Na Grande Área (Armando Nogueira)
O acreano Valden Rocha viajou cinco mil quilômetros, ele, a mulher e três filhos, de Rio Branco até o Rio. O programa, por anos e anos sonhado, era conhecer a cidade e, principalmente, visitar o Flamengo, paixão da família. Alma embandeirada, a família chega à sede rubro-negra.
É domingo - diz o porteiro - e domingo não é dia de visitas. Que voltassem terça-feira. Voltaram, o coração palpitando de esperanças. Comprariam camisas, levariam flâmulas autografadas. Quem sabe dariam uma sorte e cruzariam com o Romário? Seria a glória. Já pensou? Chegar a Rio Branco, com uma foto ao lado do ídolo maior?
Terça-feira. Lá está em peso a família Rocha: Valden, a mulher, dona Rosa e os meninos Marcelo (oito anos), Roraima (12) e Pedro Henrique (três). A porta, semi-aberta, deixa entrever um cartaz, anunciando o preço da visita: adulto, 10 reais, criança, cinco. Valden não conversa: mete a mão no bolso, decidido a pagar o que fosse pelo privilégio de contemplar, de perto, o gramado rubro-negro.
- Sinto muito, diz o porteiro, com cara de antevéspera, só pode visitar o clube se for na companhia de um sócio.
Valden não conhece ninguém. Tenta resolver a situação, jogando uma conversa. Não convence. O porteiro é inflexível. Nunca ouviu falar no Acre. Só falta perguntar se fica no Brasil! Imagino a cena. Também sou acreano. Quando cheguei ao Rio, há muitos anos, era muito pior. As pessoas caíam das nuvens quando eu confessava que era do Acre. Achavam que eu vivia da pesca e da colheita de frutos naturais...
Valden e família foram friamente barrados na porta do clube do seu coração. Se o Flamengo é, de fato, uma religião, os fiéis Valden, Rosa, Roraima, Pedro Henrique e Marcelo foram impedidos de entrar na igreja de seu fervoroso credo. Nem por isso, deixarão de amar o Flamengo sobre todas as coisas.
Mas que dói, dói.
A ordem é arremeter
Há poucos dias, num vôo da ponte-aérea, o 737 refugou o pouso, já em plena reta final. Todo mundo a bordo percebeu e se assustou. O comandante encheu a mão, fez curva à direita e foi aproar a cabeceira oposta, onde fez um pouso normalíssimo. A moça ao meu lado, cara de desagrado, me pergunta se o piloto tinha ficado maluco.
No pátio, já desembarcados, expliquei à minha companheira de viagem que, certamente, o comandante tinha sido surpreendido por uma súbita mudança na direção do vento. Se pousasse de primeira, vararia a pista. Mais tarde, minha suposição se confirmaria. A arremetida fora uma decisão providencial. E reproduzi, então, uma reflexão que, há muitos anos, ouvi de um dos mais lendários pilotos da Varig, o saudoso comandante Lili Pinto, pai de meus queridos amigos Fernando e Geraldo Pinto:
Armando - me dizia o comandante Lili Pinto, ao ver um ultraleve varar a pista e se desmantelar no matagal - o cemitério, meu amigo, está cheio de pilotos que, por pura vaidade, não quiseram arremeter...
O reino da Fifa
Faz-de-conta que deu a louca nos cartolas e a Fifa caiu nas minhas mãos, por 24 horas. No primeiro minuto de meu reinado, eu já teria baixado uma medida provisória, com os seguintes finalmentes: fica banido, para todo o sempre, o carrinho, venha de onde vier: de trás, de frente, dos lados; fica banida a barreira. Jogador que tentar retardar a cobrança da falta, olho da rua, sem apelação; de hoje em diante, impedimento só a partir da linha da grande área que, pra tal efeito, seria prolongada até as laterais do campo; os árbitros passam a ser integralmente profissionalizados; fica ampliado o poder do bandeirinha pra aliviar o fardo de obrigações do juiz principal; fica valendo novo critério de pontuação pros cartões amarelos. Não é justo que tenham o mesmo peso uma simples reclamação e uma entrada violenta; fica instituído o sistema de vídeo-arbitragem pra determinar se a bola transpôs, de fato, a linha de gol; fica valendo o critério de três pontos por vitória, mas o empate passaria a valer só meio ponto; será expulso de campo, por requinte de hipocrisia, o jogador que celebrar um gol, beijando a camisa do time.
Rápidas e rasteiras
- Respeitáveis publicações como The Economist e, no plano esportivo, Sports Illustrated, estão baixando a lenha no Comitê Olímpico Internacional, pelo escândalo das propinas aos conselheiros do COI. O primeiro alvo das condenações é o próprio Juan Samaranch, que dirige a entidade com a mesma mão de ferro que aprendeu a usar quando ministro de estado na ditadura Franco.
- O biquíni das jogadoras de vôlei de praia não pode ter mais de seis centímetros (medidos nas laterais do short). É decisão da Confederação Internacional de Vôlei. Os caras, mais que vestir, querem mesmo é despir as meninas.
- Por que será que as federações esportivas não limitam o mandato presidencial? É um escândalo que o sujeito se eternize no comando da entidade, ignorando a prática saudável da rotatividade no poder, essência da democracia. Havelange ficou 24 anos na Fifa, Samaranch vai pra 22 anos no COI, Ricardo Teixeira, já, já, bate 15 anos de CBF, Caixa Dágua pretende morrer presidente da Federação do Rio - e assim por diante.
- O ultramaratonista americano Ted Corbitt passou o seu aniversário, semana passada, caminhando. Andou durante seis horas, consecutivas. Corbitt está celebrando 80 anos de idade.





