Quarta-feira de cinzas. Era para qualquer mortal estar descadeirado. Mas, não. O coroa inglês parecia um garotão, fogoso. Chegara ao Rio, de sexta pra sábado, num pacote de Carnaval. Saíra na banda de Ipanema, desfilara na Viradouro e na Mangueira, andara de baile em baile, encharcado de caipirinha e só reapareceria no hotel às sete da manhã de quarta-feira. Pra variar, atracado com uma saltitante mulata.
À noite, devia estar embarcando de volta à Inglaterra. O amigo brasileiro, porém, acenou-lhe com duas tentações: o embalo da escola campeã e um jogo de futebol, para o qual já tinha até comprado dois ingressos.
O mister, rápido, transferiu a viagem ‘‘por motivo de saúde’’ e embarcou na do anfitrião, feliz da vida.
Um programaço! Depois do agito do samba, o futebol. E que futebol: Fluminense e Vasco da Gama! Mister Lee estava tão excitado que ia esquecendo no quarto a gravadora, com a qual vinha documentando, lance por lance, o viço e o esplendor do Carnaval.
Agora, filmará o Maracanã. Pode haver maior ventura? No mesmo teipe, o melhor do samba e o melhor do futebol. É a própria alma brasileira, pulsando no binômio da alegria cabocla.
O time do Fluminense já está em campo, quando os dois chegam ao Maracanã. Lá está, também, o árbitro. Bola no centro. Estádio vazio.
- E o Vasco da Gama? - pergunta o mister.
O amigo diz que o adversário está noutro campo, também prontinho, só aguardando o apito do juiz pra bola rolar. O inglês quase cai da cadeira. Não entende nada. Pede, gentilmente, que o outro lhe explique essa intrigante charada.
É o seguinte: a Fifa está recomendando que os filiados façam experiências pra modernizar o futebol. A Itália, nesse momento, testa um jogo com dois árbitros em campo. Na Alemanha, já está valendo o olho eletrônico que deslinda gols duvidosos.
Aqui, no Brasil, vamos testar, também, a arbitragem dupla. Quando jogam times da mesma cidade, usam-se dois campos, em bairros diferentes. No caso de um Botafogo e Corinthians, que são de cidades distintas, um joga num campo do Rio, o outro, num de São Paulo. Daí, o torneio se chamar Rio-São Paulo...
- Forgive me, but I don’t believe!
- Podes crer! - responde o amigo, que, diga-se de passagem, traça um inglês esperto.
- Quer dizer que o Vasco da Gama, nesse momento, está noutro campo? That is so strange!
- Pode parecer estranho, mas sabe que não deixa de ser interessante? Nem digo que vá dar certo, mas que tem cá suas vantagens, eu acho que tem, sim.
E enumera as conveniências de escalar os dois times em campos diferentes, um, bem longe do outro: de cara, vai cair para zero a violência nos estádios. O que incendeia o jogo de futebol é o atrito, o corpo-a-corpo. Não vai mais haver carrinho em campo, nem morteiros na arquibancada. O juiz não será mais tão xingado, nem haverá invasão de campo. Outra vantagem: o pênalti e o impedimento, tradicionais motivos de tumulto, de aborrecimento, praticamente vão desaparecer do futebol.
A explanação é ali mesmo ilustrada com o time do Fluminense que está batendo bola, em total descontração.
- E como é que termina um jogo assim, nesse sistema? - pergunta o mister, ligeiramente escabreado, com a virtualidade da competição.
- Bom, no fim do jogo, vai haver lá e cá, uma cena de ‘‘fair play’’ explícito: jogadores e árbitros vão se cumprimentar, efusivamente. Haverá a indefectível troca de camisas...
- Entre os dois times?
- Certamente. Os próprios árbitros recolhem as respectivas camisas, lá e cá, levam pra casa, mandam lavar e, no dia seguinte, despacham pelos correios para os jogadores. É uma coisa muito civilizada. Idéia feliz de um imaginoso cartola chamado Caixa D’Água. ‘‘Water-Box’’, em inglês.
- E como é que se sabe quem venceu o jogo?
O rapaz embatuca.
- Mas, não há de ser nada -sai de fininho... - Deixa o teu endereço, de Londres, que eu te mando fax, com o nome do vencedor. Deve sair até o final da semana.
E lá se foi o mister, levando na gravadora as imagens inesquecíveis de duas disputas insólitas, um do futebol, outra, do carnaval: o jogo surrealista entre Fluminense e Vasco e o arranca-rabo entre duas peruas, na segunda noite das Escolas de Samba. Foi no desfile da Caprichosos de Pilares, com o enredo do professor Ivo Pitangui. O Pitangui é o mago da cirurgia plástica. É o bisturi de ouro. Ele refaz peças do corpo da mulher que Deus, às vezes, faz com uma certa má vontade.
Uma das moças reconhece, no busto nu da rival, um par de peitos igualzinhos aos dela. Põe a boca no mundo, desmascarando a contrafação.
- Você roubou os meus peitos!
- Cala boca, sua petulante! Você é uma perua despeitada!
E mister Lee, em pé, ao lado, fanatizado, a aguçar, com olhos afoitos, aqueles peitos túmidos de silicone e pecado.

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