Na Grande Área (Armando Nogueira)
Se o dinheiro e a fama não fizerem o mal que costumam fazer no futebol, pode escrever, caro leitor: o Vasco da Gama deverá ser o dono da bola no Brasil de 1999. Assim será, no campeonato estadual. Assim foi no Rio-São Paulo, em que acaba de desbancar equipes da envergadura de Palmeiras, Corinthians e Santos. Assim poderá ser no Campeonato Brasileiro. É, sem dúvida, a equipe mais técnica, mais brilhante e mais empolgante do Brasil.
Vive o Vasco um período tão esfuziante, tecnicamente, que se pode afirmar, sem exageros, que hoje o futebol do Rio é ele e ninguém mais. Flamengo, Botafogo e Fluminense não passam de meros sparrings de um grande campeão. É um notável protagonista, seguido de esforçados coadjuvantes.
Vendo jogar o Vasco, a exibir um futebol prodigioso, só podemos dar graças a Deus. Um time assim redime o futebol de nossos dias, tão sitiado de mazelas. E pensar que passamos, anos e anos, a ouvir que, no futebol moderno, não havia como escalar mais de dois atacantes. Que a nova ordem era empilhar, na meia-cancha, jogadores de marcação, de destruição. Que, ali, naquele pedaço, craque, mesmo, só havia lugar pra um. Era o tal número UM que o professor Zagallo inventou pra tornar ainda mais indecifrável a numerologia do jogo.
Pois o Vasco da Gama faz a festa dos estádios com cinco atacantes, que, em certos momentos, chegam a ser seis, sete. Ou alguém ousaria dizer que Felipe e Vágner não são jogadores de raro poder ofensivo? Nesse quesito, o Vasco relembra o Corinthians, que conquistou o Campeonato Brasileiro de 98 esbanjando categoria e grande poder de fogo.
O segredo do futebol segue sendo um só: uma alta dose de talento e muito empenho. Suor e auto-confiança, dentro e fora de campo. Exatamente o que se vê na equipe do Vasco da Gama, cujo treinador jamais procura complicar o figurino do jogo. Escala os melhores, faz as trocas sugeridas pelas nuances da partida. Tempera a equipe com os ingredientes certos, na medida certa. Enfim, nada mais que a receita de um time excepcional.
O resto é mistificação.
Poesia de músculos
Amanhã, Dia Internacional da Mulher.
Às musas do esporte brasileiro, o meu respeito.
Mulher. Os homens te sonhavam santa. Santa, a desfiar preces no recesso dos templos. E, no entanto, aí, estás, assumida, na ponta dos pés, a correr ao encontro de ti mesma.
Os homens te cantavam flor, não mais que pétalas, como se tua vida não fosse espinhos também.
E, no entanto, aí estás, criatura de Deus, assombrando o mundo com a poesia dos teus músculos.
Mulher!
Pelo triunfo que te eterniza,
pela bravura que te faz mais bela,
Louvada, sempre serás, assim na terra como no céu.
Rápidas e rasteiras
- O leitor Agnaldo Bertolo me conta, via e-mail, que presenciou a seguinte cena: o filho dele, de ano e meio, está chutando uma bolinha, dentro de casa. A mãe acena com a mamadeira: Filho, você quer a bola ou a mamadeira? A mamadeira dançou feio. Há certas perguntas que não se deve fazer a um brasileiro de fé.
- Lúcia Ritto me manda o livro-album Futebol-Arte. É uma obra excepcional. De um bom-gosto superlativo. Jamais se editou nada igual, no Brasil. É luxo só. Meus parabéns a Lucia e aos co-autores da obra, Jair de Souza e Sérgio Sá Leitão.
- Há dias, pedi notícias de Manga. Fico sabendo que a figura mora em Miami e tem lá uma escolinha de goleiros. Dá aulas de futebol em inglês e em espanhol. Manguinha, com aquele português deliciosamente capenga, acabou poliglota. Quem diria, gente!
- Batendo papo com Lima Duarte, cometi um vacilo tremendo: Tratei-o como se fosse torcedor do Palmeiras. Ele reagiu, no ato: Por favor, sou São Paulo até na saliva!
- Se os cartolas do Rio não fossem tão alienados, mandariam rezar, uma vez por mês, missa de aleluia pela Rede Globo de Televisão. A Globo vem salvar do naufrágio um campeonato que o Caixa DÁgua vinha matando, impiedosamente, há 15 anos.
- O programa Cartão Verde, da Cultura, está celebrando seis anos, no ar. Um abraço ao Flavio Prado, ao Trajano, ao Juca e à turma dos bastidores, notadamente, o Mutum, que é um dos meus produtores preferidos.
- Um leitor pede que eu fale um pouco mais sobre Maneca, um dos maiores jogadores da história do Vasco da Gama. Qualquer dia desses, falarei, com grande alegria.
- Além do Vasco, brilhante vencedor do Rio-São Paulo, medalha de ouro também pro Quico, dono da SportPromotion, que organiza o torneio. Quem conhece o Quico só pode ficar contente pelo êxito de seu empreendimento. Trata-se de alguém capaz de produzir eventos esportivos com seriedade e transparência.
- Parece mentira, mas é pura verdade: soa o gongo, 1º assalto. Os dois lutadores se estudam, bailando no centro do ringue. M. Harvey Gartley desfere o primeiro soco. O adversário se esquiva e o direto, curto e potente, pega no queixo do próprio Harvey. Nocaute fulminante. Aconteceu nos Estados Unidos, em fevereiro de 1977.
- Felipe ou Serginho. A equação, pra mim, está mal formulada. Não é Serginho ou Felipe. É Serginho e Felipe. Felipe, ali pelo meio, e o carregador de piano que se vire.





