Na Grande Área (Armando Nogueira)
Acabo de ler Le Dico du Foot, um livro gênero enciclopédia, escrito pela jornalista francesa Christine de Montvalon. Vai de A a Z, destrinchando palavras e expressões usadas em futebol. No verbete Olé, depois de explicar a origem da exclamação (a palavra é espanhola, tomada à platéia da tourada pela multidão do futebol), o dicionário transcreve um texto sobre Garrincha, atribuído aos acadêmicos José Sergio Lopes e Sylvain Maresca, com o seguinte título: O desaparecimento da Alegria do Povo (La disparition de La Joie du Peuple).
Sinto muito ter que meter minha colher nessa história, mas, até prova em contrário, o texto em questão, por sinal muito charmoso em francês, não é como diz o livro, de autoria dos dois supracitados. O autor da crônica é este pobre marquês de Xapuri. Estou certo de que o cochilo não é dos brasileiros citados e sim da editora francesa.
Transcrevo o pedaço da crônica que se chama O Anjo que dribla e que está na página 74, do livro O Homem e a Bola, lançado em 1986:
- Saibam os matemáticos que muitas vezes ele parecia deixar no meio do caminho, às quedas, seu próprio centro de gravidade; e continuava, em pé, pela direita, fluente como uma queda dágua.
Lançado no processo do drible, transfigurava-se: era Chaplin, esculpindo no vento uma sucessão maravilhosa de gestos cômicos; era o toureiro, inventando verônicas que a multidão saudava, cantando olé; era São Francisco de Assis, engrandecido na humildade com que sofria os pontapés do desespero.
Aquele drible pela direita, que era a negação do drible porque sabido de todos, em todos os campos do mundo, fez milionários sem conta. Chegava à linha de fundo, os beques cercando a área, o espaço minguando... um metro, meio metro, ele não tem mais campo, vou dar o carrinho agora. Amarga ilusão: para um drible dele, a superfície de um lenço era um latifúndio.
Em domínio público
O gol de Romário, o primeiro contra o Corinthians, domingo passado, foi devidamente cantado em verso e prosa por quantos viram consumar-se uma obra-prima. A começar por mim, que escrevi uma crônica sobre a jogada. Faltou-me registrar um lance sublime da história: depois de fazer o gol, Romário isola-se do resto do elenco, e, num claro do campo, faz uma evolução de mestre-sala, cruza as pernas, e reverencia a platéia a quem oferece o gol-troféu.
Tive, então, a nítida sensação de que Romário encarnava, naquele momento, um grande artista, em pleno palco, agradecendo a consagração da própria torcida do Corinthians. Personagem e multidão, contentes todos de ver uma obra-prima, ainda fresquinha, cair em domínio público.
Inesquecível.
Um caso de Procon
Lauro Araújo, meu velho e querido mentor informático, me corrige: foram 46 e não 40 as faltas cometidas pelo time do Santos, no jogo com o Vasco da Gama. Quarenta e seis do Santos mais 30 do Vasco da Gama perfazem um total de 76 faltas. Recorde absoluto do Rio-São Paulo. E o dito Lauro avança as seguintes considerações: Ora, a cartolagem diz que aboliu a expulsão automática pra não privar os times de seus craques e, assim, assegurar um bom nível técnico. O argumento cai por terra, quando se vê subir o índice de faltas espantosamente.
Um jogo com esse Santos x Vasco não é um bom pretexto pro torcedor testar a eficiência do Procon?
Rápidas e rasteiras
- Essa é pra quem gosta de tênis (e moça bonita): a russa Ana Kournikova, uma gracinha, bateu mais um recorde: no Aberto da Austrália, em apenas quatro jogos, cometeu 73 duplas faltas. Deve sacar, pensando na morte da bezerra...
- Sérgio Manoel tem sido o mais eficiente jogador do Botafogo. Além de boa técnica, o atacante joga com três corações: um, no peito propriamente dito e mais dois nos peitos dos pés.
- De um leitor que não assina o e-mail, recebo a seguinte sugestão: em jogo de que participe Romário, deve-se cobrar couvert artístico e não simples ingresso. Nada mais justo.
- Paula, mesmo padecendo de lombalgia, entra em quadra e sai como cestinha. A moça é mesmo o seguinte.
- Alguém me pergunta se é correto falar assistência em vez de passe. Já dei minha opinião a respeito: é, simplesmente, infeliz a nova mania. Já imaginou, leitor, Didi, o homem que passa, fazendo assistências? Um pavor!
- Na correspondência da semana, um e-mail em que Nelson Pinto Melo lamenta que só agora esteja eu descobrindo o futebol de Romário. Ora, amigo, não é de hoje que exalto o talento do craque. É só ler o que andei escrevendo durante as eliminatórias de 94 e, mesmo, ao longo da Copa. É bom não esquecer que Romário passou anos no exterior, longe do nosso cotidiano. Quando jogava na Holanda, nem teipe chegava por aqui. Desconfio que só agora seu Nelson esteja me descobrindo como cronista.
- O pessoal da Fiorentina está sentido com o gesto de Edmundo, que abandona o time, em plena competição, e vem brincar o Carnaval no Rio. Não me digam que não sabiam que Edmundo é fundador da Escola de Samba Unidos da Pá Virada?





