Estamos na semana do Cronista Esportivo. Como não sou outra coisa na vida, alguém se lembrou de mim. A bela Cissa Guimarães me entrevistou, no Vídeo Show. Penso: se me distinguem, não há de ser por grande coisa. O cronista esportivo não faz gol, nem cesta, nem jamais enterrou uma boa cortada. Quando muito, às vezes, faz barretadas com o chapéu alheio.
Como já escrevi, o cronista esportivo vive mortificado na cruz atroz da equidistância. É tão solitário quanto o árbitro, esse injuriado ponto morto do jogo de futebol. Que tal, caro leitor, um ofício em que você entra com a razão e o resto do mundo, com a paixão? Mais dramático ainda: e tudo isso, sem que você possa escapar à torrente de emoções que rola, atrás de uma bola.
Sabe lá, leitor, o que seja pretender a isenção diante de duas delirantes verdades? O espaço partido ao meio, o tempo partido ao meio, o coração partido ao meio. Um devaneio sem começo, nem fim.
Há mais de 40 anos, tento arrancar do meu coração o doce espinho de uma insopitável paixão clubística. Ah, que saudades que eu tenho de meus tempos de torcedor, que os anos não trazem mais!
Cronista esportivo: profissão ou provação?
A mão e a bola
Tenho uma antiga convicção: jogador de futebol, de modo geral, não conhece as regras do jogo. Agora mesmo, em João Pessoa, Romário confessou que uma certa bola bateu no braço dele, assumindo, assim, que, de fato, cometeu uma irregularidade, no lance de um de seus dois gols. Moral da história: ou Romário ignora a lei do jogo ou não soube se expressar. Mão na bola não tem nada a ver com bola na mão. Se não houver clara intenção de viciar a jogada, a bola pode bater, quantas vezes quiser, seja no braço, no antebraço ou na mão. O jogo deve seguir, normalmente, como se a bola tivesse tocado no peito, na barriga ou na coxa do jogador.
O árbitro de futebol é um juiz de intenções: não julga o ato, julga o ânimo do jogador.
Rápidas e rasteiras
- Em recente coluna, pedi notícias de Djalma Santos. De bate-pronto, o nosso brilhante Mário Prata me conta: ‘‘Há uns 15 anos, a filha do Djalma Santos entrou na Faculdade de Medicina de Uberaba e ele foi morar com ela, lá. Ela se formou, se mandou e o Djalma gostou da minha terra natal. Está morando lá, até hoje. Como tantos, tem sua escolinha de futebol. Corpinho de trinta’’.
- A cabeça do dedão do pé de Valber está avariada, faz tempo. E o rapaz não fica bom. Como a outra cabeça também não é lá para que digamos, o Botafogo resolveu confiná-lo na concentração, em regime de cárcere privado.
- E por falar em cabeça, a de Ronaldinho, santo Deus! Dá pra entender que, na inatividade, ele tenha engordado seis a sete quilos?
- O deputado Aldo Rebelo não vai dar sossego à CBF. Quer por o Congresso nos calcanhares de Ricardo Teixeira, com uma Comissão Parlamentar de Inquérito. O deputado paulista quer esmiuçar tudo: balanço, contrato com a Nike, mordomia na Copa do Mundo. Aliás, essa história de levar magistrados pra ver o Mundial deixa mal, muito mal, o Judiciário do Rio.
- Derrotado no Maracanã, o Santos está, há três dias, jogando, psicologicamente, a decisão de logo mais, no Morumbi. O técnico Leão tenta fazer a cabeça da equipe. É difícil, diz ele, mas não impossível. Acha que dá pra fazer pelo menos dois gols no time do Vasco, de olho nos pênaltis. Sempre considerei a mente mais poderosa que os músculos. Não sei é se dá pra tanto. Derrotar uma equipe como a do Vasco, por uma diferença de dois gols, é mais que prodígio; é puro milagre.
- Muito se fala do talento de Felipe. A começar por mim, que o considero um jogador extraclasse. Como extraclasse é o zagueiro Mauro Galvão. Mas, entre os craques do Vasco da Gama, há um que me empolga: é Juninho. Pela clarividência, pela sobriedade, pela técnica individual, pela constância, pela solidariedade. Reencarnação do saudoso e deslumbrante Maneca, dos anos dourados do Expresso da Vitória.
- Os amigos me perguntam quando reaparece o Esporte Real, do qual participo, ao lado de Renata Cordeiro, no Sportv. Pelo andar do barco, o programa recomeça no fim de março, com nova equipe de retaguarda e já não mais com o mesmo nome, Esporte Real.
- Um bom tema pra agenda do ministro Greca, do Esporte, é investigar, pra valer, os bastidores do doping no futebol brasileiro. A droga é questão de saúde pública e, assim, está sendo tratada pelos governos da Itália, da França e da Inglaterra. Aqui, no Brasil, o doping ainda é caixa-preta total.
- Mac Enroe deixa de lado a guitarra, o microfone de comentarista e diz que, aos 40 anos, ainda é o melhor duplista do tênis americano. Será? Ele quer jogar dupla na Davis.
- Nos carnavais dos anos 50, fez sucesso um samba, com um refrão que dizia assim: ‘‘Fica doido varrido quem quer, se meter a entender a mulher’’. Repertório de Silvio Caldas. O verso se aplica ao futebol: em vez de mulher, diga-se torcedor. Pois não é que recebi alguns e-mail’s achando muito natural que uma equipe cometa tantas faltas quantas quiser. Recebo cada torpedo de endoidar.

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