Mas o que é aquilo, meus amigos? O personagem me entra na área, pela linha de fundo, como se fosse um penetra. Não cumprimenta ninguém. Podia perfeitamente dizer: bom dia, ‘‘seu’’ Amaral. Ultrapassa-o, zen, como um irmão budista. Silencioso, como um frade trapista. Desborda-o, gentilmente, com um drible mágico. Trata-o como um ponto morto. Avança com a bola atada aos dois pés, numa coreografia de equilíbrio e astúcia que ambos executam, há séculos, tocando de ouvido. Nem parece que leva nos ombros o peso da gravidade, símbolo de todas as forças que conspiram contra o movimento.
Passa-se uma eternidade e o processo não culmina. Agora, o personagem infiltra-se, qual um peixe, por entre as águas da linha de fundo e um coral de pernas. Leva, atada aos pés, a bola enfeitiçada. Por que terá ele escolhido trajeto tão árduo? Caminho sem horizonte. Só pode ser capricho do instinto. Vejo-o tão colado à trave direita que, certamente, não ousará o chute sem ângulo. Pois em vez do passe, ele prefere mesmo o chute inimaginável. A bola, então, nem discute: vai em frente e, repassada em doce efeito, entra no gol, leve como uma pluma.
Quem, além dele, seria capaz de tramar o que ele tramou, ali, naquela nesga de chão? Que eu saiba, dois: um, que já morreu e virou santo e o outro que está por aí, vivo e devidamente imortalizado.
Mas, por favor, não fiquemos na pura e simples sagração do gol. Ato isolado. A obra-prima, pra ser eterna, jamais será um mero desfecho. Transcorre, seguindo uma partitura rendilhada de cadências, de fintas, de dribles, de contra-pés. O ato da criação, nele, conterá, sempre, começo, meio e fim. A sina desse moço transcende a simples centelha do artilheiro. Ele não é de fazer gol com restos de bola. O gol dele tem sido e há de ser, sempre, fruto de um processo, de um delírio, inspiração divina.
Muito desconfio de uma coisa: antes de haver futebol, a bola já pressentia, sorrindo, seu encontro com Romário.
Luxemburgo e a Seleção
Wanderley Luxemburgo troca, mesmo, o Corinthians pela seleção. Prevalece, assim, a ordem natural das coisas. É um sonho que se converte em realidade. Na esteira da saída, Luxemburgo deixa um pesadelo no Corinthians.
Que fazer? É sonho antigo. Mais que um sonho, uma obstinação. Quando ele era ainda fichinha da profissão, já avisava que, um dia, acabaria técnico da seleção. E, a bem da verdade, Wanderley Luxemburgo chega lá com todos os méritos. A coisa ia pegando porque o banco que o tinha sob contrato andou roendo a corda.
Uma coisa parece indiscutível: o impasse só existiu porque a seleção, há muito, já deixou de ser uma instituição. Agora, a camisa canarinho é apenas um produto. Perdeu o encanto que distingue os símbolos. Noutros tempos, o banco a que Wanderley Luxemburgo estava preso - noutros tempos, repito - o banco seria o primeiro a estender tapete vermelho e a fazer alas pra se despedir, honrada, do técnico por ele cedido à seleção.
Rápidas e rasteiras
- Há dias, dei uma nota simpática sobre a aplicação com que joga o atual time do Santos. Ninguém refresca. Mas, também, não precisa exagerar como ocorreu contra o Vasco. O Santos fez 40 faltas. Vamos e venhamos. Meu bom Leão, não estaria na hora de dar uma prensa nos gladiadores da Vila Belmiro?
- O Esporte Clube Recife entra - e entra pela porta da frente - no clube fechado do basquete feminino brasileiro. Contratou Branca, Karina, o arco e a flecha do melhor basquete paulista. Além das duas, outra estrela de seleção: Adriana.
- Eurico Miranda, definitivamente, não é uma pessoa de convicções; é um ser só de conveniências. Quando, há alguns anos, a Câmara Federal pretendeu processar Ricardo Teixeira, para apurar o escândalo da arbitragem na CBF, Miranda fez o diabo pra torpedear a comissão parlamentar de inquérito. Eram, então, aliados. Agora, rompido com Teixeira, Eurico anuncia que não moverá uma palha em defesa da CBF, no caso do lesivo contrato com a Nike. A ética do cartola varia como a lua: vai do crescente ao minguante.
- O deputado federal Aldo Rebelo (Pc do B, de São Paulo) me manda fax da representação que fez, junto à Procuradoria Geral da República, contra a CBF, por causa do contrato com a Nike. O deputado está espumando e quer anular o tal contrato.
- Por falar em contrato, o diretor da Nike no Brasil confessa, publicamente, que a grife só exige, preto-no-branco, a escalação de oito titulares por medo de levar um passa moleque da CBF. Teme que a seleção apareça, amanhã, cheia de peladeiros catados na esquina. A Nike trata o futebol brasileiro como se aqui fosse a terra de Marlboro. Vai ver, é mesmo.
- Louvável, por todos os títulos, o entusiasmo do Paraná pelo esporte de alto nível. Depois do vôlei, com Bernardinho, do atletismo, com Joaquim Cruz, agora o governo Lerner convoca Hortência e entrega à primeira dama do basquete, um projeto de vulto. É o basquete feminino inteiramente, em boas mãos.

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