Na Grande Área (Armando Nogueira)
O Vasco da Gama tem sido o melhor exemplo do bom futebol que se joga no Brasil. Tem craques, tem brio e tem um estilo de encher os olhos. Ainda agora, acaba de mostrar o seu valor, derrotando o São Paulo, em pleno Morumbi, classificando-se à final do Rio-São Paulo. Pelo que tem feito, há dois anos, a equipe do Vasco, não tenho dúvida de que a decisão, que começa hoje, contra o Santos, será um belo programa de domingo.
Entrou na semifinal, nitidamente desafiado pelo anfitrião, que levava sobre ele a vantagem do empate. Não é pouco, principalmente sabendo-se que o São Paulo jogava no seu próprio terreno, e com o calor humano da sua fervorosa torcida. Um São Paulo de trajetória marcante, no torneio.
Pois o time do Vasco foi lá, batalhou, batalhou, e se impôs ao rival, com uma vitória líquida e certa, na justa medida do espírito de luta de seus craques. Que não são poucos. É só contar: primeiro, Carlos Germano, goleiro que costuma pegar até pensamento; Mauro Galvão, que dá luzes à sua defesa, impondo-se com o olhar absoluto dos regentes da grande área. À esquerda dele, está Felipe. Pode haver coisa mais cristalina, no futebol de hoje, além do talento desse rapaz? Felipe, par constante de Juninho e de Ramon, nas tramas ofensivas da equipe vascaína.
Bem contados, são cinco craques. É o quanto basta pra criar uma grande equipe. Ao lado desse respeitável elenco de astros, contam-se coadjuvantes como Zé Maria, Luisão, Donizete e um zagueiro de explosão, o retinto Odvan, que, se não reza pela cartilha refinada de Mauro Galvão, nem por isso deixa de ser tão útil à defesa vascaína. Odvan faísca e troveja.
A decisão do Rio-São Paulo, hoje, é contra o Santos, time que tem sido o grão-tinhoso do torneio. É, com absoluta certeza, a equipe mais obstinada do momento. A mais concentrada na sua batalha. Ninguém refresca, ninguém pisca o olho. Mais que implacável, essa equipe chega a ser belicosa. É recordista de faltas no Rio-São Paulo. Algumas brutais. O técnico Leão não contesta. Diz que falta faz parte do jogo. Não é bem assim. Uma arbitragem enérgica tem o dever de coibir o recurso abusivo da falta. Truncar sistematicamente o andamento da partida, seja por cera, seja por falta, é transformar o jogo em anti-jogo. Passível, portanto, de punição.
Pois o time do Santos não tem feito outra coisa, no torneio. E é uma pena que assim seja porque, quando tem a posse da bola, o time de Leão organiza muito bem seus ataques, valendo-se de jogadores de estilo insinuante como Alessandro, Eduardo Marques, Viola e Marcos Assunção.
Uma decisão não comporta prognósticos. Há mil variáveis que podem contribuir pro desfecho de uma partida. A melhor coisa, numa hora dessas, é torcer por uma tarde de bom futebol. Como bem merece esse brilhante Torneio Rio-São Paulo.
Rápidas e rasteiras
- De Nova York, me escreve o compositor Vinícius Cantuária, botafoguense frenético: Devo ir ao Rio, em março, pra lançar meu novo CD, Tucumã. Que venha, pra alegria dos amigos.
- A ficha de Eurico Miranda corre mundos. A revista inglesa World Soccer começa, assim, um perfil do sinistro cartola: Miranda só se sente feliz quando consegue espalhar o caos, seja qual for o campeonato.
- Se curiosidade matasse, eu já estaria morto, ansioso por ver e ouvir a Ópera do Futebol, composta pelo vascaíno e fidalgo maestro Francis Hime.
- O acreano Valden Rocha, que foi barrado com a família, na sede do Flamengo, mandou um fax ao presidente Edmundo Silva. Teve silêncio como resposta. Custava dar uma satisfação ao torcedor desfeiteado pela portaria do clube?
- A experiência de futebol com dois árbitros ficou pro ano que vem. A câmera do gol, também. A Fifa é devagar e... nunca.
- E por falar em saudade, onde anda você, Djalma Santos? O futebol brasileiro não pode ignorar os teus 70 anos, completados esta semana.
- Antes do jogo com o Santos, escrevi que o time do Botafogo não passava de um bom exemplo de mediocridade técnica. Veio a partida, sobreveio a vitória do Santos, mansa, mansa. Fui dormir, achando que minha análise prévia tinha sido muito generosa. O time do Botafogo é uma flor de melancolia.
- Evaristo de Macedo assume o Corinthians, anunciando uma equipe de pegada forte no meio-campo. Já sei: o homem põe fé no estilo gladiador, o mesmo que ele montou no Flamengo, com Cleisson, Maurinho et caterva.
- Vi a final de Amsterdã, entre Kafelnikov e Tim Hanman. Com todo respeito pelo entusiasmo de Dácio Campos, o tênis de Kafelnikov é conservador demais pro meu gosto. Venceu, sim, mas não chegou a aguçar a minha adrenalina.
- Pinga carta, pinga e-mail, todo mundo querendo me ouvir sobre a atitude de Edmundo, no Carnaval. Em pleno Campeonato Italiano, Edmundo se mandou da Fiorentina e veio desfilar no Salgueiro. Teve sinal verde do clube, sim, mas o time estrilou. Considerou falta de companheirismo. Minha opinião: o gesto não me surpreendeu. Edmundo, no campo, é um capeta. Na vida, é, como diria o poeta, frívolo e peralta.
- Um flagrante do Rio: periodicamente, um jardineiro anônimo apara e rega a grama de um pequeno canteiro, na Lagoa Rodrigo de Freitas. É precisamente o lugar do acidente de carro que matou Dener, o príncipe do drible. No batente do canteiro, uma placa em aço escovado com os dizeres saudosos: Aqui, morreu um poeta do futebol: Dener.





