolla, por Arthur Moreira Lima’. Pois no dia em que o Fluminense derrotou o Lagartense, o Arthur abriu um champanhe, com seu vizinho, torcedor do Manchester United. Depois, tocou ao piano o hino do Flu.’ Já imaginou se o Flu de Arthur faz bonito, hoje, contra o Vasco da Gama?
- Que diabo foi fazer em Brasília Wanderley Luxemburgo? Tudo faz crer que tenha ido dar uma de cabo-eleitoral de Ricardo Teixeira, cuja candidatura à reeleição poderia ser abalada por uma CPI. Não poderia ter sido mais infeliz a atitude do treinador da seleção. Luxemburgo misturou as estações.

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