Na Grande Área (Armando Nogueira)
Fico pasmo! Até por dever de ofício, há quase 50 anos, faço o que posso pra ser claro na manifestação dos meus sentimentos. Pois volta e meia ainda me vejo em situações que só mesmo a falta de clareza pode explicar. Tenho muito que aprender sobre esse ofício do qual, há anos, venho vivendo, com a graça de Deus!
Há poucos dias, condenei o beijo na camisa do time. O jogador que, mal chegado ao clube, faz um gol e sai correndo, a beijar a nova camisa, com um fervor religioso. Pra mim, cheira a média com a torcida. É beijo de aluguel. No dia seguinte, já me chegavam críticas de leitores, dizendo que não é bem assim. Que beijar a camisa é prova de amor, sim senhor. Se não é ingenuidade, só pode ser mal-entendido.
Muito já se falou sobre o beijo, gesto de amor e carinho, expressão de reverência e de amizade entre as pessoas. Existem tratados, ensaios e teses sobre o beijo do ser humano.
Lembro-me de um maravilhoso filme documentário que reuniu os mais famosos beijos de amor da história do cinema. O tema é inesgotável. Tem sopro de vida. Quem não se emociona também com a solidariedade humana do beijo na respiração boca-a-boca? E o beijo nas artes plásticas? Quem pode esquecer a bela série de beijos nas telas do meu amigo Rubens Gerchman? E é impossível ignorar até mesmo o desespero do poeta Augusto dos Anjos, pra quem o beijo é a véspera do escarro... Se formos bem mais longe, encontraremos o beijo perverso, o beijo de Judas...
A grande verdade é que a linguagem dos gestos vive sob risco permanente. Decifrá-la e guiar-se por ela não deixa de ser temerário nesses tempos de sentimentos banalizados. São comuns no esporte, na política e mesmo na vida cotidiana as cenas de inimigos trocando beijos e abraços, embora de coração fechado a sete chaves.
Não, não desprezo o jogador que beija a camisa do seu time numa explosão de sinceridade. É o beijo do gol que sacramenta a identificação do ídolo com a torcida. E que nada tem a ver com o beijo estalado como trunfo pra cortejar a multidão. Eu jamais questionaria o beijo de Zico na camisa do Flamengo, depois de um gol. Ou o de Júnior. Amor curtido, desde menino. Ou o de Nilton Santos, que passou 20 anos exaltando a camisa só do Botafogo. Alguém pode duvidar de Dudu, se ele um dia beijasse o escudo do Palmeiras? E do beijo de Pelé, exaltando a camisa do Santos? Alguém poderia desconfiar de demagogia barata?
O mundo do esporte cada vez mais se mercantiliza. No futebol de negócios, em que o jogador muda de camisa com a frequência com que a lua muda de fase, o beijo tipo amor à primeira vista não me convence. É falso amor. Não precisa fingir, rapaz. Basta honrar o emblema do clube com o suor do teu próprio corpo.
No futebol, amigo, o beijo tem tudo a ver com o tempo de casa...
Retalhos da semana
Luxemburgo fala mal dos técnicos europeus. Diz que os brasileiros são bem melhores. Creio que nosso amigo Wanderley perde uma excelente oportunidade de ficar calado. Primeiro, que não é verdade; segundo, que a declaração é uma descortesia. Outro técnico, Emerson Leão, do Santos, acaba de sentir na carne os efeitos de sua infeliz exaltação ao recurso da falta: no clássico com o Palmeiras, dois santistas foram expulsos por abuso da falta. Não, caro Leão, a falta não faz parte do jogo, não; faz parte, sim, mas do antijogo. O que faz parte do futebol é o prodigioso poder de driblar que tem demonstrado o atacante Alessandro. Se não é fogo de palha, Alessandro vai acabar, mesmo, na seleção, com seu repertório de fintas, de gingas, de peneirações, virtudes do fascínio que o futebol brasileiro herdou da capoeira.
Ronaldinho foi ao Vaticano pedir a benção do céu pra seu joelho. Já que está na Itália, devia dar, também, um pulinho no Inferno de Dante, pra encomendar ao Satanás a alma dos empresários e cartolas que enriquecem à custa de seus inocentes tendões.
Há times de futebol com os quais a bola tem que suar sangue pra sobreviver. O Botafogo de Espinosa é um deles. Que dizer de uma equipe que, no começo do segundo tempo com o Itaperuna, já tinha cometido 30 faltas contra apenas 18 do rival? Tenho, todos sabem, uma quase secular admiração pelo Botafogo. Venho de outras eras: Heleno de Freitas, Tovar, Nilton Santos, Garrincha, Didi. Tantos quantos fizeram meus encantos. Ainda bem que o tempo vem baixando a bola de minhas remotas paixões. Senão, eu já teria sucumbido à indigência do atual time do Botafogo. Que, em campo, me lembra muito a melancolia das águas paradas.
Rápidas e rasteiras
- Guga deu um show de tênis contra o austríaco Thomas Muster (6/2 e 6/4). E a quadra de Indian Wells, nos EUA, não faz bem o seu gênero, embora não seja tão rápida. Foi uma exibição daquelas de Roland Garros, quando derrotou, entre outras feras, o próprio Muster. No momento, Guga está em 5º lugar em eficiência de saque. Tem 85 por cento de acerto no primeiro serviço, o que é muita coisa. Antes dele, estão o holandês Krajicek, o inglês Rusedski, o australiano Philippoussis e o croata Ivanisevic.
- Jogo Palmeiras 1 x Santos 1. Um jogador, creio que do Santos, reclama de qualquer coisa, em lance irrelevante. O árbitro Alfredo Loebeling, num gesto afrontoso, peita, literalmente, o jogador. Positivamente, o moço confunde força moral com força física. Confunde autoridade com prepotência.





